Sem sono, acordara cedo. Enfiara-se no escritório, única divisão de obras prontas no primeiro andar daquela casa de dois pisos. Rés de chão concluído, andar de cima a aguardar decisão ou ideia sobre o que dele fazer – excepto, claro, o escritório, exigência sua.
De férias, porque se levantara, acordado, tão cedo? Pensa que os horários são rotina difícil de esquecer, que o organismo lá se habitua a um certo rigor imposto e, afinal, isso do despertador orgânico não é disparate descabido. Férias, como explicar o seu impulso de subir àquela divisão e ligar o portátil mais os ficheiros de texto, estatísticas e mapas? Foi um duche rápido, costume de ter cada minuto contado ao seu pormenor, leite tragado em poucos e largos tragos, nada mais no estômago ainda intolerante a qualquer alimento sólido. Enquanto a máquina iniciava o seu sistema operativo, abria três ou quatro livros que assentava seguidamente na secretária numa lógica ordenada própria; outros mais empilhavam-se em equilíbrio inconstante a seu lado. File, open; esfrega os olhos, a manhã deve ter umas duas horas. O torpor do sono faz-se ainda sentir – já passa; como tudo, já passa.
No rádio da aparelhagem as notícias que fizeram este verão. Das labaredas que teimam em consumir floresta, as politiquices de um país que aponta querer regredir vinte anos, o lufa-lufa da bola da primeira liga mais as selecções, os comentários de comentadores de ocasião que se querem fazer ouvir, cansados de companheiras e companheiros que não lhes ligam peva ou de verem a sua cidadania esgotar-se nas datas de eleição, opinam sobre tudo sabendo de tudo um pouco. As estatísticas no monitor cansam. Acordaste cansado. E cansam igualmente as vozes saídas pelas colunas. Ao contacto com o comando responde com silêncio a aparelhagem. Volta a esfregar os olhos, desfolha umas quantas páginas em gesto mecânico de quem não presta atenção.
Da gaveta salta um cinzeiro. Do bolso, um maço vermelho e branco de papel amarrotado. Um cigarro um quê de encarquilhado e um tanto para o torto prende-se entre lábios. Não gosta de fumar em casa, o cheiro, o fumo... Já a teimosia faz disso prática corriqueira em jejum. Os médicos que sentenciam a toda a hora que é terrível fumar em jejum. Um sorriso sempre que a expressão é escutada. Não será fumar que é terrível? Outro livro. Os índices de população, as assimetrias regionais, as identidades que devem ser preservadas. Esfrega só um olho, não deixando de apoiar o queixo preguiçoso na palma de uma mão; a outra rabisca a caneta um papel branco, traços e linhas desprovidos de lógica ou de contextualização aparecem a preto, sempre a preto.
Já estás cá em cima?... impossível..., de voz sonolenta, acabada de vir do sono e de pessoa mal disposta logo pela manhã, substitui o bom-dia que diz o bom costume serem as primeiras palavras tanto a ouvir como a dizer. Já, foi a única e escusa resposta. Vara trémula pelo sono, ela volta-se para ir à sua vida, hesita, torna de novo. Finalmente, bom-dia. Lembrou-se. Para ti também, com os olhos colados num livro que não lia. Estás a fumar em casa? Definitivamente mal-disposta, vira costas e desaparece, não lhe caiu bem aquele parece que sim, que estou. Aos passos nas escadas juntou-se o som em jejum, de certeza. Também o cigarro fala, queimando ao rubro, puxam por ele.
Paulatinamente, o sol sobe. Sobre um exíguo cinzeiro de vidro alguns cadáveres repousam amontoados, esmagados após ter cumprido a sua função de entreter os humores e contribuir para o potenciar de uma panóplia de maleitas a quem os aspira com desregrada compulsão, mesmo que não saiba ao certo porque o faz. Sete janelas abertas competem entre si; do computador, não da divisão. Está mais calor. Pelos quatro vidros de janela firmada à sua direita, parte integrante na arquitectura da casa, contempla o campo, longínquo até onde a vista pode observar. Talvez uma mão cheia de tijolo e cimento, formatados em edifícios e na semelhança, humanizam, com modéstia, uma paisagem que lhe é agressivamente natural.
São ruídos que despertam o seu olhar deambulado. Lá em baixo, ao nível da terra e da relva, ela assoma. Já pronta para iniciar, agora sim, o seu dia. Saia de ganga que lhe passa o joelho, t-shirt larga por cima da pele, largo chapéu de palha, óculos de lente escura a protegerem do sol. Nasceu do campo e é do campo; por mais anos que viva na cidade assim sempre será. Ele não, é do cimento e do alcatrão que vive. Porque penso sempre nisto?, obrigando os mesmos pensamentos a apartarem-se de si. De cócoras, cuida do jardim que ela própria, paciente e contrariando adversidades, esquematicamente desenhara nas suas congeminações e mais tarde plantou, crescido a cuidados e mimos.
O semblante, seu, enrijece-se assumindo total ausência de expressão emotiva. De vontade férrea, firmara decisão; não fácil, todavia não adiável – adiar o inadiável com que intuito?, tudo seria pior, de uma violência mais sentida. O monitor perde toda a cor, domina o negro que dizem ser ausência de. Aos poucos, máquina desligada, extinguem-se os abafados ruídos e o teclado é tapado por tampa onde ainda há pouco moravam letras, números, linhas, uma qualquer espécie de vida em ilusão ou ilusoriamente viva. Operação automática coloca computador e livros, varridos por gesto de braço, no interior de velha pasta de couro clarinho; antiga, dos seus tempos de faculdade, oferta de pai babado por ter filho, outro, a frequentar ensino superior: especial carinho, então, conducente inclusive a vários reparos a desgastes impingidos por uso e tempo, especial carinho por mala ou pasta simples. Outro cigarro se acende, fumo a sair lento e pesado de boca e de objecto que em lume se consome lentamente. Em pé, estático, frente virada para janela de quatro vidros. Não pensa, não processa; conforma-se à sua ideia decidida, incontornável no quanto a impelia adiante. Desculpa-se estando a revitalizar forças, aguarda-o viagem de largos quilómetros. De fora, ao jardim, a imagem parece serena, movendo-se com candura e a terna paixão de quem cuida do que gosta. Vê-a assim, sempre a considerou melhor que ele, mesmo quando tendia em diminuí-la por se sentir ele próprio diminuído; ironias que a vida conjuga... Está de facto calor, porém o sol não está bravo. Apaga o cigarro meio fumado, despejando nele iras e frustrações acumuladas, exala o último sopro de fumo condensado nos pulmões. Devia deixar de fumar, dirigindo-se com vagar às escadas para o piso inferior, para a porta da frente.
Não volta, não vai voltar. Gostaria de ter certeza sobre quem, se ele ou ela. Quem partira primeiramente? A mão no bolso prime a chave. Pisca o seu carro, ao lado do dela, comunicando sem palavra que está pronto para que lhe abra a porta que bate devagar depois de confortavelmente sentado. É mais simples pôr a chave no canhão e rodá-la, outras que não tenciona reaver ficaram-se numa mesa alta e estreita logo à entrada. Embraiagem a fundo, marcha-atrás engatada, corpo torcido para o vidro traseiro, executa manobra simples, focinho do veículo direccionado à estrada que não é alcatrão nem pedra mas qualquer coisa. Próxima paragem em mente, Lisboa. Estaca um segundo, retoma a marcha: não lhe vou dizer nada, não é preciso. Voltar não, talvez um dia – só – para readquirir os livros votados a esquecimento momentâneo mas não ao abandono; conforta-se, eram demais para trazê-los agora.
No leitor de compactos um cd. Na consciência apenas leveza. Mike Patton ao vivo reclama “cause I’m still the same asshole and I still wet my pants every time I see your face; who are you?”

..é preciso "exorcisar" a dor...
Sou pouco crente...
Logo, abstenho-me desse tipo de prática.
(Haverá pílulas para a dor?)
;)
estava a falar do facto de escreveres (o que sentes) e de o expor...
funcionar como "exorcismo"...
Não posso confirmar.
Mas também não nego.
:p
Que bom! De volta, o meu PmA de longos textos intimistas! :) Mereces um beijo! :)*
Afixado por: jacky em setembro 7, 2005 01:39 PM:D
E tu também: beijinho! ;)
Isto de vir de ferias e ter logo coisas boas pa ler... ate ja dava saudades :P
Chavininha!... Seja bem vinda de volta à civilização. Coisas boas? Onde?
;p
faça o favor de não começar a dizer disparates... ;)
Afixado por: chavininha em setembro 9, 2005 02:23 AME eu digo dessas coisas? Quer dizer, sem ser muitas vezes?
;)
acho que tem dias... a ver pelos comentarios :P
Afixado por: chavininha em setembro 9, 2005 06:57 PMNão vejo nada...
Talvez só o que convém.
:p
pois, mas isso parece-me bem... digo eu :P
Afixado por: chavininha em setembro 10, 2005 04:11 PMÉ o possível; e não é mau.
;)