Em modos de sentença, é habitual considerar-se o excesso como prejudicial. Se é verdade ou não, o certo é que por maioria de razão é coisa que agora pouco me interessa.
Apetece cometê-lo, sendo o que basta.

night in st. cloud, Edvard Munch
"Denken tut weh [Pensar dói]."
'Fidelidade e Gratidão e Outros Textos', Georg Simmel
Não há quase nada natural; ou pouco há, que é o mesmo. Até a natureza humana se desenraiza do seu estado pelas sucessivas e cumuladas construções que o homem faz dele próprio bem como daquilo que lhe é exterior. O original perdeu-se, contado em séculos. O espólio remanescente decresce ao ritmo da idade, não se conseguindo furtar apenas a picos esquissados como a morte, na sua tragédia ou apanágio, que recorda sermos organismos e como tal sujeitos à decomposição que aguarda desde o mais embrionário dos momentos.
Os fenómenos e as coisas deixam de ser vistos pelo tecido ocular, mas sim filtrados numa panorâmica de ideias e ideais, ideossincrasias, moldes e artefactos artificiais que expõem um mundo previamente arquitectado. Alvitram alguns tratar-se de cultura, porém mantenho a convicção que faz tempo que esse conceito foi extrapolado; não é só cultura, é na prática uma quase nova realidade decalcada do que antes era singular.
Neste sistema de jogo as peças chamadas à cena qualificam-se por uma infernal dicotomia: sendo todas únicas e insubstituíveis manobram-se no campo das substituições por isso mesmo. Paradoxo diabólico que, porém, não deixa de ter o seu sentido nesta dinâmica tão sobejamente distinta. O que ocupa, vaga; o que vaga, substiuído, é reocupado; ciclicamente, sem que as perversões que possam advir sejam alguma vez ponderadas.
Não seja portanto de admirar que os sistemas, a uma escala de um para um, de indivíduo para indivíduo, tendam ao mau funcionamento; pensado ao extremo, à ruptura – quiçá se inapelável. Toda esta trama, de teias e redes onde o nó – potencialmente insubstituível! – se perde nos demais sem prejuízo holístico, é-me conducente a uma situação hipertrofiada. Gostava de conseguir novamente ser um pouco do que resta da natureza natural; redundante, em muitos aspectos, sim, porém de uma obviedade tal que se esquece isso mesmo.
Sabes que te digo? Nada; por mais palavras que acrescentasse seriam todas elas inúteis. Quem sabe, talvez mais tarde...
"Did I know you?
Did I know you even then?
Before the clocks kept time
Before the world was made
From the cruel sun
You were shelter
You were my shelter and my shade"
'Wild Honey', U2
- De vontade nem o mundo se interporá.
- Vou apanhar o inter-galáxias.
"When heroes go down
They land in flame
So don't expect any slow and careful
Setting of blame"
'When Heroes go Down', Suzanne Vega
No corredor da morte, a lembrança da vida.
"Though the sword was his protection
The wound itself would give him power
The power to remake himself
at the time of his darkest hour
She said the wound would give him
courage and pain
The kind of pain you can't hide
From the wound a lovely flower grew
From somewhere deep inside"
'The Lazarus Heart', Sting
- Estes pingos trazem-me sempre a tua memória.
- Pois a mim lavam-ma.

Sem promessas; quando não há querer cumpri-las; vontade ou poder.
Alguma convicção apenas e apenas nalgumas das palavras, dormentes pelo acomodo a um determinado desapego; apático.

As horas passam. Já não se tem sono, já não apetece dormir. Desperta-se à luz da lucidez. À frente o reflexo quase meu nas janelas espelhadas de um edifício reerguido: reconstruído; rearranjado. Todavia o mesmo, sem o ser. Mexeram-lhe no ‘cérebro’, alteraram-lhe a identidade. Questiono-me se ele próprio se reconhecerá nas novas vestes que traja, empoeiradas pelos restículos originais remanescentes.
Assim seremos nós, acumulando trapilhagem nova sobreposta ao farrapo mais desgastado montando camadas de duplas peles; duplicidades de ser do ser. Cumulamos até ao irreconhecível, até que defronte da nossa imagem não reconheçamos mais do que projecção espectral pretérita, ida e acabada. Eu sou sempre um novo eu.
Eventualmente o caos há-de retornar, cindindo com esta calma doentia. Especulação, mera especulação. Porém, um perfeito direito no exercício de cidadania.
Quanto mais próximo da realidade mais belo é o sonho.
A noite desceu à cidade. É tarde demais para mudar. Circunstâncias, situações, gentes. Simplesmente demasiado tarde. Cristalizaram-se as obsessões, as virtudes, as vicissitudes, cristalizaram-se num encerro inapelável. A representação manifesta-se por uma concordância mais próxima da realidade de cada um; a mentira, enquanto ideal puro, retira-se da estratégia das cenas: ou se quer ou não.
As estereotipias estão para ficar, a reflexividade assume-se permanente nas práticas quotidianas. Perde-se em flexibilidade, em capacidade polivalente, em adaptação ao estranho e diferente. É a história do hedonismo. E assim os regimes de comunhão se secundarizam, enquanto os processos de individuação ao extremo do solipsismo ocupam os lugares de charneira; do eu acima de qualquer outro. Não se partilha mas tolera-se. Relação que nunca antes se aproximara de forma tão esclarecida da ideia mais redutora do conceito de contrato; tudo é negociado, contratualmente decidido na lógica de mercado entre ganho versus perda.
Santas e santos permanecem incólumes nos altares. Quem vive numa existência do normal profano é quem fica sempre tramado pela trama do real.

Tanto por fazer. Tão pouca paciência para executar.

no hard feelings, Thomas Morphis
"hey i was walking my bag
through a 20 storey non stop snow storm
pirrelli calender girls wrestling in body lotion
my head's swimming with poetry and prose
excuse me one moment whilst i powder my nose
me and my good thing are just about as close as can be
we gave up sleep at the age of 17
my world's getting bigger as my eyesight gets worse
i can't see the lines on my idiot board
what about love?
i don't let that stuff in my house"
'My bag', Lloyd Cole
List five songs that you are currently digging. It doesn't matter what genre they are from, whether they have words or even if they're any good but they must be songs you're really enjoying right now. Post these instructions, the artist and the song in your blog along with your five songs. Then tag five other people to see what they're listening to.
Cinco são muito poucas, mas vou tentar na mesma dar resposta à dona do repto, a Chavininha. Cingindo-me então só à última semana, aqui ficam - sem ordem preferencial, que isso não me apetece:
- 'Mundo a meu pés', Três Tristes Tigres
- 'Força (uma página de história)', Da Weasel
- 'Enjoy the silence vr. 2004', Depeche Mode
- 'Iris', Goo Goo Dolls
- 'I never chose you', Neuroticfish
Cinco alvos... Por norma este tipo de coisas morre por aqui. Desta feita, por também ser 'apenas' música, avanço com eles - se se quiserem dar ao tabalho, claro: nr, jacky, hodiguitria, loopy e kurveiros.
Certas existências são como um baralho de cartas. Vão crescendo, crescendo sempre com a ameaça do desmoronamento a pairar-lhes. Inevitavelmente, é o que ocorre. É uma mera questão de tempo. E talvez de sorte; ou azar. Não creio em destinos nem em pré-determinações instituídas, antes na construção da realidade no quotidiano. E algures nesse quotidiano surge firme a brisa que baste que desmorona o edificado; ou parte dele. (re)Inicia-se nova construção. Não linear, não obrigatoriamente cíclica. Sempre distinta na sua distinção mesmo por quantas proximidades possa partilhar com o acontecido pretérito.
A cada edificado que sucumbe, ou parte de si, uma nova ruptura. E nos seus interstícios a abertura que cimentará novas e talvez mais originais interacções. Sempre distintas, sempre de carácter próprio por cada um ser uno na sua individualidade. Quanto muito certos padrões, alguns déjà-vu que remetem para vividos anteriores, mas sempre com a novidade na experiência. Abnegadas, as experiências sucedem-se numa normalidade que quase ouso definir como rotineira. As existências, essas, ficam vincadamente marcadas, catatónicas pelas clivagens que se cumulam indeléveis.
Há sempre as incontornáveis pústulas que soçobram, heranças de acontecidos. Umas mais recônditas, escondidas da vista de quem sabe olhar, viscerais; outras à superfície do ser, estigmas que acompanham o próprio e o outro que delas toma conhecimento, concorrendo para que se promova o desencontro ou, por outras palavras, impossibilitando edificações estruturalmente estáveis.
No fundo da arca, todavia, a esperança; e a curiosidade.

he's real she's real, 1964, Allen Jones
Estranhamente a loucura passa ao lado. De rasante. Voltam-se a lançar os dados; é uma questão de probabilidade.
Ou ainda que, naturalmente, tudo corre bem.

Ou pode-se sempre dizer que está tudo controlado; por linhas que se hão-de escrever.

Uma boa resposta para quando dizem que a vida é f*dida...

Quando tudo quase tudo se dispõe em feição. Não se deve levantar pudor em se estar bem disposto.

'Magnolia'