outubro 04, 2005

Passaporte (?)

É agradável sentirmo-nos incógnitos por meio de gentes. Por isso também a minha cumplicidade com esta urbe. Passar de permeio de rostos desconhecidos; que igualmente nos desconhecem – tanto fazia ser um calhau ou pessoa, mais uma, no furacão humano; furacão, que circula de todos e para todos os lados, fazendo crer-se fenómeno imparável fosse por que artifício humano fosse. Podemos estar acompanhados numa simultaneidade anacoreta perante os demais. Comunhão despretensiosa que permite a postura incógnita de quem não se quer reconhecido pelo íntimo. Porém, nas multidões, ainda que em acepção lata e pacífica, devem ser reconhecidas as suas vicissitudes e não somente a virtude que lhe extraí – que, aliás, não o é para todos.

Dada a impossibilidade de pôr em prática férias de si mesmo, são imperdíveis estes momentos em que pelo menos se roça por essa sensação; se não desconhecidos de nós mesmos, valha sermo-lo para a maralha que rodeia. Um truque de óptica com objectivo de distorcer a auto-percepção; podendo jogar-se ao fazer de conta de não sabermos também quem somos. O resultado, claro está, é parcial, limitado pela consciência de nós que castra a fuga; não deixa, contudo, de ser experiência gratificante que mitiga.

De retorno ao quotidiano, serenado, regressa-se de igual modo de si a si em toda a plenitude. Sereno, pacificado; reerguido. A história continua, o teatro de todos os dias cujo papel se representa com escassa e tímida margem de manobra. – escape? A demência da repetição, a busca interminável pela novidade que tão rara vez se manifesta, menos ainda se conquista – e se se conquista repete-se, quotidiana. Talvez a insatisfação e a busca sejam o rotor de todo este engenho que não é máquina porque é homem. Amanhã é outro dia, as sendas da – pela – humanidade infindáveis; página que se segue a outra que se dobra.

MADONA
madona, edvard munch

Lost in the depths, the depths of your eyes
I couldn't resist, why should I?
I want to relax, I want to feel free
I want to be you, you want to be me

look at you, I look at your face
Reach for my hand, just in case
Forever with you, you mourn i can see
Now I am you, do you want to be me?

Why are you always hiding?
Why are you always mourning?

Mourn’, Apoptygma Berzerk

Publicado por PmA em outubro 4, 2005 03:59 PM
Comentários

Pois, ha dias assim... mas e os outros?? :P

Afixado por: chavininha em outubro 4, 2005 09:53 PM

Azuis, cor do céu quando toca o mar; ou deviam ser. ;)

Afixado por: PmA em outubro 4, 2005 10:25 PM

pois, devia ser... mas às vezes... :S

Afixado por: chavininha em outubro 5, 2005 10:34 PM

Ah, mas o às vezes não é uma constante. ;)

Afixado por: PmA em outubro 6, 2005 10:31 AM

Pois, e as coisas deviam ser mais constantes... ou depois era o que? :S não sei, mas gostava que as coisas fossem mais constantes, ainda que... pois, azul, da cor do céu quando toca o mar, as vezes... parece-me justo ;)

Afixado por: chavininha em outubro 6, 2005 11:35 AM

Alguma regularidade, sempre que se faça acompanhar de factores de mudança que minimizem o sentimento rotineiro.
De qualquer forma, esse azul parece-me bem.
;)

Afixado por: PmA em outubro 6, 2005 02:19 PM