março 29, 2006

Tremeluzindo…


Não creias que foi fácil deixar-te. O ar leve e o rosto enfadado, acrescendo-se ao/ o passo estugado, de saída para a porta de saída…dissimulavam na realidade o que eram sentido e sentimento reais; ao bater surdo da porta, ao tilintar da chave que rodava o trinco da fechadura, o castelo de cartas da aparência, aparente solidez de forte inexpugnável, desmorona em colapso instantâneo – o rosto inquina-se então, constrangido pela impotência de ser(-te) melhor: sou sempre assim, não é verdade?, meu dizer que não chego a dizer-te; só para mim, silenciando outra vez mais as palavras… porque as palavras babam ou, se não, foi forma de auto-convencimento que providenciasse solução para o enigma do silêncio, do silêncio ou de não saber falar-te.

No elevador não foi possível abstrair-me do rosto, encarei-me então com gravidade furtando-me furtar-me ao inevitável: o espelho, esse, afinal já lá morava antes da minha chegada; não achei justa consideração aborrecer-me com ele. Assim vi e consegui ver sem olhos de ver… os subterfúgios que arranjamos, somos máquinas neste engenho do engodo; por isso os computadores não nos irão ultrapassar, não tão cedo certamente. Foi o olhar sem ver que tornou tão breve a viagem, ou mais ainda para aquela viagem de segundos. Ao carro. O carro é mais simpático e mais simples; chave que gira, pega, está pronto. Sublime, sabe o caminho para casa e sabe-o talvez melhor que eu. Foi sem reclamações que a chave voltou a girar e que de novo se silencia aquele objecto tão maior que qualquer um de nós.

Outro espelho, repete-se o aprendido, o elevador assoma ao destino num ápice. Quem faz girar os trincos à fechadura sou agora eu; duas vezes, lados opostos – os ritos são tão monocórdicos, tão semelhantes, tão iguais até… E nestes pequenos nadas, obsolescências perante facto a atender, supõe-se ser possível subtrairmo-nos à moinha que se faz sentir e que é a real ou talvez mesmo, quem sabe, a única presença. Fraco ardil, convenha-se… Mal se instaura o silêncio e o que era moinha é agora o predominante, esgotados todos os patamares da evasiva não mais se mantém a possibilidade de omissão a nós próprios; inevitável. Face a face: tu e tu – sim, eu e eu; não há mais espelhos também.

Compreenderás que não houve leveza nem enfado mas ao invés o reflexo – espelhando… – de uma imagem verdadeiramente inautêntica? O manancial do inautêntico é de um expoente que não sei enunciar; ainda assim teimamos em tratar de o alimentar. O bater surdo daquela porta permanece firme e intacto como se solenemente fosse acontecendo a cada novo instante; e o indagar, imediata indagação que consome a totalidade dos recursos cerebrais restantes, indagação que se consome na inútil mas absolutamente necessária tarefa de perceber como ficou o outro mundo agora clivado pela fronteira tão robusta quanto imperturbável em que aquela porta se consubstanciou.

Somos todos pequenos e inúteis. Por isso mesmo imprescindíveis. Bom sono; ele há-de chegar. E outra vez a inércia prestará lugar ao activo expedito. Pois no fundo desejamos o mesmo, ser um e tudo. Como se fosse uma estória…


blinking star

"Come and lay right on my bed, sit and drink some wine
I'll try not to make you cry
And if you'd get inside my head, then you'd understand
Then you'd understand me
Why I've felt so alone, why I kept myself from love
And you became my favorite drug
So let me take you right now and swallow you down,
I need you inside

If we had this night together
If we had a moment to ourselves
If we had this night together, then we'd be unstoppable

Do you think that this is right, or is it really wrong
I know that this is what we've been wanting
And all this is burning in my soul, it fills up to my throat
It fills up till my heart is breaking

Now, we can both learn
Somehow, you'll see it's all we have
Love, it keeps us together
and I need love

When I wake up without you, knowing you're not there
I'm only feeling half as good
Now I'm gonna find a way
To wrap you in my arms, you make me feel alive
"

'Unstoppable', The Calling

Publicado por PmA em março 29, 2006 03:53 AM
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