julho 29, 2005

Minimalista

Não há quase nada natural; ou pouco há, que é o mesmo. Até a natureza humana se desenraiza do seu estado pelas sucessivas e cumuladas construções que o homem faz dele próprio bem como daquilo que lhe é exterior. O original perdeu-se, contado em séculos. O espólio remanescente decresce ao ritmo da idade, não se conseguindo furtar apenas a picos esquissados como a morte, na sua tragédia ou apanágio, que recorda sermos organismos e como tal sujeitos à decomposição que aguarda desde o mais embrionário dos momentos.

Os fenómenos e as coisas deixam de ser vistos pelo tecido ocular, mas sim filtrados numa panorâmica de ideias e ideais, ideossincrasias, moldes e artefactos artificiais que expõem um mundo previamente arquitectado. Alvitram alguns tratar-se de cultura, porém mantenho a convicção que faz tempo que esse conceito foi extrapolado; não é só cultura, é na prática uma quase nova realidade decalcada do que antes era singular.

Neste sistema de jogo as peças chamadas à cena qualificam-se por uma infernal dicotomia: sendo todas únicas e insubstituíveis manobram-se no campo das substituições por isso mesmo. Paradoxo diabólico que, porém, não deixa de ter o seu sentido nesta dinâmica tão sobejamente distinta. O que ocupa, vaga; o que vaga, substiuído, é reocupado; ciclicamente, sem que as perversões que possam advir sejam alguma vez ponderadas.

Não seja portanto de admirar que os sistemas, a uma escala de um para um, de indivíduo para indivíduo, tendam ao mau funcionamento; pensado ao extremo, à ruptura – quiçá se inapelável. Toda esta trama, de teias e redes onde o nó – potencialmente insubstituível! – se perde nos demais sem prejuízo holístico, é-me conducente a uma situação hipertrofiada. Gostava de conseguir novamente ser um pouco do que resta da natureza natural; redundante, em muitos aspectos, sim, porém de uma obviedade tal que se esquece isso mesmo.

Publicado por PmA em julho 29, 2005 04:10 PM
Comentários

Se o teu inter-galáxias souber o caminho, dá-me um toque, que eu também alinho nessa viagem. A ver quantas máscaras se conseguem tirar...

Afixado por: eMe em julho 29, 2005 05:56 PM

Até poderia fazê-lo; mas realmente não é meu, mas sim doutrem...
;)

Afixado por: PmA em julho 29, 2005 07:53 PM