novembro 07, 2005

Nicola ou Café com Natas e um Maço de Cigarros

Não sei o que te hei-de dizer. Melhor, não sei o que te escrever. Talvez que tenham razão aqueles que asseveram que o tempo sana e sara. Talvez ainda que não lhes queira oferecer em bandeja essa razão, mas que a possuem na mesma. São circunstâncias estranhas não sentir alegria ou tristeza, euforia ou profunda mágoa. É estranho quando o que assola é uma apatia genérica e generalizada, semelhante, única metáfora que encontro, a uma inexistente formatação operada ao nível dos sentidos. Estranho, mesmo quando sei que os conceitos que uso para contigo me corresponder em monólogo são tão ironicamente comuns; linguagem partilhada, conceptualmente partilhada, a nossa. Creio mesmo ser a única partilha que não soçobrou a todos os exageros, creio ser a última – derradeira – e única – pela singularidade – partilha que mantemos: mantém-se, porém, sem que a nossa manifesta vontade interfira, é assim e nós dois sabemos porquê, sabemos por ser partilha que a distância não alvitrará vencer. Porque é conceptual, por sermos formados iguais. Até o diploma, consagração dessa vitória conceptual (nossa ou dos conceitos sobre nós?), comungou da mesma data, da mesma hora – o hiato maior poisou nos segundos – ao ser levantado como troféu: inerte, agora, algures por casa, olvidado; em lata própria de que o pó, cumulativo em camadas, fará residência. Como tudo é relativo, como os momentos se esgotam noutros a acontecer, como a soberba de um dia presumido inesquecível se esfuma até à invisibilidade no ar. É estranha esta impassibilidade, este desmaio promovido (despromovendo?) aos tais sentidos que mencionei; que a ti mencionei. Não os passados, ainda que a arte de esquecer intervenha sui generis sobre eles manter-se-ão para sempre intocáveis, mas os presentes que te “sentem” – sentir que aqui obriga a aspas – na indiferença de quem és, de quem serás, mais inquietante, de quem foste. São afinal os momentos ou somos nós, sapiens de latitude a latitude, quem tropeça, tropeço indelével, para a irrelevância? Não sei, nem ouso adiantar qualquer espécie de resposta provisória mesmo que prospectivamente pudesse ser manipulada de acordo com as dimensões do fenómeno – arrogante, dizias-me; sim, mas arrogância não é estupidez, ou pelo menos dessa que se vislumbra à mais ténue luz do dia, e estúpido não me apetece sê-lo agora (mais do que).

É essa falta de formatação, a apatia, a indiferença ou impassibilidade, escolhe tu, impus-te já demasiadas vezes o meu “mui nobre” ponto de vista, que foi conducente ao primeiro passo de quem tem novas rotinas em construção. É essa falta de ou excesso de que me fez questionar o porquê de manter o telemóvel ligado durante toda a noite, quando na realidade o motivo – seria calunioso mencioná-lo – se esgotou na inexistência, apartado para a intemporalidade que nos não é acessível: vivemos tempos, espaços, acções e não acções – que são per si o mesmo. O telefone não vai tocar, e tu percebes bem o que digo. Desligado agora porque não me interessa. Ou, então, ocorre o contrário, ligado apenas quando certo de que me vai servir; ainda que apontando fins que se executam noutra escala de grandeza, desde já condenados à impossibilidade da aferição. Um princípio que se podia tomar por risível, este que te aponto. Porém, e como fomos fustigados com isso, as aparências não devem ser assumidas como real verdade, desconfiar, com desconfiar de raposa astuta, dos pré-conceitos envolventes. Aceite-se que os factores de mudança não são a maior parte das vezes e por maioria de razão fenómenos imediatos. Há sempre um início; risível, se ainda assim depois do que te disse o considerares; um estado nascente, a reboque das palavras de Alberoni, mesmo que tímido e parcimónio, já gerado e em concepção crepuscular – feto anódino que busca enformar-se; em busca, talvez, de um quê ou vários por onde se identifique, da amálgama de credos e valores que o façam ser extirpando-o ao vazio do vácuo que é coisa alguma senão vontade de vir a ser. Sendo, apatia ou não – pelo que não me permito sustentar que tenho pena; nem o inverso. Inércia esta que será então ser e parco existir. As mudanças são transversais, “brincam” com os demais esquemas existentes, tocando-os a todos; vamos, por isso, com calma – sem abdicar de ir indo: desenvolvimento sustentável?, questiono-te mais em galhofa infantil do que em seriedade adulta. Postergo da tua resposta; outra vez, desconfio fortemente da reacção que te acometeria.

Não interpretes estas minhas tolas palavras como testamentário de quem apresenta o seu adeus; o que aqui encontras não é uma carta de despedida. Nada tenho que me incompatibilize com despendidas, antes as considero como factos francamente normais. Mas nada indicia a que o seja: como ser despedida do que não é? Evitemos, por ora que uso e abuso deles, o paradoxo e as suas relações que tanta vez fazem crer que o paradoxo anula o paradoxo, esquemática muito moriniana que ficará aqui por explorar. Antes são palavras de memória. De memória absurda. De memória irrelevante neste presente dada a inconsequência que a tal apatia – insensibilidade? – traduz. De memória neutra, que é a pior que se pode ter: amorfa, noutro plano, em igualdade com a apatia, insensibilidade, inconsequência… já te pedi, escolhe tu – por uma vez a terminologia não será/ sairá imposta.

Todavia, atente-se às confusões: cuidado com essas trapaças, manhosas sempre a tentar enviesar a lógica e o raciocínio – porque pensas ter tido eu por norma assaz insistência em reagir apenas e depois de a cabeça ter tido tempo e espaço para se resfriar, retornar à temperatura e ao estado?; sou um convicto desconfiado das ditas reacções a quente, entra-se pela trapaça – estar baralhado, recordas? –, faz-se, diz-se, acontece-se por demais em respostas de efeitos perversos, pervertida que se encontra a mente, efeitos não desejados que com um pouco de esforço e trabalho se podem perfeitamente protelar ou mesmo escusar ao acontecimento (no) real.
Dizia, e lá me perco como é habitual nas minhas inconsequentes divagações, devaneios de quem não simpatiza nem pactua com o silêncio, dizia para se atentar às confusões. Que pretendo significar com esta sentença rabiscada como ordinário recado? Conseguirás induzir o que agora (não) te diria se estivesses à minha frente, em interacção directa? A minha convicção é que sim; ou que lá perto; ou que, pelo menos, o tu que conheci – seria preciso abrir nota para lembrar que não somos mais os mesmos? Que insinuo, que pretendo que não confundas (tu, tu contudo não só tu…)? Coisa simples, por quanto complexa igualmente o seja.
Impávido. Apático. Impassível. Desinteressado. Nesta inércia, (quase) imperturbável. Não te quero ver. Não quero que o acaso nos estampe situação face a face. Aqui reside a pouco modesta confusão, assente e sustentada por reacções a posterirori que se podem tão bem equacionar no evento do porvir. Não quero cruzar novamente o menor olhar de soslaio. Inventem todos o palavreado que lhes aprouver; a mim, digo, ocorre-me um único significado: profilaxia; e nenhum outro. Não me agradaria, sendo simpático, ficar sem jeito perante esse confronto árduo de negociar. Ficar sem jeito, palavras tuas; sempre as odiei em mim, soava-me mal, agredia-me o ouvido, soar-me-ia falso?; a ti, no entanto, em toda a tua meninice, calhavam-te, assentavam bem. Não confundas de igual forma o conteúdo destas pretéritas afirmações redigidas com o que pode aparentar rigidez ou, se quiseres extrapolar, agressividade controlada. Nem uma nem outra me ocupam mente ou intenções. Presumo estar a fazer a apologia da verdade se considerar que as nossas – discurso no plural, se mo permites – pretensões concorrem em igualdade de fins: longe do corpo, longe da mente, que sejamos ambos felizes; aliás, é corriqueiro pensar-se assim quando serenos. E é exactamente isso sem acrescentos nem retirares. Retomo o singular, o discurso na primeiríssima da primeira pessoa. Não é demasiado redutor assegurar que assim se monta agora o meu esquema mental; melhor, já seria mas vai-se enfaticamente impondo como paradigma. É da minha mais manifesta e pura (se isso ainda existe/ subsiste…) vontade que vivas feliz dentro das possibilidades e circunstâncias. Não acrescento qualquer outra adjectivação, redundaria na banalidade da lamechice (mais ainda?): não me conhecendo ainda conheces parte, daquela estrutural que, contava-te eu, poder ser passível de afinações mas impossível de reconstruir a partir do radical, portanto não me alongo em justificações – sou já pueril que baste, não hesitavas mesmo em mencioná-lo com alguma frieza cruel mal te vias em situação de. O se. Há-o inevitável, mesmo no que se diz perene, confirmado e re-confirmado pelos factos e empiria se caso disso, etc., etc., etc.; todos os et ceteras que jamais conseguiria deixar por escrito, inclusivamente imaginar...
Quase diria que havendo condição humana, esta decorreria logo em primeiro plano do se; outra caixa de Pandora, reserva talvez que sustenha a demasiado intensa arrogância pela qual teimamos em nos exprimir. Creio que o se “exigido” – nova obrigação em colocar aspas – não será excessivo nem ultrapassa os leitos do razoável. Porém, a dúvida permanecerá; o se, contudo, resiste. O meu se provavelmente assume mais os contornos da solicitação do que propriamente os da exigência – novo devaneio, mas já sabes que… Não nego que prefiro, que quero, que sejas de braço dado com essa coisa, felicidade. Que o sejas, sem dúvida, bem composta nela à distância do se que afinal nada mais é que do que a ausência absoluta de ti. Sê completa no seu colo, mas fora de mim e de todo o manancial que possa constituir o meu habitat, o meu meio, o meu espaço e tempo de circulação. Tudo isso e não menos: que sejas, sem que preciso que o veja ou tenha de co-viver; esse não é local que preconize habitar, esgotando portanto nesta premissa o tal se que, afinal, será assim tão escandaloso? Entronquemos, cada um, pelo seu território – é de facto mero assunto consubstanciado no território: e território são coisas, espaços vivido e a viver, pessoas, organizações, interesses. Esgoto igualmente o meu discurso.

Perceba-se sem prestidigitações vulgares que mesmo a insensibilidade, a apatia, o rol de todos esses conceitos por onde poderás escolher mais em conta, à tua maneira, o que melhor se te adequar, não é contudo – e entenda-se bem! – acrítica. Todos os estados estão sujeitos a dinâmicas impeditivas que se cristalizem ad aeternum. Conserva-se finalmente (?) este como o dominante. Assim permanecerá até que ‘convenha’ solver-se por entre nada como a areia que à força de mais força se esquiva com maior afinco.
As saudades que tinha de ir ao Nicola, puxar por meias-dúzias de cigarros, café quente, que até a estação convida, e ficar indiferente na irrelevância dos pensamentos que se atravessam, se criam, ou que simplesmente correm de passagem. Cinzeiro estreito aconchegado por filtros entrevados, chávena vazia, horas passadas… indiferentemente ponho-me a andar, baixa adiante. Súmula, parece que nada te contei; pouco importa, nem me lembro.

Publicado por PmA em novembro 7, 2005 02:18 PM
Comentários

Prefiro sical ;)

Afixado por: jacky em novembro 8, 2005 09:06 PM

A tua bela Sanita, já lá está :)

Obrigado
Abraço

Afixado por: Finurias / Sanitas em novembro 9, 2005 04:19 PM

Gostos não se discutem. Mas este Nicola é um monstro sagrado; de culto, mesmo - chegou(-me) para ficar. É daquelas coisas de saudades boas, como se diz por vezes. Terminando, jacky, no Nicola tem de se ser café nicola... heheheh. ;)

Constatei que sim.
Abraço, Finúrias.

Afixado por: PmA em novembro 11, 2005 01:10 PM

Já fui destinatário deste tipo de pseudo cartas de despedida. esta escrita causa-me calafrios.

Afixado por: sofia em fevereiro 20, 2006 10:19 AM

Mas não é uma carta de despedida. Mesmo fazendo apelo a que assim não fosse entendida sabia que não conseguiria passar a mensagem correcta. Não é mesmo, mais ainda por ser póstuma em tempo e talvez também em espaço; não nos podemos despedir de quem já não temos.
Gostei da expressão causar calafrios, ainda não me tinham dito essa mencionando palavras que escrevo; gostei e pronto.

;)

Afixado por: PmA em fevereiro 22, 2006 01:24 PM