novembro 02, 2005

Estórias de um Outono


Voltou de novo o tempo de chuva. Impôs-se. Valente, com força. Molha quem quer e quem não quer. Há tanto a ser lavado…

Decidida, varre-me as janelas. Tocada por vento moderado, instrumentaliza-se pelas diferentes superfícies por onde em harmonia se estatela. Sem maestro, sinfonias orquestradas naturalmente com a perfeição que a Natureza invariavelmente demonstra. Apetece fechar os olhos escutando-a assim durante alguns segundos, concentração momentânea absoluta neste magistério; não ocorre por vontade de mero acaso que várias colectâneas se reúnem com exclusivas musicalidades naturais. Gosto de ti, chuva. Gosto de te ouvir.

Desktop a debitar mails como se o amanhã não voltasse a sê-lo. Laptop, teimosamente impregnado pelo cheiro a trabalho – há hábitos que não se mudam mesmo. Não fosse a secretária em L e como seria? Phones, o iTunes canta músicas que me fazem lembrar-te; e aos nossos dias de chuva, ao carinho que me distribuías infinitamente. Apagar, apagar, apagar; apagar mails de merda. Vê tu, até eu já estou viciado nestas coisas de apagar – antes isso que… e com (que) sucesso?, sei lá e saber não me preocupa o espírito.

Toca na mesma a música da tal água que cai do céu, indiferente ao restante; ou ao restante que aqui é o do humano. Cai. Quem sabe se não é só esse mesmo o segredo, cair. Cai, caindo em harmonia de imagem e som. És meiga, sabias? Tenho a música a piar baixinho para também te poder ouvir; se te percebesse, que dirias? Que estórias trarias dos teus périplos pelo mundo, que segredos poderia contigo partilhar em linguagem que ninguém conhecesse? Imperceptível, todavia. Como a linguagem do amor. Não careço de tradução, danem-se as sistémicas explicativas e/ ou compreensivas. É por si satisfação compreender a única compreensão que quero guardar, compreender que gosto das palavras que entoas em canção bandida – ou assim creio eu – natural como a Natureza. Que é da natureza do amor? Adormecida, estado hibernante, fica o “existe em potência”. Bem bom, doce dormência de membro há muito estático. O pior, esse fica para depois. O pior?...

Entupido por sinusite e alergia crónicas, ainda assim respiro a terra molhada. Tal como um início. Reinício. A história de ser a História cíclica. Conceptualização que me remexe as entranhas, por sentimento e por pseudo-cientificidade, ainda assim aceito porque sim que algumas parcelas pequenas o sejam. Circulares… repetidas na semelhança, jamais na igualdade – o princípio que nada sucede duas vezes de exacta maneira. Tu que cais fecundas o mundo, fecundas as ideias; o espírito das ideias. Importar-te-ás de as refrescar e a outros tantos do mesmo plano? Peço-te que sim. Premências de loucura extemporânea, assim no entanto ensejo. Fá-lo, fazes?

Os mails por fim terminaram. Megas de nada. Ou de quase nada: existe assim a presença do outro, do emissor que clama “estou aqui”; visto por esta perspectiva sorrio – apago-os quase todos na mesma. O desktop deve estar cansado, e também o msn que apresenta todos os contactos em marron. O portátil, esse, teima no seu gosto pelo intenso odor a trabalho, multiplicando janelas que mais ignoro que atento. Daí iniciar o browser da net. Navega-se a web por largos minutos, com alguma parcimónia. Canso-me. Não do cansaço, desse do físico – não. Canso-me, do próprio, de mim, de modos de ser no seu simples existir inelutável que refuta a desistência. Chamo pela cama quando devia ser ela a chamar por mim. Tu, chuva, persistes em cadência perfeita. Gotas mil precipitam-se do algures cósmico do céu que faz barreira à visão de distância: não há estrelas, não há luz; ou há, escondem-se, e porque não?, possivelmente exaustas de si e da sua holística maçadora.

À tua melodia quero adormecer, os afagos agora vêm de um exterior longínquo que não me é exclusivo. Conte-se, porém, que gosto de ti. Que gosto de adormecer ao teu embalo, no escuro. Até amanhã, conto (re)ver-te e (re)escutar-te quando o dia for outro; quando o dia for dia. Assim, para sempre – até que se perverta e logo se reverta.

Publicado por PmA em novembro 2, 2005 01:19 AM
Comentários

Não entendi o artigo "Meu Pequeno Pintainho".

Foste tu quem pintaste?

Se sim, meus parabéns!

Também gostei de estórias de um outono (embora aqui, onde estou, seja primavera!)

Um abraço!

Orgulhosa Maria - Rock e blues das antigas!

Afixado por: Orgulhosa Maria em novembro 2, 2005 02:52 AM

Ah, mas não é assim tão 'difícil'. Quanto à imagem, os parabéns devem ser endossados ao photoshop: faz maravilhas no manipular de fotos digitais.
Continuação de boa Primavera aí pelas terras do Brasil.
;)

Afixado por: PmA em novembro 2, 2005 11:13 AM

Deixo-me embalar pela cadência das tuas palavras...

Afixado por: ANUKIS em novembro 4, 2005 05:26 PM

fiquei a conhecer este texto através do "amorizade", gostei imenso! =)

Afixado por: Sou o Eco de mim mesma! em novembro 4, 2005 08:29 PM

Lindo de chover....

Afixado por: charlie em novembro 5, 2005 09:45 AM

Se forem como esses elogios, anukis...

Pois, parece que ficámos a conhecer alguns; quem teve essa curiosidade, eco de ti mesma. ;)

Pois, charlie... pelo menos quanto à chuva, asseguro que gosto de vê-la.

Afixado por: PmA em novembro 11, 2005 01:04 PM