setembro 15, 2005

Hipoteticamente...

Acorda. O sol brilha e aquece. Serão os derradeiros dias deste ano com esse sorriso encantado, com mão invisível a acariciar num doce morno corpos que despertam numa serena e púdica volúpia. Acorda, arreda os teus sentidos da inércia a que te entregas, sem condição, pela dita vida de todos os dias. A rotina, digo-te eu, não é daqueles fenómenos que possamos impedir; acontece e pronto, constitui-se e é normalidade; tenta, ao menos, minimizá-la – isso podes, consegues se o pretenderes; acciona o mais belo em ti e desprende-te dessa devassa que consome tanto quanto destrói vidas, escapa-lhe – enganando-a, sem dúvida – de quando a quando: entregar-te-ás ao desbarato, abdicando de qualquer tentativa? Se assim for garanto-te, ainda que com embaraço que escassa legitimidade tão bem evidencia, que então já perdeste. Sei que já te cruzaste, algures por caminhos perdidos, com a felicidade; queres agora deixar de te importar? Poucos mais dias e o Outono; cinzento, as folhas amareladas que cobrem em manto os chãos, as roupas acumuladas umas por cima das outras subtraindo o frio ao corpo mas não ao espírito, a chuvas que choram lágrimas deixadas por derramar...

Prática reiterada com convicção de obrigatoriedade: o costume. É como os manuais jurídicos, talvez com discrepâncias pontuais aqui e ali, formulam a sua definição. Optaria por diferentes moldes, contudo é certo que pouco alteraria o seu significado – em profundidade, certamente; o âmago, inalterado. O costume inculca-se, raízes profundas nas entranhas, no pensar que logo se manifesta na praxis. Por mais razão que se distribua, mãos largas, ao sentimento de que são na sua maioria infrutíferas e transbordantes em efeitos nefastos não desejados, desgastantes e contrárias aos arquétipos do cuidado de si, raras vezes são excomungadas por um arbítrio equilibrado e desígnio próprios; diz-se que burro velho não aprende. Entrecortados por entre inabilidades e por razões mais sérias de saúde mental, irrompem congeminações assentes na plausibilidade, nas aparições do verosímil, na concórdia de frentes que se disputam, na derrota de batalha há muito inapelavelmente perdida; e a decisão de que costumes há proclamando por enterro em eterno sossego, permutando-se com outros em pacífica conformidade com a realidade do real.

Após a tormenta sucede-lhe a bonança. Ainda que dúvidas permaneçam, inevitáveis. Mas são frágeis, a sua consistência esgotada. Sabes, mesmo rabugento gostava de acordar, como tantas vezes se factualizou, contigo ao meu lado. Pelo que tu quiseres, por adorar, por segurança que se afirmava, ou simplesmente por te sentir e saber ali. Seria possível enumerar um rol imenso de motivações por entre as mais racionais às que em seu todo se pautam pelo seu contrário; aliás, o que importava isso? As escaramuças imiscuídas na ambivalência de pensares sentidos permanecem, patentes. Entroncam-se de permeio com e na ausência de vontade em crer, entrosadas numa memória avessa ao esquecimento ou até mesmo ao simples deixar ir. Clarifica-se invejavelmente, no entanto, uma perspectiva afirmativa, que de momento só quero e posso ficar comigo sem interferência nem intromissão. De momento preciso de mim. Por ora fico apenas eu. Harmonia na dissensão, enfim.


Don’t put that thing too close to my head
It took this long just to get ahead, he says
He knows for sure, but that he can’t decide
Between his decency an his matter of pride
So he’s growing up on time, he’s growing up in the middle...

And it burns, and it burns, the sun burns
Oh, now I can really feel it. How could you ever stand it?

R’ n R’, Faith no More

Publicado por PmA em setembro 15, 2005 12:50 PM
Comentários

Bela prosa! Bom uso da língua portuguesa! Dou-lhe 20 valores, mas não é para se desleixar. ;)

Afixado por: hodiguitria em setembro 15, 2005 01:06 PM

Com tamanho - e exagerado... - elogio só é possível tentar que isso não aconteça, o desleixo.
;)

Afixado por: PmA em setembro 15, 2005 02:40 PM

E que tal? a busca esta a ser productiva? ;)

Afixado por: chavininha em setembro 18, 2005 07:18 PM

Inconclusivo, chavininha...
;)

Afixado por: PmA em setembro 19, 2005 09:38 AM

hummm.... ja ha desistencia?? não acho nada bem!

Afixado por: chavininha em setembro 19, 2005 10:25 AM

É mais continuidade na inconsistência, parece-me.
;)

Afixado por: PmA em setembro 19, 2005 03:29 PM

hummmmmm, mas não esta bem na mesma :P

Afixado por: chavininha em setembro 20, 2005 09:25 PM

Beje, muito beje. :P

Afixado por: PmA em setembro 21, 2005 12:59 PM