Quem em estado contemplativo, de mãos abertas a aguardar dádiva, contempla o céu confiando que este lhe é devedor, supondo que deste obterá o dom que almeja, vive nada mais que sonho (dementia) ficcionado pela sua mente; mesmo que desse céu ‘chovesse’, por hipótese, o objecto prosseguido saberia o sujeito dar-se conta do facto, dele se consciencializando, atribuir-lhe-ia algum valor? Não creio, a cegueira assoma a quem habituado está em tudo obter sem o devido crédito – noutras palavras, sem que ele próprio, sujeito, se tenha feito merecer.
Aplica-se a regra do potlatch, da dávida, mais correcto, do dom. Nem o céu está para milagres...
A aparência do fenómeno, a sua corrente ou movimento dinâmicos, apresenta-se simples. De facto, não o é. O dom é, ou deve sê-lo em princípio, oferenda desinteressada; mas obriga a retribuição, normativismo consuetudinário. Não existe paradoxo nem contradito, sendo antes que logo à partida o fenómeno se complexifica. E como escalpelizar não é oportuno, faça-se tão somente entender que o próprio dom deve ser percebido numa lógica que assenta no merecimento; merecimento que por si nunca é gratuito. É esta a única dádiva que se deve esperar, pela qual se devem tecer as proposições da expectativa.
Obedecendo a nenhumas regras que não as naturais, a chuva continua a precipitar-se – nesse seu sentido único, descendente, do topo para o rés. Há que buscar a oferenda, há que buscá-la fora do vocábulo popular “caído do céu”. Há que fazer-se merecedor dela mesma, há que retribuí-la porque sim mas também porque o ensejamos; há que retribuir, por interesse latente ou manifesto, por obrigação costumeira mas mais ainda pelo prazer que essa praxis permita; há que retribuir e manter, velada ou não, a esperança de que esse ciclo iniciado se multiplique... até onde os sentidos não se obstarem.
A história está marcada pela guerra, da mais abominável à mais nobre. Guerras que se operam reais ou simbólicas, pouco importa em qual dos planos. Não fomos moldados para desistir: e a alusão à história serviu apenas para confirmá-lo. Vacila-se, mas é bom que não se tombe. Interrogações que surgem, mas que não se esperem todas as respostas. A angústia pode parecer firme, mas o horizonte move vontades. E os tempos mudam... Gratificados pela dádiva ou não.
Entre muitas outras coisas de que me lembrei a ler este texto lembrei-me de uma que pode ter a ver com isto tudo... ou não... Como me disse hoje um professor: "cara amiga, trabalho, muito trabalho..." sempre que se esta desanimado, costuma ajudar imenso...
Só isso, a chuva, e o velho Mies Van Der Rohe que me diz sempre o ouvido quando eu desanimo: "Less is More", e eu respiro, e penso, "em frente, e que se lixe" ;)
Não sei. Há divagações estranhas. De qualquer forma trabalho em excesso é de precaver. Não vá um pretenso paliativo tornar-se patologia; de gravidade mais acentuada. O segredo é bem capaz de ser o equilíbrio, mas onde ele fica é segredo ainda maior. Vou continuar à procura e se encontrar digo-te.
;p
ah! dessas descobertas gosto... alias gosto de descobertas agradaveis... e dessa então n me importava nada. Sabes que promessas são para serem cumpridas e espero por essa descoberta. E divagações tranhas, pois dessas tenho muitas, deve ser por isso que ainda não consigo ver bem determinadas coisas, pode ser com o tempo, e em alguma dimensão estrnha as encontre e depois como boa egoista as guarde so para mim, porque meu amigo, é assim que tem que ser ;)
Afixado por: chavininha em janeiro 7, 2006 12:12 AMNão acho mal. Se bem que se esperares vais certamente desesperar; não me parece que encontre resposta, só que a ia procurar (e que se a encontrasse... o resto já sabes).
Não sei o porquê da aplicação "como boa egoísta"; há coisas só nossas - ainda que o 'nosso' seja expansível, mas não vou entrar por aí.