Os bocejos sucedem-se à intermitência da imagem de um monitor que as retinas preferiam evitar; não que seja escandalosamente cedo, a preguiça da vontade e de nova noite mal dormida esclarecem serem afinal os sentidos que deturpam os timings que em potência seriam os correctos – ou mais ou menos isso mesmo. Porque as noites se esquivam à sua eficiência reparadora à qual deveriam estar intrinsecamente acometidas e insistem em acontecer num passado que ao certo já nem se recorda com a merecida presença; merecida?, o mais certo é estar arraigada em impertinências do mais inútil inútil. Bem baixinho, é o Sting que quem diz, encaixado num desses pratos que lêm cds que se anicham nas torres de compostos micro-informáticos, “gentlemen will walk but never run”.
O telefone, meu, móvel, vibra a superfície onde os braços, procurando repouso, assentam. Uma qualquer melodia martiriza, em simultâneo, todo o aparelho auditivo; do externo ao interno. Sem importar quem seja, sem que digne um perpassar de olhos ao visor onde digitos e nomes se confundem, emudece-se o aparelho pressionando um dos dois botões acanhados na sua lateral que conduzem a esse mesmo efeito; são só quatro, na lateral, é difícil não acertar. Sei que alguém insiste, pois que o aparelho, embora mudo, estrabucha agora como peixe fora de água em uma dança ridícula e irrisória posta em cena pelas vibrações que sobreviveram à sonoridade indeferentemente silenciada. Numa estação de rádio é o “Amor” dos heróis do mar, ondas descodificadas por aparelho que se queixa de reforma em atraso; daqueles que acumulavam a leitura de fitas magneticamente esculpidas . Fachos, nacionalistas, saudosistas; só lhes escuto a melodia que me agrada, outros que os apupem pois tanto me faz aqui e agora todo o demais que se ocupe do além da música; “Não me mataste o desejo...”, escuto com a atenção de quem lhes admira os trechos feitos em música ainda que apático em relação a hermenêuticas mais complexas ou a descodificações de signos que remeto, em abandono inapelável, para quem de direito, semiólogos, sociologias da música que se importam pelos significantes além pré-evidência, ou psicólogos dos sentidos que obram na continuada empreitada da compreensão causalmente justificando os impulsos de quem origina e de quem escuta; aqui e agora é tão somente uma mais outra faixa de sons intrincados uns nos outros, com a virtude de ser aprazível.
O telefone, não meu senão a título de empréstimo, fixo, permanece abandonado a um canto recôndito para que não incomode com a sua presença fisica e simbólica. Não importuna, valha isso, existindo sem voz. O correio electrónico, institucional, não pinta novas letras e palavras e frases e quaisquer outros amontoados de estruturas sintácticas que quantas e quantas vezes mais imperceptíveis são do que mensagens límpidas – e assim legítimas – endossadas a um destinatário em particular. Também este, correio de bits e bites mais kilobites e, quando assim entende, em megabites, constitui presença não incomodativa; só talvez pelo facto de se fazer saber como existindo – provando que a possibilidade de o vir a ser - incómodo – é real. Pode ser que seja eu quem o coloque em movimento, relembrando assistência há muito reclamada que vai tardando por inércia e inépcia; porém mais tarde, também assim não obstando ao seu sossego.
“O céu está no chão, o céu não toca o ar”, em português do Brasil; nem sei o que é. Desdenho de quem canta, mais ainda da forma como as notas dos instrumentos são accionadas, do conjunto em si cuja articulação vou depreciando em amontoado mental que escuso exteriorizar. Uns metros atrás uma graphic station exibe em orgulho solitário mapas complexos em monitor orgulhoso de suas potencialidades ainda que não menos solitário; e também o descodificador de ondas rádio opera no abandono de seu dono. Não toca o ar, mas sim o chão onde se faz morar; estranho céu que todavia me cativou pelo seu dito. Prova provada que as disfunções ficaram para durar. Evito promover continuidade no raciocínio, aborrecer-me-ia seguramente; inoportuno no tempo do momento. “não mexas no tempo, não; pára de esperar por quem não vem”, postula a Viviane que dá uma das vozes a uma pertença de Sardet.
A rotina tornou-se mais pesada, densa de odores a mofo. Porque o sono todas as noites tarda, obscurecido pela teimosia de conjurações descabidas, defuntas, destituídas de pertença a este tempo. O cansaço que esgota intelecto e físico sem parcimónias aufere-se em arrogo do título de sintoma primeiro.
Fazes-me falta.
“não separe a burrice humana o que a transcendência do amor juntou”
‘Muros’, Júlio Machado Vaz
