Uns dias – semanas?... – atrás, data incerta que não as decoro, mencionei-te ter posto gravatas e seus nós pendurados no armário; firme na ideia de não voltar a repetir os mecânicos gestos que conduzem dentro, fora e à volta de uma tira de pano que envolve o pescoço como se pudesse arrogar-se deste ser também seu. Todavia, a história é dinâmica e as sociedades, como dizem, só param para recordar; se e quando o fazem, pois o ritmo que por vezes se imprime imposto não lhes deixa tempo que sobre.
Vê lá, até eu mudo, mesmo na casmurrice com que tão pouco airosamente me ias definindo. Escovei-as, tirei-lhes o pó; olhei-as com preconceito e temor – das recordações que movem e que me tomam de assalto, daquelas que bem sabes serem do leque etiquetado pouco agradável (terminologia simpática, que outros nomes melhor se aplicavam). Não trocámos palavras, mas tacitamente optámos por não endossar mimos – do mais irónico – recíprocos. Sem trocar palavras, tomei-lhes o corpo; sem hesitar – como tu sabes que há mariquices que não se esquecem! – manobrei-as com a mesma eficiência (ou direi eficácia) e ‘arte’, como não as houvesse nunca abandonado; ou elas a mim. Manobradas para o nó que esperavam, manobradas para o comprimento que lhes exijo: esticado e direito, com a ponta a assomar ao cinto sem que contudo ouse ultrapassar-lhe as primeiras fronteiras. Afinal, a sua lógica é simples. E o armistício consumado – porquanto dure pouco ou muito.
Desta feita, não irás tentar fazê-los por – para – mim; se bem que soubesses que os engendraria de olhos fechados se necessidade surgisse. Não há qualquer dependência para com alguém; para contigo menos ainda. Seria errado, todavia, pensar que não gostaria que assim se prolongasse indefinidamente; sem que um dos fenómenos implicasse a exclusão do outro. Porém, é assunto estéril e nada se obtém com a sua continuidade: encerrado, aqui. Tão encerrado quanto o nosso futuro que, sem equívocos, o será na singularidade do cada um e não em obra de decursos/ percursos comungados.
Tal como diariamente estes laços se constroem e desconstroem – que os não deixo de um dia para outro(s) –, de igual maneira etapas e, além destas, ciclos completos cumprem os princípios das suas jornadas: com o seu início, com o seu término. Toda a aprendizagem é dinâmica, todo o projecto prosseguido ao trote dos seus mais diferenciados ritmos. Armistício – por quanto, porquanto dure.
"Se os enigmas deformam a realidade, também a informam. Aliás, a deformação pode tomar-se como fonte de informação."
'Sociologia da Vida Quotidiana', José Machado Pais
