[Quando uma imagem e outras letras dizem tudo o que se me passa; então calo e contemplo:]
"It’s four in the morning, the end of december
I’m writing you now just to see if you’re better
New york is cold, but I like where I’m living
There’s music on clinton street all through the evening.
I hear that you’re building your little house deep in the desert
You’re living for nothing now, I hope you’re keeping some kind of record.
Yes, and jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
Did you ever go clear?
Ah, the last time we saw you you looked so much older
Your famous blue raincoat was torn at the shoulder
You’d been to the station to meet every train
And you came home without lili marlene
And you treated my woman to a flake of your life
And when she came back she was nobody’s wife.
Well I see you there with the rose in your teeth
One more thin gypsy thief
Well I see jane’s awake
She sends her regards.
And what can I tell you my brother, my killer
What can I possibly say?
I guess that I miss you, I guess I forgive you
I’m glad you stood in my way.
If you ever come by here, for jane or for me
Your enemy is sleeping, and his woman is free.
Yes, and thanks, for the trouble you took from her eyes
I thought it was there for good so I never tried.
And jane came by with a lock of your hair
She said that you gave it to her
That night that you planned to go clear
sincerely, l. cohen"
'Famous Blue Raincoat', Leonard Cohen

the starry night, 1889, Vincent van Gogh
Já passa das dez da noite. O jantar, ainda que com pouca vontade, foi consumido. Isso mesmo, consumido. Deve-se à fatalidade do organismo ter necessidade não sei de quantas coisas, fome não havia. Nem fome, nem vontade de comer; que são vontades distintas. A televisão despeja informações a magote, às quais não ligo peva. Enroscado no edredon, importa-me antes o teu calor, a tua pele, ou a pele da tua roupa. Envolvo-te com os braços, os olhos correm-se num fecho para te apreciar melhor, à tua soberba. Enquanto escutas o palavreado e engoles sucessões de imagens. Tu gostas, eu não; prefiro o escuro dos olhos que não vêem para estar contigo, sentir-te. Mexes-te. Remexes. Buscas por posição que te conforte. E a mim que basta sentir-te.
Acordo à noite e não te vejo, não te sinto, a cama é larga; não há calor; a cama tornou-se larga, numa enormidade. Estou habituado, já o estou; sem estar. Dane-se. Não resmungo nem sequer abro os olhos, deve estar escuro. Viro o corpo para o outro lado. Frio, que vive frio por teres ido com a promessa de não regressar. A noite suspira. Ou eu suspiro e digo que é a noite. De queixas a cama não fala. Porque fomos, no sempre por pouco que fomos, um e não dois; de queixas não fala, continua a ser um mas mais pequeno. Busco não pensar, dar-lhe tempo para que – não – pense: a mim. Estica-se a coberta, encobre-se a cabeça, o sono.
Agarrava-te com o todo que era e mais algum, se fosse preciso inventá-lo. Encostando a cabeça no teu colo, vivendo a tua vida no sobe e desce de que respirava. Afagavas-me o cabelo e eu já não era ali, mas no belo duma estória por escrever. Estás-me a magoar. Desculpa, apertei-te demais. Então sorrias. Não que visse, contudo ouvia os teus lábios desenharem-se, os teus dentes num assomo breve, os ruídos do teu rosto que se movia para mais bonito ainda. Está quieto. Tinha bichos carpinteiros, nunca verguei a uma só posição de estar. Chata, entre dentes. E do afago passavas a festa mais firme, beijavas-me a cabeça antes de ir novamente encontrar os teus programas. Ganhavas assim dois minutos extra, aquietado pelos teus mimos.
Que sonho sonhei? O daquela sorte que não bafeja mais alguém. Assim pensam os que tomados pelo enternecimento da coisa pura. Lavo os dentes, todavia incomoda o silêncio do esquentador por usar. Não estás no banho, eu sei. Oiço o silêncio da presença que em ausência foi transfigurada. Ponho a água a correr. Com as mãos em concha passo-a, fria, pela face. Entrevejo ao espelho o rosto, meu, solipsismo árido que bem fica com aquele vazio reflectido. Uma t-shirt ao acaso, calças de ganga que em pé se já aguentam por si, uns vela. Vou ao café, só um café e vou ao duche de seguida. Escuso de perguntar-te se vens. Premindo o botão do elevador, não te esqueças pela enésima vez de ligar o esquentador para voltares à cozinha da casa de banho a resmungar culpas que afinal são tuas. Estava sempre ligado à tua vez, verdade? Afinal, talvez partilhes as tais culpas com o hábito, maroto perseverante.
Levantavas-te bruscamente, como o teu feitio. Voltavas com o hálito de higiene oral; e com o teu cheiro. Reparaste que tinha o corpo mal deitado, torto? Não faz mal, a tua perna atravessava por de cima de mim; deixava ficar, assim, a ti e a mim. Adorava quando o fazias, que era sempre quando não mais, invadido pela sensação daquele inabalável que era ser-te querido.
O sono era-te célere; ouvia-te dormir. Mexia-me devagar, porque importunar-te é que não. Voltava-me para ti que já me estavas de costas; quando não era o contrário, ficar-te eu de costas e tu toda encostada a elas com o teu peito mais o abraço vincado pelo teu sono; beijava-te o ombro, dizendo baixo e suave um desejar de boa-noite, e colava-me ao mundo que te vivia.
Vislumbro ao espelho. O rosto mais marcado. Cabelo húmido, porque o secador estará avariado pelo uso que era só teu, pela falta de trabalhar que lhe dei, pois que, sabes, não utilizo porque não gosto. Especo ao espelho. Besunto hidratante anti-brilho, que dizias serem condição sine qua non, e meio litro de um perfume que escolhi sem ser ao acaso por entre aqueles que enfeitam defronte ao espelho, só os meus na sua solidão; ou comigo e não menos abandonados. Em simultâneo termino de abotoar uma camisa. Com botões de colarinho. Não voltei a usar gravata; nem aqueles nós que fazias comigo sem que a ajuda para os enlaçar fosse alguma vez condição. Botões no colarinho e gravata não se harmonizam, embora não me digas mais que sim concordando. Resta ir buscar os óculos, aqueles de sol que mirei por dias e que me ofereceste sem seres mais minha. Acaba, a fim de recomeçar, da mesma forma: na cama, a repetir uma rotina que não apetece.
“Tu estás só e eu mais só estou
Que tu tens o meu olhar
Tens a minha mão aberta
À espera de se fechar
Nessa tua mão deserta”
‘Canção de Engate’, António Variações
Querias o quê? Que te dissesse que sim? Que podias terminar o que que tão bem começaste? Nem penses.
"Vais voar no meu céu negro!
vais ser nada...nada...nada...nada...
Vem rastejar, que te faz bem,
Sangra o teu mundo, que te faz bem."
'(Nada) Quero-te Assim', Toranja
Não volto a ler o voo dos pássaros; nunca acertam.
"I don’t have to sell my soul
He’s already in me
I don’t need to sell my soul
He’s already in me
I wanna be adored
I wanna be adored
I don’t have to sell my soul
He’s already in me
I don’t need to sell my soul
He’s already in me
I wanna be adored
I wanna be adored
Adored
I wanna be adored
You adore me
You adore me
You adore me
I wanna
I wanna
I wanna be adored
Wanna
I wanna
I wanna be adored"
'I Wanna Be Adored', The Stone Roses

the floating ice, 1880, Claude Monet
Enquanto a bolha de ar resiste; fica o pouco, o suficiente que mantém: basta, por ora. Essencial, o essencial que não há substrato para o luxo do luxo. Firmam-se, em força, dentes e vontade; a par, um com outro. Compartimenta-se estanque. Alguns chamam-lhe revolução; revolta. A nomenclatura não importa, tanto que se assume demasiado soft na expressão.
Inconsequente. O essencial é mesmo o único intocável; porque sim, porque sim e nada mais que de se explicar mais se complica – menos se diz claro. De onde veio a noite, esta que cai em breu? Do nada; de ti; dos outros; de tudo; do que te fizeste – o quê? Do sorriso que esboças, espalhado sem credo, no face a face contigo que são todos os contigo que atravessas no circuito do real vivido. Porquê as expressões teimosas numa sociologia que pouco domino?, repetições do doutor grande que somava também ser padre, tendo tino e abstracção de sobra para falar do que falava com a autoridade que sempre lhe hei-de rever. Porque sim; mas porque também os chavões escondem em mais do que aquilo que mostram – conforto, um conforto pré-cozinhado.
Intocável por ser o que fica; porque ficou se torna essencial. Assim é fácil excluir, quando escolhem excluir por nós. Coisa porreira; escusam-nos trabalhos. Ironia. Ou não, e sim princípio exacto.
A doutrina diverge, divide-se. É por isso que. Agarra-te ao que tens, a ti, que é o próprio. Esse, de lado morte e demência, é inalienável. Melhor que assim seja. Depois o resto é fácil, só construir, adicionar cumulando; o nível é instrumento pouco dado ao erro, o nível que assevera não haver discrepância no terreno e que ajuda a subir estável no plano – estável, pois que sim, como se pretende.
Redoma. Continua a sorrir; um dia sê-lo-á a sério. Verdade? Em verdade, claro.
Tarda em excesso. Confessa que o amanhã te anima; contudo, não o deixes passar sem que. Com calma ainda que sem ela, não promulgues tardamento. Enviesa se sim, não tardes porque perdes para o tempo. Porque perdes; ponto. Supondo que se ganha, claro. Que algo existe a ganhar. Existe. E tanto. Isentos de tpm ou spm, que escolha o freguês a sua sigla preferida, mas também os homens variam humores do temperamento. E saem as frases que ditam havê-los assim, dias.
Decalcando MacArthur, já se volta. Desistir é termo que não cabe no dicionário de um orgulhoso. O que acontece? Retiradas estratégicas, onde está a dúvida? É aguardar que do desempenho germine resultado. Paciência com conducência. Ponto final. Amanhã já vem.
“Her hair
Soft drifted snow
Death white
I’d like to know
Why she hates
All that she does
But she gives
It all that she’s got
Until the sky turns green
The grass is several shades of blue
Every member of parliament trips on glue
It takes all these things and all that time
Till my sugar spun sister’s happy
With this love of mine
It’ll take all these things and oh much more
I’ve paid
For fifteen or more
But my guts
Can’t take many more
My hands are stuck
To my jeans
And she knows she knows
What this must mean
She wakes up with the sun
She asked me what is all the fuss
As she gave me more than she thought she should
She wakes up with the sun
I think what have I done
As I gave her more than I thought I would, ohhh”
‘(Song For My) Sugar Spun Sister’, The Stone Roses

soft pink landscape, 1971-72, Richard Hamilton
Mas muito tímida, que se tem sono; bastante.
"How long how long will I slide
Separate my side I don't
I don't believe it's bad
Slit my throat
It's all I ever
I heard your voice through a photograph
I thought it up it brought up the past"
'Otherside', Red Hot Chili Peppers

black feat, 1976, Allen Jones
- Como é que escreves?
- Por defeito.
"Sometimes I feel I've got to
Run away I've got to
Get away
From the pain that you drive into the heart of me
The love we share
Seems to go nowhere
And I've lost my light
For I toss and turn I can't sleep at night
(chorus)
Once I ran to you (I ran)
Now I'll run from you
This tainted love you've given
I give you all a boy could give you
Take my tears and that's not nearly all
Oh...tainted love
Tainted love"
'Tainted Love' Soft Cell

the drinker, Paul Cézanne
O excesso de preocupação em fazer bem estoira a imaginação.

pyramid of skulls, Paul Cézanne
- Conta-me tu de ti o que és.
- Eu? eu não sou nada; que mais que isso não posso ser [- essa é a única frescura; tê-lo-ei dito?].

"Felizmente que a noite sai
Ainda bem que há névoa por aí
Estou contente se a luz se esvai
E uma sombra invade este lugar
Se um amanhã perdido for metamorfose de horror
As trevas não vão demorar estou contente se a luz se esvai
Se o céu se fecha sobre nós desprende-se-me uma voz rouca
Se o amanhã perdido for overdose de pavor"
'Morte ao Sol', GNR
Deves pensar que me importunas; com os interstícios que deixaste em mim, cindido para uma eternidade que ensejo ver terminada. Desengana-te, sou eu quem provê o ser fendido que cá mora; amparo-o com alimento, fosse mais nada existir em mim que ele. Porque gosto, porque por ora faz companhia onde o vazio, por ti, se fez instalado; porque a ruindade de nós próprios é calque que torna o sangue vivo, holismo em apanágio ao sentir que somos ser refutando o vão éter do sonho – sou, que de matéria são as coisas mais os entes. Cisão vazia alimentada a visar o preenchimento; ainda que escasso, mesmo que vão. Não me importunas, desengana-te, que os interstícios que habitam tomam-me por inteiro; ou quase – rebelam-se outros poucos de mim que com afinco recusaram o abandono, apátridas que reclamam a virtude de de novo se endonarem por decreto, proclamação ou outro qualquer expediente.
Insinua-se que ocasião e ladrão valem-se em parceria de mão dada. Não há nada para roubar, nada para tirar, mais nada merecedor para levar. Ficaste com o melhor, que era pouco. Deixaste os sobejos que não se te fizeram ao olho, desinteressantes que se te insurgiam; com razão, assim subscrevo. O saque estava dado; o despojo executado em cálculo milimétrico. Ficaram-me as letras e a mania da escrita, que por tão leves que são esquivados se fizeram ao teu escalpelizar cirúrgico. Não foste de modas, reivindicaste o pouco tão pouco de préstimo e valimento. Assim são os parasitas; desengana-te, também eu te parasitei. A vitalidade humana, porém, tem o crédito de regenerar. Nesse interstícios fi-lo – o esparso, vulgar e ordinário, que fiz. Regenerar foi o mote de ordem, entoado por aqueles que certifiquei não se lograrem à renúncia e ao desamparo, garantido que desta feita os ferrolhos se encontravam corridos, as janelas batidas, as portas de trinco corrido: a ti, tanto como para ti. Só das cinzas se presta a fénix renascer; do chão profundo não se desce, antes se torna possível o elevo a nova e criativa jornada num espraiar de digno afloro. E o tal sangue, em original e singela pureza, faz-se sentir de novo na sua obstinação – de vida – quente.
Porém, o estigma é mais matizado – que não na cor, mas sim no realce que lhe provocaste e que eu promovi. Posto a sete chaves tudo ficou; incluo-me e aos outros que vejo e de quem comungo à distância da imposição que – me – ditei. Impera a carência de crescer; aprender; ou reaprender; a crescer; e ser(-te) independente. Desengana-te, prolifero ideias que a ti não favorecem – é só uma parte da verdade, aquela de que agora sou premente; mero reducionismo em conveniência de, para, mim – coisa insipiente de um real vivido impossível ao relato das palavras, mais ainda que agora são acres.
Sabes que digo? Que se dane tudo isto, que com o regenerar se formata o amplexo neonascituro ancorado ao reviver.
"All this frustration
I can’t meet all my desires
Strange conversation
Self-control has just expired
All an illusion
Only in my head you don’t exist
Who are you fooling
Don’t need a shrink but an exorcist
Show me the movie
Of who you are and where you’re from
Born of frustration
Caught up in the webs you’ve spun
Where’s the confusion
A vision of what life is like
Show me the movie
That doesn’t deal in black and white
Stop, stop talking about who’s to blame
When all that counts is how to change
All this frustration
All this frustration
Who put round eyes on a butterfly’s wings
All this frustration
All this frustration
Who gave the leopards spots and taught the birds to sing
Born of frustration
Born of frustration
I’m living in the weirdest dream
Where nothing is the way it seems
Where no one’s who they need to be
Where nothing seems that real to me
What can we build our lives upon
No wall of stone, no solid ground
The world is spinning endlessly
We’re clinging to our own beliefs
Born of frustration
Born of frustration"
'Born of Frustration', James

a tempestade ou a noiva do vento, Oskar Kokoschka
É preciso – incontornável – ser-se humilde a fim de se consagrar valor. Fizeram-me baixar a esse ponto, vocês. Só posso apreciar, anuindo baixinho a razão que têm.
Antes não o teria percebido.
Soube finalmente como escutar as vossas palavras que evitara a todo o tempo e custo acreditar porquanto ditas soltas pela boca de outrem. E vindo cá a baixo pude aceitar, sem as ressacas tolas de outrora; ser também alguém – de valor.
Puxaram-me com e à humildade – ficando agora desarmado de como em reconhecimento vos conseguir mostrar-me grato.
Nem a tão limitada visão do ser, que é a minha, se deve empedernir ao par de olhos de uma só criatura – na enormidade do que me é.
"I need your arms around me, I need to feel your touch
I need your understanding, I need your love so much
You tell me that you love me so, you tell me that you care
But when I need you baby, you’re never there
On the phone long, long distance
Always through such strong resistance
First you say you’re too busy
I wonder if you even miss me
Never there
You’re never there
You’re never, ever, ever, ever there"
'Never There', Cake

bella donna, Vincent van Gogh
O tiro teu acertou em cheio. Passou. Já passou. Ainda que para não mais sarar.
"Ainda magoas alguém
O tiro passou-me ao lado
Ainda magoas alguém
Se não te deste a ninguém
magoaste alguém
A mim... passou-me ao lado."
'Carta', Toranja

'IMI/ Magnum Research Baby Eagle', 9mm, 40 S&W, 45 ACP
Porque é a mulher mais importante da minha vida.
A minha mãe.

le dimanche parisien, 1887, Paul Signac
... o D’Artagnan ‘elegia’ três mosqueteiras; e também sabia quem havia de ser o capitão.
(ps – o lugar de Aramis já foi reclamado, hehehehe!)
"Era uma vez os três
Os famosos moscãoteiros
Do pequeno Dartacão
São bons companheiros
Os melhores amigos são
Os três moscãoteiros
Quando em aventuras vão
São sempre os primeiros
Quando eles vão combater
Já não há rival algum
O seu lema é um por todos
E todos por um
O amor da Julieta
É o Dartacão
E ela é a predilecta
Do seu Coração
Dartacão, Dartacão
Correndo grandes perigos
Dartacão, Dartacão
Persegues os bandidos
Dartacão, Dartacão
E os três moscãoteiros
Longe vão chegar...
Dartacão, Dartacão
És tu e os teus amigos
Dartacão, Dartacão
Em jogos divertidos
Dartacão, Dartacão
Vocês são moscãoteiros
A lutar..."
‘Dartacão’, Tema de Banda Sonora

["turn it up loud, captain...
I'm at a place called vertigo (¿dónde está?)"
'Vertigo', U2]

Pouco ou nada é eterno que não no (ex)temporâneo da sua existência.
Como é simples pretender dizer tudo, dizendo nada. Hoje. Hoje – ou ontem – nada sei dizer. Replica-se, uma e outra vez e outra mais, em constatações óbvias daquilo que foi; ou fora, qual será, ao caso, o mais correcto?
Locução pesada que encerra em si toda a ambiguidade do ser-se infinito no cerco temporal mais que balizado. Não diz nada. Não acrescenta. Não elucida. Mera presença, mais que isso seria improvável de esperar; de presumir; de considerar. Conjecturar projectos é tarefa para quem pode; não o é para todos; desengane-se quem pense e julgue dessa forma, nessa medida.
Rumina-se o pensamento evitando que desabroche qualquer coisa de espontâneo, podia ser que dissesse alguma coisa e não quero; não hoje – ou ontem, ou lá quando foi. Não é preocupante buscar data em que venha a suceder – dizer, finalmente. Aqui sim que o espontâneo, ao colo do tempo, apareça – um dia; sem pressas, sem datas – essas – marcadas. Que apareça em descontração, ímpeto sem carrego ou moléstias de prontidão. Dispensam-se execuções pensadas em premeditado intento, ficando-se antes à graça de uma condescendência servida ao natural.
“Time is on my side, yes, it is.
Time is on my side, yes, it is.
Now you were saying that you want to be free
but you'll come runnin' back, you'll come runnin' back,
you'll come runnin' back to me.
Time is on my side, yes, it is.
Time is on my side, yes, it is.
You're searching for good times but just wait and see,
you'll come runnin' back, you'll come runnin back,
you'll come runnin' back to me.
Go ahead..go ahead and light up the town!
Baby, do everything your heart desires..
remember, I'll always be around.
And I know like I told you so many times before
you're gonna come back, baby..
you're gonna come back knockin' right on my door.
Time is on my side, yes, it is.
Time is on my side, yes, it is.
'Cause I got the real love, the kind that you need.
You'll come runnin' back, you'll come runnin' back,
you'll come runnin' back to me.
Time time time is on my side, yes, it is.
Time time time is on my side, yes, it is.”
‘Time is on My Side’, The Rolling Stones

Notre-Dame, une fin d'après-midi, 1902, Henri Matisse
- Recuso-me a assumir que nada te dei. Aí, és tu quem mente.
"Menino triste. Vejo-te de lado, a luz da janela embate-te na face, olhas-me com o teu olhar humilhado pela vida. Mas não penses que me vou comover. Esgotei tudo, não vou."
'Para Sempre', Vergílio Ferreira

woman, Edvard Munch
"E então o corpo, satisfeito, acomoda-se ao bem estar"
Quem não tem talento vive do dos outros.
(aspas de 'O Optimismo', Francesco Alberoni)

jeune homme à la tête de mort, 1896-98, Paul Cézanne
Distância é trajecto eternamente a percorrer; não termina.
"As sociedades não podem triunfar quando sectores significativos consideram injusto o seu funcionamento. (Alan Greenspan, presidente da Reserva Federal dos EUA)", in
'Guerras do Século XXI', Ignacio Ramonet
Se disseres que as palavras são desnecessárias acabaste de me matar.

lady in black, 1882, Georges Pierre Seurat
"I felt all flushed with fever
Embarrassed by the crowd
I felt he found my letter
and read each one out loud
I prayed that he would finish
but he just kept right on
Struming my pain with his fingers
Singing my life with his words
killing me softy with his song
killing me softly with his song
telling my whole life
with his words
killing me softly with his song
he sang as if he knew me
In all my darkness fair
and then he looked right through me
as if i wasn't there
and he kept on singing
singing clear and strong
Struming my pain with his fingers
Singing my life with his words
killing me softy with his song
killing me softly with his song
telling my whole life
with his words
killing me softly with his song"
'Killing Me Softly', Aretha Franklin
- Por ti, sim.
- Não te perguntei nada.
"How can we show, how to feel
Situation ain't so real
Chopping wood won't stop the rage
We need targets on war we wage
It's all part of the process
We all love looking down
All we want is some success
But the chance is never around"
'Part of the Process', Morcheeba
Gostava de ser especial; não sou. Mediano. Mediocre?

(auto-retrato) Edvard Munch
- O que é que o teu clube tem a ver?
- Nada. Simplesmente mantenho a conecção - de entre o todo que estamos - sempre e estando e estarendo; desconectados.

melancholy, 1896, Edvard Munch
- É assim tão difícil?
- Não; se conseguires levar-me para além da imaginação.

the prisioners round, Vincent van Gogh
"Think of you with pipe and slippers
Think of her in bed
Laying there just watching telly
Then think of me instead
I’ll never grow so old and flabby
That could never be
Don’t marry her, fuck me"
'Don't Marry Her', Beautiful South
- Sonhei contigo.
- Hmm. Em que pesadelo entrei eu desta vez?

attraction, 1896, Edvard Munch
"Ever and ever forever and ever you'll be the one
that shines in me like the morning sun.
Ever and ever forever and ever you'll be my spring,
my rainbow's end and the song I sing.
Take me far beyond imagination,
you're my dream come true, my consolation.
Ever and ever forever and ever you'll be my dream,
my symphony, my own love esteem.
Ever and ever forever and ever my destiny
will follow you eternally.
Ever and ever forever and ever you'll be the one
that shines in me like the morning sun.
Ever and ever forever and ever my destiny
will follow you eternally."
'Forever and Ever', Demis Roussos
- Que sorte.
- Então?
- Saiu-me uma viagem para longe.

vampyr, 1895-1902, Edvard Munch
Devia haver um decreto cerebral a impedir que se escrevesse envolto em determinadas disposições. Que bem mais valeria. Todavia não acontece e melhor assim que a (auto-)censura é abjecta; um nojo; ainda que abjecto seja igualmente escrever com estas – não – condições. Quiçá com o progresso nos tornemos mais máquina e menos homem. O que seria igualmente terrível – solicita-se qualquer coisa não ruim, sff; depois, depois que o momento é de bloqueio; a essas coisas, não ruins. E pensar que elogiava o meu autodomínio... há sempre excepção a consagrar a regra, valendo isso o que valha.
Lisboa não chove mas as árvores fartam-se de espirrar; e o sol, envergonhado sabe-se lá porquê, vai tapando e descobrindo o focinho de permeio com os minutos que passam. Também aqui a natureza mostra inconformidade com uma disposição permanecente. A instabilidade confronta a constância, alardeando o seu caudilho. E depois? Depois, merda, logo se vê.
Os dias chatos são uma treta, pois que as horas perdem o querer ir sendo; preguiçosas, barafustam e reclamam, olvidam sucederem-se porque sim – e alguém no meio da algazarra, inerte sem poder solicitar o livro de reclamações que não lho dão. O amanhã tarda em vir – nunca veio – pela graça de irresoluto desígnio; todos os dias vivendo o mesmo dia, sentença e sina; depois do ontem, agradável que fora. No calendário meses completos cedem a outros o seu esconso espaço – sem que amanhã digne sê-lo um dia; nunca será. É o destino, por locução. E isso lá existe!, vai existindo – montando-se num lego indeterminado de hipotético infinito no dia quotidiano do mundo vivido. Lérias loucas que tornam a mente taralhouca; um pouco, a todos e em preceito.
Ainda se houvesse silêncio. Os loucos não param, ou a sua loucura perene da qual lhes são tolhidos quaisquer significantes. Loucos somos; todos; a preceito de alguma arte de um qualquer engenho. Obra do acaso, prefiro fitá-lo assim tornando cognoscível o aparente ininteligível; é outra tipologia artifícia, porém alcançável até onde a mão humana pode afirmar ou até mesmo deferir. Os jogos de conceitos são fáceis; complexo é compreendê-los, mais ainda operá-los. Havendo silêncio poder-se-ia, em alívio, repousar; mas não, que toda esta loucura é expedita.
É uma canseira bulhar contra o que transcende – ou àquilo que assoma em exterioridade. Desiste-se. Decidam-se horas, clima e natureza e... Só cá estou de passagem, não moro aqui.
“Desert sky
Dream beneath a desert sky
The rivers run
But soon run dry
We need new dreams tonight”
‘In God’s Country’, U2
- Cansas-me.
- Curioso, que eu também.
"E foi quando, na vastidão astral. Meu Deus, eu devia ser grave. Regressando ao silêncio fundamental - e falas tanto. Revertido ao osso da minha amargura. Que é que significa falares? e discreteares como se para um público ouvir. Estás só, não há ninguém a ser público à tua volta. Nem tu."
'Para Sempre', Vergílio Ferreira

det syke barn I (the sick child I), 1896, Edvard Munch
A retina quase colada a um estore de cana. Observas o que de lá fora vai, precavendo-te de seres visto – tens vergonha de ti?, não, não tenho. Gosto mais assim, observar a ser observado. Raios partam as análises. Exausto de ser analisado, auscultado, julgado; por aí se deve o véu de ignorância que estabeleces para fora, com o que lá está – com os que lá estão e vivem vidas que pensam livres da consciência dos demais, até do estranho que nunca conheceram.
A orla do mundo é grande demais, só admites pela pureza que nele vislumbras a infinitude entre fronteiras do olhar que o mar te oferece; porque não se ostenta; sabe que o sabes grande e não tem a ímpia vontade de o relembrar amiúde; não é obsceno.
Os prelados ditam que morte é salvação mas é apenas fim; fim do que conhecemos e a que nos habituámos; que não se quer largar. Não é resposta, é sim a vida por complicado que é saber vivê-la. Viver a vida sabendo-o é a exclusiva bem-aventurança que desencontra em argumento e verdade com o fútil orar dos prelados que não sabem do que falam – falar da morte, se nunca lá estiveram; ou dela não crispam quaisquer memórias. Vida sim, eis que esta – e o sabê-lo – é beleza digna da beatitude do belo. A enfatuação por excelência, a excelência.
Isto só porque a orla do mundo é excêntrica, grande demais.
A aparelhagem em blocos queixa baixinho; já lhe estoiraste o comando, foi-se o à distância para restar o digital – contacto mais puro, tocar a matéria ao invés de informá-la pelo ar das instruções que nos apetece; preferia-o intacto a funcionar, ao comando. Tudo onde pões a mão, foste cruel em dizê-lo e sabias, sabias? Outros disseram, contudo outros que não interessam, ou não – me – importava que o dissessem.
Afinal, lá fora não chove nem faz sol. Lusco fusco. Que irritante. Indecisões tem-se de sobra, dispenso acrescentos delas. Pensos moram por cá de sobra, de escoriações mal saradas; mas esse azar é de quem o tem sem pertencer aos ademais que sejam. É de dizer ao tempo que é tempo de estender passadeira ao bom tempo. Ou talvez não, pois que sempre soube decidir sozinho e por si, renunciando registos intencionados dos seres pequenos; efémeros.
A morbilidade, contas feitas, convenha-se, não passa do estado de alma; conceito materializado em mentes; cansadas, talvez, e não doentes por que nula é patologia formalmente aplicável. Uma obra de arte, prima, a mente – que mente a haverá cinzelado?
Encarar como sinónimo morbilidade e essência natural pessimista parece-me erróneo. Erróneo, pois que a certeza não é vincadamente suficiente a fim de asserir errado. Ela é passageira, ou quando o é, afirma-se como potencial em bruto que após trabalho de aprumo garante equilíbrio comportamental; e de atitude. Os estados são exactamente o que são: ritmos conciliavelmente substituíveis, logrando-se de boa maneira uma existência modal medíocre no real vivido.

de ensomme (the lonely ones), 1899, Edvard Munch
“Sleeping on your belly
You break my arms
You spoon my eyes
Been rubbing a bad charm
With holy fingers
Gouge away
You can gouge away
Stay all day
If you want to
Chained to the pillars
A 3-day party
I break the walls
And kill us all
With holy fingers”
‘Gauge Away’, Pixies
Bucólico. Dia de jogo grande. Como o futebol angaria massas, despersonaliza individualidades. Tenho o meu de eleição, um clube, sem saber porquê; ninguém sabe, é irracional: é-se e pronto; por isso se diz poder-se mudar tudo menos as cores por que se irá torcer até ao fim. Ao contrário de muitos, prefiro ver um jogo, quando os vejo, junto de gentes das duas sensibilidades; ou mais, se se proporcionar. Tem mais piada e existe uma rivalidade sadia, raramente me aborreço por causa de um jogo; ou por causa das sensibilidades, quanto muito por determinação do desempenho dos jogadores ou da sorte que nem sempre bafeja quem merece. Hei-de ir ver o jogo a algum lado, porque sozinho é que não – nunca achei graça em ver vinte e cinco tipos ofuscados por uma bola sem ter com quem comentar, nem que seja as novas tendências de cabeleireiro do jogador da bola (enquanto estereótipo). Contudo, não sou naíf nem desinteressado: que ganhe o melhor é chavão que não aplico – que ganhe o meu, dane-se se melhor ou pior.
Bucólico. O sono ainda me ronda, manhoso; e ontem que não houve noitada... Só mesmo um sono que se passeia pelas margens de uma consciência, sem se aprofundar. Já acordavas, pá. Já abrias a pestana. De vez, sem sono a amanhar limítrofes de ti. Pois, para quê? Preferia ficar enroscado contigo, em ti; no ninho. Contudo, há muito que cessou de existir. Porque teimas? Tolice, essa é que é essa. Acordavas. De vez. Ser-te-ia mais útil, bem mais útil. A culpa, apontas, é do consuetudinário que julgaste haver-se tornado obrigação; coisa adquirida. Até o adquirido finda. Findou. Tens um pé numa galera e outro no fundo do mar, é assim que o Palma canta Portugal. Enquanto nada fizeres ninguém te vai ajudar, prossegue – ainda que fatalista; desprezo fatalismos, não lhes tenho respeito, quero não crer-lhes.
As extremidades nervosas, e com elas os músculos, demoram em responder aos estímulos e às decisões manifestas que passam pelo SNC. Que chata e aborrecida, esta sonolência que torna corpo e alma dominados pelo dormente. As próprias ideias são de parto tardio, acomodadas, esquivando-se a sair, entre um ou outro grupo de neurónios. Hoje posso tirar sem receios a porcaria dos óculos de sol; que ninguém lerá dos olhos, que nada têm para contar. Síndrome de domingo, digo que é aquilo que isto deve ser. Tretas. Sabes ser pasmaceira, do pasmo a que te tens rendido porque não existe um porque não. Onde está o capitão para ditar o rumo ao homem do leme? Com certeza que também dorme, ou dormita por debaixo de uma sombra algures na proa embalando-se com o ondular de um ameno azul; e um copo de rum, com pedras de gelo, que garrafas é coisa do antigamente – ou em cenário com uma twin, à pós-moderno, sem álcool para cuidar do corpo.
Espero que o jogo aconteça no tempo de um sopro, para que as pessoas retornem; para que se destituam do amorfismo de massa e readquiram os seus carácteres próprios. Aí acordo, a letargia flui para o insignificante, a vida volta a ser bombeada e as gentes a ser gente. Como tantos e tantas vezes terminam com frases fáceis, sugiro-me que os há assim: definitivamente, há dias assim. Industriados por nada, existindo porque têm de existir.
:P

Mit und Gegen (For and Against), Wassily Kandinsky
"Take a drug to set you free
Strange fruit from a forbidden tree
You’ve got to come down soon
More than a drug is what I need
Need a change of scenery
Need a new life
Say something, say something anything
I’ve shown you everything
Give me a sign"
'Say Something', James
- Pareço-te boa?
- Pareces-me com um ego que não cabe dentro de ti.

Blue Nude, 1952, Henri Matisse
"The rain falls hard on a humdrum town
This town has dragged you down
Oh, the rain falls hard on a humdrum town
This town has dragged you down
Oh, no, and everybody's got to live their life
And God knows I've got to live mine
God knows I've got to live mine
William, William it was really nothing
William, William it was really nothing
It was your life..."
'William, it was really nothing', The Smiths
Gosto de escrever. Talvez por isso também – sublinhe-se também – tenha decidido ‘parir’ um blogue; e continuá-lo, com estreita mas firme resistência a algumas vontade de o fazer desaparecer desta esfera tão estranha quanto prolixa, sem exortar os significantes pejorativos do termo prolixo, que é (e sumulando) a blogosfera.
Contudo, até a escrita – possivelmente até acima dos (quase todos) demais – é fenómeno ambivalente. Num blogue estritamente temático, que jamais olvidará no generalismo, acaba por ser – numa percepção abusiva – recorrente a angústia, desagravo e desagrado na constituição das linhas que, desprendida e modestamente, apresento.
Também a escrita, mencionada como factóide de prazer, evidencia em manifesto a sua faceta oculta. Também ela, quero dizer, é capaz de fazer sentir os meandros do desprazer. Ou do seu dono, através dela; porque a escrita, em conformidade com o estilo de quem a usa, tem – sim – dono ou vai-os tendo por cada vez que é enformada e formatada. Escrever é, pois, uma daquelas coisas, enquanto assumida como fenómeno, que no seu corpo estilizado por autores providencia momentos em que a sorte que dela sentimos é grandemente infeliz.
Nem por isso colocarei a escrita à margem, como ninguém o deve fazer. Resume-se, ela, às presunções que quem a copula – utiliza – em consonância com os seus sentidos. Quem anda à chuva molha-se, diz de há muito a sapiência popular – que tanto granjeio por única que é; por mais disseminada que seja ou esteja. Comunica-se – mesmo que seja como a minha pretensão primária, de si para si. Não há bela sem senão – defeito –, mas não aceito desprender-me do seu afoito belo.
E aqui parece-me bem o tal Chagall, que vive em terra lusas:

La fête du mariage, Marc Chagall
Olha para o relógio, displicente. Nem lhe ocorre o porquê, talvez para queimar alguns segundos mais. Sente-se cansada. Não de corpo, moída ao invés na disposição. Ainda de cabelo húmido, desloca-se lentamente para o guarda-fatos em busca de algo rápido para vestir. Continua a estar demasiado sol, o que quer dizer que lhe resta bastante tempo. É uma terça-feira, porém goza de dia de folga. Só mais para a noite se encontrará com Samuel. Ao longe, surgem recordações subtis de Miguel, realçando-lhe um sorriso lânguido, por mole, que a espontaneidade não permitiu conter-se-lhe. Águas passadas não movem moinhos: uma blusa leve, calças de sarja, uns snikers... o salva-slips, quase esquecido; praticamente completa, a indumentária. Onde pára a merda do secador?, em pensamento, passando os dedos, em pente, pelo cabelo queixoso.
Miguel foi um sonho bonito; ou mais que isso, ainda que agora condenado a não mais ser que tal coisa. O coiro cabeludo reclama-se num sentir de queimado; urge a pressa em secá-lo, ao cabelo, que bem mais há a fazer. Num espelho de corpo inteiro, vislumbra-se; em tempos não fui assim, estou mais cuidada, todavia o desaprumo com o estilo de vestir acentuou-se – de si para si assegura, com as retinas a percorrerem o seu reflexo. Acrescenta – que me pesa mais a idade, o rosto está-me mais marcado, como se o acordar viesse todos os dias cansado. Ainda posa o sol, ainda tem tempo a sossobrar (de sobeja). Miguel, que estranho sonho. Miguel, lembrá-lo agora que à esteira de Samuel... complexos – à la Freud – desígnios, os da mente. Por dentro sacode os ombros, a vida é antes de tudo continuação. Há quanto tempo não lhe falo, não nos falamos? Afinal, foi por decisão dele que, ainda por cima, me limito a respeitar – sossegando-se. Esquecer sem permitir que as memórias se esgotem em vazio. Como é isso possível. Era o que desejava. Agora, ao menos. Miguel fora-se, acabara, e a sua vida seguia inexorável continuação.
O sol tarda em pôr-se, em dizer adeus, com até amanhã, pelo horizonte. E Miguel, que não querendo apartar prossegue nos circuitos psico-neuronais; chato, Miguel; porque vens quando não deves?, porque não vieste, não estavas, quando devias?; agora é tarde, Miguel, compilo-me a deixar-te, abandona-me; abandona-me tu que, a lembrar-te, sempre me respeitaste: respeita-me agora, distando-te para outras paragens; está bem, Miguel? Sei que não me ouves, não importa, que sei que ainda me sentes; como queria que me esquecesses, Miguel; como já te esqueci em tanto, com a boçalidade de coisa fácil. Não te iludes, não foi – e não é – nada fácil; mas tudo prossegue, percebes?
Esguia e ágil como sempre, querendo enganar os anos e pesos de emoção-razão que contam, espevita-se de fora para dentro; fora de casa, fora do prédio, fora de pensares que perturbam; dentro do carro, de um novo percurso: Samuel. Merda – em exclamação e alto para um ninguém que a ouvisse, nem as vozes da rádio. Merda, porque quiseste, depois do irrevogável, porque quiseste e esperaste mais do que seria capaz de te dar? Não seria justo, para ti – convencendo-se, sentença tão precária como havia exposto na necessidade de um merda em tom alto, sozinha, buscando aflitiva e inconscientemente que a tivesse escutado; não escutou, não irá escutar. Merda, sempre foste melhor que eu, quantas vezes to disse?, porque me aguardas então? O rádio diz everybody’s got to learn sometime, anuindo ela sem se dar conta.
Samuel, por fim. O pesadelo que atormentara a tarde privar-se-á de sentido. Duas bocas unem-se. Olá, querida – diz uma boca e uns olhos dissociados da outra realidade. Sorri. Ama-a. Todavia não deixa a casa, que o filho fala mais alto – como arremata incondicionalmente, a qualquer aprochego doutras finalidades. Estende os lábios, intuito de desenhar um sorriso. Mas não consegue verdadeira manifestação, esquiva-se-lhe pelo peso de uma tarde – há muito não tão – mal ocorrida. Há-de passar, a confiança ressurgirá triunfante e a memória ofuscada pelo estar quem agora, com a força que a presença física confere, a acompanha. Esquece-se Miguel por ser daquele cantinho do que já foi; presente, contudo tão só no álbum das recordações que a sete chaves se gravam e guardam numa gavetinha da cabeça.
Mãos tocam-se, finalmente entrelaçando-se. Uma última alusão a Miguel, que ainda bem que cá não está – sugere-se; afinal, a vida é uma tremenda continuidade. Bocas que se reúnem noutro encontro, línguas que conhecendo se vão reconhecendo. Rápido, que os dois juntos numa cama só por umas horas. Samuel regressará a casa, que o filho fala mais alto; como as mentiras em que gostamos de acreditar.
Outro banho, outro dia passado; cheio de ti, cheio de Samuel. Porque te disse, Miguel, que nada valia? A toalha circunda um corpo esbelto que se esquivou a máculas – somente num joelho, diz-se em brincadeira – e o leito, o dela, aguarda um repouso que não se queria terminado.
Desta feita, no happy endind; ou não acontece, por ora – só a alguns, entenda-se.
;)
Agora que consegui vou arranjar outra coisa para me moer o juízo.
(Com os devidos direitos de autor a uma loirinha.)

Woman combing her hair, 1887-90, Edgar Degas
“Ver-te sorrir eu nunca te vi
E a cantar, eu nunca te ouvi
Será de ti ou pensas que tens... que ser assim?...
Olha que a vida não, não é nem deve ser
Como um castigo que tu terás que viver
Muda de vida se tu não vives satisfeito
Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida, não deves viver contrafeito
Muda de vida, se há vida em ti a latejar”
‘Muda de Vida’, Humanos (let. António Variações)
- Gosto de ti.
- O meu peixe também.

Combináramos encontrarmo-nos; outra vez. Não me apeteceu, baldei-me – não tive coragem ou sequer me apeteceu, tanto faz. Talvez pela atitude, minha, cresceu-me por ti algum rancor; provavelmente por mim na mesma medida. Não raro desapontamo-nos connosco, logo, funcionando em moldes de arrasto, com os outros. Hoje, nota-se, o dia acordou-se-me cinzento.
Acontece viverem-se dias em escalas de cinzento. A cor é subtraída da realidade, não envolve nem acaricia por simplesmente inexistir. E sente-se o sabor de ser-se pária num espaço-tempo que não nos quer, órfãos de ascendência e descendência – como ser órfão de descendência? Aguarda-se, irrespondido como o habitual, pelo homem novo que um dia foi prometido. Ilusões, uma ideia abstracta ainda não parida para o real concreto.
Sei que deixaste mensagem de voz na caixa de correio do telefone; contudo, lá permanece sem que a escute: é deixá-la estar, pouca importância tem. Esquizóide?, alguém te pergunta movendo-te para a estupefacção. Sorri-se. Conhece a resposta, vê o não que lhe abeira os olhos. TMN, tem uma mensagem nova, para logo interromper a chamada; mais tarde, bem mais tarde. O portátil é tão somente uma extensão de partículas do teu pensamento, e assim a ideia de fazê-lo tratar a parede por tu esvai-se. Para quê transferir, em linguagem filosófica dos psicanalistas, em outrem – ainda que objecto – as frustrações que provocam o senso? Liberta as tensões, designam os pródigos doutos do alto das suas doutrinas.
Apetece inquirir, em veemência, se alguém encomendara sermão. Eu não, certamente. Cansa-me, a moral; certas morais. Porque fala quem não sabe? Pois que sentem a legitimidade, um impropério alvado no que de tanto supõe existência redutora – enforcing the law, social control, disparatariam os alvitreiros americanos: mas a expressão esclarece, dissipa a dúvida evadindo-se ao disseminar de diligências a promover desvios. A integridade da norma, Deus na Terra, entalha-se inviolável.
Escrúpulos duvidosos, ainda que nobres as intenções. O pós-moderno é individualismo e individualidade: vivamo-lo ou não, por ideia algo absurda que é, haverá quem não tenha percebido? A esfera privada pretende-se inviolável...
A solução, uma delas, digo eu, é bem sabida: aquela que preserva a inviolabilidade do profundo do ser. Executá-la, não aprazaria fazê-lo; fi-lo uma vez e não lhe guardo ressentimento, inclusivamente de cada vez que a pondero mais certezas se cristalizam em certeza – absolutamente confiante. E vêm sugerir quão radical se pode ser... Com aparência soturna e decidida, mesmo complacente, informa-se o exterior que também ele pode decidir. Já não se é criança, ninguém obriga a ingerir sopas nem outros pratos; pode-se asserir firme eu não quero. Já se é grande, aptos a determinar escolha tão bem quanto decisão. É o que faremos, queiramos ou não, a continuar uma ética abjecta ou praxis de desencontro manifesto. Quanta futilidade...
O que há a perder, quando se perdeu o que havia a perder – até dignidade?
“Anda, vem comigo
Esquece tudo isso
Podemos ir até ao mar
Sem pressa nenhuma de chegar
Deambular pela areia
Contemplar a lua cheia
Se não quiseres falar
Não te vou perguntar nada
Iremos a caminhar
Até ser de madrugada
Pela noite em silêncio
E quando já for
Tão tarde e tão cedo
E o mar não tiver mais nenhum segredo
Então regressaremos”
‘O Canto da Sereia’, Entre Aspas
Palavras acusatórias. Que o melhor guardava para outros, para os outros. Bem sei que é verdade, nalgumas coisas que dizes. Que queres? Pensei que o melhor era para ti, tamanha era a minha certeza; tamanho igual que o pior também, não sobram dúvidas. Oferecendo o melhor garantimos que havemos, não com o querer, de embrulhar o pior com a dádiva. É a rotina, é do quotidiano. Devias saber. Todos sabemos. Pode-se esgueirar à vontade de saber, mas ela apanha-nos e sabemos; todos, sem excepção. Sabemos, deixa-me que te diga, porque reflectimos os outros, o espelho para que tenham imagem – e quem, não enfermo pela demência, não se conhece; um pouco, ao menos? Não te mintas, que eu, a mim, também não. Fá-lo-emos sem mentiras; uma vez.
Desleixava-me, dizias num tom cortante; como se o resto não valesse, importasse. É culpa do mau hábito de bem nos tratarem, desde petizes. Melhor, é culpa nossa que criamos, alimentando o seu voraz apetite sem balanço, o hábito. Esse mau hábito. Deglutimos encerrando os sentidos, encerrando o valor aos sentidos. E depois – é tão óbvio, digo-te eu – como dar valor ao que de valor foi desprovido? Não comeces acusando – eu fiz o mesmo, não desdigo; e tu, petiz vocífera? Esqueçamos acusações tolas, impróprias, descabidas de sentido de tempo, de espaço, de sentimento. O meu propósito é falar-te, não a argumentação que nos faria diminuir em humanidade – da, se calhar tão pouca, que nos resta.
Fazias-me sentir melhor do que era e do sou em que me tornei. Tinhas esse dom. Em ti, de ti, cresceu apenas um medo porquanto mais te queria – antes de te deixar de querer, por aqueles segundos. E foi esse único aquele que exactamente se consumou. Perdi-te. Não foste tu quem me perdeu, nem por um instante, porque eras maior que isso; fui eu que persegui, exaustivamente, o meu medo e que te perdi – como me podias perder se és o ganho, a valia, que não conheço quem mereça; sim, portanto também eu não.
Fomos homilia condenada à danação. Por mil vezes cumpriria pena por ti, escusando-te a um inferno que agora se vive na vida profana. Contudo, à ressalva do teu valor não acontecerá tal cenário – vales-te por ti, e agora a pena que (me) resta cumprir é apenas a minha. Por não te ter sabido ter. Por ter de te perder.
O fumo do cigarro sobe em frente à face; torto, sinuoso, desajeito mas imparável. A apatia esmiúça o que restava dos sentidos. Não sei se olho as nuvens claras ou um dia de noite. Só um braço firme, objecto estranho e exterior, a poisar num ombro volta a convocar o real. Expele-se o fumo, inspira-se ar num ímpeto demorado, os olhos acordam; depois volto a falar-te, talvez.
Voltou a chover por aqui.
Espero que amanhã cheire a terra molhada.

Jeunes filles au bord de la mer, 1894, Auguste Renoir
Há vezes em que a ausência é a melhor forma de comunicar.
"You've given me much more than words could ever say
And oh, my dear, I'll be right here until my dying day
I don't know just how to say all the things I feel
I just know that I love you so and it gives me such a thrill"
'Never, never gonna give You up', Barry White
Não era para gostar. Nem eu gostei; isso ninguém me perguntou.

The Card Players, Paul Cézanne
..., a Verdade, é intemporal.
"Não é bem a vida que nos faz falta - só aquilo que a faz viver."
'Para Sempre', Vergílio Ferreira

Promenade près d'Argenteuil, 1873, Claude Monet
Há dias assim. Começam por correr bem, mas encerram com fotografias turvas e sermões de alguns.
Pior só sugos com caramelo.

The Mill, Rembrandt
Um cão é sempre um cão, mas eu preferia um tigre; uma tigresa.
Lembras-te que tiveste uma tigresa?
"E aproximei-me de ti com medo de te profanar e tu eras tão acima do meu corpo. (...) E agora ainda que o recordo trespassa-me a memória ardente a vertigem de te amar."
'Cartas a Sandra', Vergílio Ferreira

Day of the Gods (Mahana No Atua), 1894, Paul Gauguin
- Tenho sono.
- Então vai-te.

"Here I go out to sea again
The sunshine fills my hair
And dreams hang in the air
Gulls in the sky and in my blue eyes
You know it feels unfair
There's magic everywhere
Look at me standing
Here on my own again
Up straight in the sunshine
No need to run and hide"
'Wonderful Life', Black
É o segundo verão sem ti, esse que se aproxima. Apesar dos céus terem sido límpidos, não raiava o sol, escondido pela minha cortina de penumbra; brilhavam as estrelas, pela noite, pelos céus límpidos a augurar que o próximo, o que agora se chega, viria quente abrasador – solarengo e igual a outros que vivi e vivemos. Aconteceu assim pelo último que se passou: ou terá sido o outono a chegar mais cedo, a ser mais longo?
Este ano é diferente. Consigo já perceber o cheiro do sol que há-de inundar os dias, aclarar a sua quota das vinte e quatro horas, a preencher quotidianos. Sabes, nos asilos de há cinquenta anos, nos asilos para os dementes de espírito como fui, haviam horas destinadas a banhos de sol; e onde e quando este não vivia com intensidade, então diziam-se banhos de luz. É aquela questão da luz ter sobeja intervenção a nível psicossomático, compreendes? Durante muito tempo foi paradigma dominante; ainda hoje, com prozac e companheiros de luta afins, não se descura essa assunção.
Este verão, esse tal que o vou cheirando para além da distância, retomará conciliabilidade com o disco que veste amarelo. Será, mais que somente estar, será sol.
As fugas para a Arrábida, para a Costa, para a Linha estão já a tecer-se em construção mental. Para mais longe, que igualmente o pode ser, havendo sol e mar. É claro que as águas geladas da Arrábida, do Portinho, sabes?, são especialmente queridas; talharam-se aí memórias que em tempo que viva se irão nunca furtar – uma que recorre impertinente, faz-se aflorar para além da vontade. Mas o queixo, esse, não cai: hirto, que o quotidiano, sem que interviesse eu em maneiras manifestas, o ensinou.
Se é verdade que os óculos de sol não voltaram a abandonar-me a face, escondendo quem possa ler dos olhos a alma, surpreender-te-ias – surpreendo-me – com a determinação eclodida das entranhas. A necessidade de procurar, indo ao seu encontro, o aconchego da Arrábida é soberba; soberba necessidade, mas pelo que gosto e que não pode ser encerrada na redutora ideia do saudosismo. Lembras-te, perguntavas-me se estava triste. Sentado, pernas entrecruzadas, mãos na areia meio molhada, a contemplar num aparente vazio os confins do horizonte. Não, não estava triste. Preenche-me esse contemplar, assim posto sobre areias, embrenhado na linha de horizonte e nos mistérios que lhe imagino, existam ou não – faz-me sentir grande e pequeno; importante quanto fútil; parte que integra uma beleza que é tão maior que aquilo que ousamos imaginar.
Agora sinto as pulsações, ritmadas por aquela máquina de quatro quartos, e sem medo delas: imponentes, fazem-me sentir vivo, dão-me prazer, prazer que contraria receios pretéritos. Uma lascívia egoísta, de quem – sim – acordou. Uma lascívia egoísta de quem nota a seiva vital que corre, num labirinto de canais, por dentro. Seiva vital que desperta, que obriga ao grito mudo de quem quer cá estar; em experiência, experiências, que estar não chega por tão estático que só estar o é. Beber do quotidiano, beber dele que é pai e mãe do extraordinário, do diferente, do extático; da novidade, do movimento de mudança.
Com óculos de sol sem arredar, sim. Com pulcro dar conta de sentir-se vida – vivo – pelo próprio, também – essencialmente.
Seda branca.

“Nights in white satin,
Never reaching the end,
Letters I’ve written,
Never meaning to send.
Beauty I’d always missed
With these eyes before,
Just what the truth is
I can’t say anymore.”
‘Nights in White Satin’, Moody Blues
- Já vi este filme.
- Deixa lá, estou a ver se o argumento se muda. E o final da história.
"Now I’m towing my car, there’s a hole in the roof
My possessions are causing me suspicion but there’s no proof
In the paper today tales of war and of waste
But you turn right over to the t.v. page"
'Don't Dream It's Over', Crowded House
Isto está a ficar demasiado melado.
Credo!

(ah, bem melhor!)
Mais vale nada. Mais vale não ser.
[não me censures, moça: sei que tens razão]

'Sun Rise' Claude Monet
(eu te desfolhei.... diz a cantiga; oh, que palavrões tão - bem - parafraseados.)
Sós...
Amo os meus amigos. Que não ousem fazer-lhes mal; passarei, nesse assunto, a morder.
São parte de mim. São o que sou. Rosnarei; ladrarei; morderei e matarei.

Jockey on a horse, Edgar Degas
Vês, Jacky, aqui repousa, entre o meu rosnar sobre-protector, a amizade.
Que nem tentem, nem pensem... Mordo e tenho raiva - por aqueles que merecem.
- Gostas de ti?
- Não sei. Tu sabes? Quem sabe? Respondo depois, pode ser? Não me aborreças, peço-te, com esta questão; está bem? Não sei; logo se vê. [se te deitasses a meu lado...]

Marra com os cornos. Bem que precisas... e gostas.
Faz-te - a ti - falta.
[que bem o mereces]
"Testemunhos da verdade
tanto vão de mão em mão
que se perdem com a idade
porque ninguém nasce ensinado
o que aprendi já está errado
não acredito no meu passado"
'A Queda de um Anjo', Delfins

... ou desprovidos de conteúdo.
Até podia gostar de ti, mas...
- Quanto estás disposto a investir?
- Outros tantos - anos - não.
- Espero que sejam muitos mais.
"O amor é tão monótono, querida. Porque ele é o cimo sensível de uma imensidade de coisas que se esqueceram."
'Cartas a Sandra', Vergílio Ferreira

The Kiss (1886), Auguste Rodin
Adoro a penumbra da tua alma; ou não.
"Sandra. Hoje a obsessão foi mais forte. Escrever-te. A nossa história que contei parecia-me intocável. Princípio e fim de nós nela, a tua morte selara-a para sempre. E todavia é nessa eternidade que a tua memória me perturba e a imagem terna do teu encantamento. Deves talvez lembrar-te de que nunca me escreveste. Mas eu escrevia-te algumas vezes quando vinha a férias e a emoção era de mais. E um dia perguntei-te se tinhas guardado essas cartas. Tu olhaste-me com o teu sorriso breve e repreensivo. Rasguei-as, naturalmente, disseste, e porque havia de guardá-las? Gostava de as reler, de as ter, disse eu. Para recuperar o que fui nelas e o que houve nelas de ti. Que tolice, disseste ainda, a adolescência passou."
'Cartas a Sandra', Vergílio Ferreira
"Não, não me digas adeus.
Quem sabe, talvez um dia..."
A incansável necessidade de ter uma mentira em que acreditar.

A amizade é a relação que concorre para a supressão do medo.
[e assim já tens resposta.]
Há quem sustente teses de que o medo é irracional. Fora do controle dos centros de decisão. Que, quanto ao medo, este pode só e apenas ser condicionado: com maior ou menor sucesso efectivo.
É normal, posto o parágrafo anterior, que poucos sintam à vontade em exteriorizá-lo, menos ainda em partilhá-lo em acção manifesta. Compreende-se. Compreendo. A minha postura passa pelos mesmíssimos trâmites. O medo, de facto, é ainda místico; ou demasiadamente mistificado. E vive, presentíssima, a ideia de que quanto menos souber o outro relativamente aos nossos medos e/ ou receios – pois que são conceitos singulares, ainda que interajam íntimos –, mais seguros (de nós mesmos, não sendo portanto reflexivo) estaremos.
Quanto a mim, em modesta opinião, não é o medo em si que introduz a desvantagem. É sim o sentimento de medo. O sentimento de medo, pois; ultrapassa a cognição, deixando-nos ao embaraço – os sentimentos, em valência ou, no oposto, carência, são desprovidos de um ditar exclusivo ao eu: e aí a clivagem!, o desconforto e a angústia.
Raios partam o medo. Ou o sentimento de medo, (sentimento) de insegurança – insegurança, enquanto impossibilidade de se controlar tudo o que depende do exterior, fora da esfera do que se pode e consegue decidir.

... as duas. E mais uma, pelo menos.
Beijinhos. Grandes.
;)
"Monday finds you like a bomb
That’s been left ticking there too long
You’re bleeding
Some days there’s nothing left to learn
From the point of no return
You’re leaving
Hey hey I saved the world today
Everybody’s happy now
The bad things gone away
And everybody’s happy now
The good thing’s here to stay
Please let it stay"
'I Saved the World Today', Eurythmics