maio 24, 2006

Quando o monge faz o hábito…


Um dia vou ao confessionário. Não um desses com padres. Outro, daqueles meio reais meio imaginários. Uma qualquer construção mental que não descortino ainda. Não são os pecados que me afligem, antes uma certa incompetência no pensar e agir que prostra faculdades que se arroga ter sempre em presença, garantidas.

Vale o socorro de especial valência, particular, única. Impele em direcção continuada, invariavelmente a que se pressupõe no dito firme e alegórico “para a frente”. Mesmo quando a mão é fraca pode caber que a sorte nos presenteie com trunfos; e assim é.

É nestas ocasiões, ainda que subsidiado, que o monge deve promover a iniciativa de fazer, ele próprio, o hábito.


MONGE A LER

monge a ler, rembrandt


Em cada gesto perdido
Tu és igual a mim
Em cada ferida que sara
Escondida do mundo
Eu sou igual a ti
Fazes pinturas de guerra
Que eu não sei apagar
Pintas o sol da cor da terra
E a lua da cor do mar
Em cada grito de alma
Eu sou igual a ti
De cada vez que um olhar
Te alucina e te prende
Tu és igual a mim
Fazes pinturas de sonhos
Pintas o sol na minha mão
E és mistura de vento e lama
Entre os luares perdidos no chão
Em cada noite sem rumo
Tu és igual a mim
De cada vez que procuro
Preciso um abrigo
Eu sou igual a ti
Faço pinturas de guerra
Que eu não sei apagar
E pinto a lua da cor da terra
E o sol da cor do mar
Em cada grito afundado
Eu sou igual a ti
De cada vez que a tremura
Desata o desejo
Tu és igual a mim
Fazes pinturas de sonhos
E pinto a lua na tua mão
Misturo o vento e a lama
Piso os luares perdidos no chão

Tatuagens’, Mafalda Veiga (com Jorge Palma)

Publicado por PmA em maio 24, 2006 02:27 PM
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