... de morango com vodka. E barulho. Só três ou quatro palavras. Não apetece falar muito mais. Bastou-me ter corrido mal à tarde com ela, virados de frente, um para o outro; e mal a olhei. Agora, Incógnito.



©
“Now over at the temple
Oh! They really pack 'em in
The in crowd say it's cool
To dig this chanting thing
But as the wind changed direction
The temple band took five
The crowd caught a wiff
Of that crazy Casbah jive
He thinks it's not kosher
Fundamentally he can't take it.
You know he really hates it.”
‘Rock the Casbah’, The Clash
- Porque acordas?
- Porque tenho sono.

"A hierarchy
Spread out on the nightstand
The spirit of team
Salvation is another chance
A sore loser
Yelling with my mouth shut
If I speak at one constant volume
at one constant pitch
at one constant rhythm
Right into your ear, you still wont hear
You still won’t hear
You still won’t hear"
'A Small Victory', Faith no More
Ou possível reacção masculina ao alter feminino.
Nascido e educado em Lisboa, dei os primeiros passos profissionais bem mais longe. Aveiro acolheu-me, embora passasse algumas semanas dividido entre Coimbra e Castelo Branco; felizmente nunca fora destacado para a Guarda em qualquer ocorrência – não pela urbe, mas considerava suficiente trabalhar na empresa dele, bem pior seria ter que despender dos meus dias atracado à terra do papá. Sempre fui muito independente. E muito independentista. Pois, dizer isto quando se trabalha para o pai não conduz a grande crédito. Porém, é mesmo assim que me sinto.
Mal juntei uns primeiros trocos valentes e optei por iniciar-me em conta própria, na Lisboa da minha mãe e onde passara infância e juventude; até terminar o curso na faculdade. O após já o contei. Não foi fácil, mas a ideia de me tornar ainda mais dependente de mim e só de mim mesmo agradava-me e servia de mote a que igualmente me movesse incansavelmente. Pior mesmo foram os meses passados numa espelunca arrendada em Alcântara, enquanto combinava condições para adquirir um espaço que me pertencesse. Depois, como é dito habitualmente, entrou-se nos eixos. Empresa, casa, carro. Pouco faltava para que sentisse a plenitude da realização. Certo é que faltava. Julguei vir a descobrir a peça de encaixe quando a conheci; àquela miúda que num primeiro golpe de vista me deixou num absoluto deslumbre.
Acabara de mobilar o meu apartamento quando passei a confraternizar assiduamente com aqueles três. Sinceramente, considerava um deles de uma futilidade que embaraçaria um idiota. Julgo que a história do pacote funciona sempre. E funciona a todos os níveis. Não é possível obter as partes de excepção sem que tenhamos que gramar com o resto. Tipo lei natural, ou o raio que seja. Os outros dois eram gajos impecáveis, o que compensava as vezes em que o freak abria a boca; não recordo, inclusive, de alguma coisa de jeito lhe ter atravessado o gasganete. Há gente assim em todo o lado, certamente; por isso, que se lixe.
Valeu por mais que isso. Quis o acaso que, por intermédio daquela convivência, viesse a conhecê-la no refúgio a que se davam para as suas escapadelas do quotidiano. Íamos tomar um copo invariavelmente àquele café – com pretensões a bar meio submundano – algures nos redores da Lapa, Campo de Ourique... convenha-se que o meu sentido de orientação é pior que péssimo. Sou pouco dado a copos, particularmente em dias ditos de semana; contudo, era a expressão a que recorríamos ao combinarmos horas através dos telemóveis – e os quatro em conferência, às vezes parece-me que chegamos a extremos do ridículo (se pensar que não desligo o tm, nem me lembro da última ocasião em que o fiz... então, escusado será falar em ridículo – sim, pois que se fica ligado não é propriamente por necessidade).
Bem sei que é pouco bonito, todavia estava a tirar-lhe, como se diz entre pares, as medidas – e a outra, à sua frente –, mesmo que de costas para mim, quando súbita e envergonhadamente desloca a cabeça na minha direcção. Bloqueei. Confesso que bloqueei. O que, entenda-se, não corresponde à minha ortodoxia. Um sorriso. Só consegui esboçar-lhe um sorriso pateta; e fiquei a rezar para que não me tivesse tomado por palerma ou, pior, por anormalóide – o que senti, pois... um verdadeiro, absoluto e tremendo anormaleco. Azar, ponderei. Afinal não estava à caça (pois, claro que estava... mas assim é não me tinha ocorrido – será por isso que bloqueei? será que preciso de resposta para tudo? será que sou inseguro? cof, cof, deixe-se este deambular de lado... por ora, eh, eh, eh, eh!).
Senti aquele olhar penetrar-me pelos olhos, corrupiar todo o meu corpo sem autorização prévia e embater, mesmo tipo rochedo a tombar das alturas, junto à nuca, ou seja, mesmo no fundo da cabeça.
Fazendo uso do meu mencionado ‘extraordinário’ sentido de orientação, demorei três vezes mais que o normal a chegar a casa. Aquele olhar, aquela moça... ocupavam no momento toda a minha mente. Despertei um pouco quando um ‘fogareiro’ me buzinou durante trinta segundos, após ter tido o senhor capacidade para evitar o quase inevitável embate de chapas. A bem dizer, após ter fotocopiado com os olhos aquelas redondezas, nem sabia ao certo onde estava. O motorista do táxi ficou ainda mais estupefacto quando saí do carro, dirigindo-me a ele, e lhe solicitei algumas informações sobre como ir para tal sítio. O coitado, a segundos de me chamar filho daquela senhora, respondeu passa a passo, ajudando-me a visualizar o percurso com desenhos no ar feitos com uns dedos hiper-grossos, apesar de completamente incrédulo daquilo que lhe sucedia. Ainda abanou o chocalho antes de arrancar, alvitrando garantidamente que hoje em dia há com cada maluco...
Os gestos foram de tal maneira mecânicos, pese embora com outra atenção, que só me reencontrei na cama, logo que fiz com que a luz se desligasse. Reencontrei-me com um suspiro profundo nas entranhas, a falar sozinho e alto, a desejá-la – lamechas, diria para sempre – sem a saber quem. Bah, acho que somos todos uns idiotas; e virei a tromba para o lençol, enterrando o nariz contra o meu ultra-duro colchão. Zzzzz, foi o que de resto se seguiu nessa noite; terminara, estranha mas agradavelmente, mais outro dia.
Embora fossem habitués, corroborei na mesma que gostava sobremaneira daquele espaço, que bem poderia tornar-se ad aeternum o nosso espaço eleito para escape às quintas-feiras. Não foi trabalhoso convencê-los; aliás, julgo que estariam convencidos disso mesmo bem antes de ter reiterado a ideia. Saberia, então, se seriam eles os únicos clientes habituais – compreendem-me, verdade? Eh, eh, eh! Tinha parte da trama urdida... claro, não sabia que alguma vez iria resultar. Não é montar o ardil uma das partes mais giras do processo?
Esteve uma, duas, três vezes. Sabia, então, aquilo por que buscava: ela e as amigas – que se lixem as amigas, que tantas vezes só nos goram as estratégias e com isso os objectivos prosseguidos – eram, de igual modo, prata da casa. Sem estrilhar – dizem os pescadores que afugenta o peixe, mas este tipo de pensar provoca-me náuseas – lancei foguetes, recolhi canas, etc e etc. Apoquentava-me, agora, o como; como conseguiria chegar a ela, preterindo daquelas avançadas tão básicas quanto idiotas pela vergonha que acabam sempre por provocar ao ‘macho’ da espécie. Por muito que tratasse, conseguindo-o, descodificar, essa era questão teimosamente insolúvel, uma trama demasiadamente espessa se tivermos em conta o meu estado – de espírito (voava sem asas, não carecia delas mas sim dela, daquela moça).
Um velho amigo havia-me contraposto, a algumas hipótese minhas, que é do banal do quotidiano que emerge o extraordinário. Só o compreendi, e dei-lhe todo e mais algum valor, no dia em que a ânsia findou, ie, quando – aleluia! finalmente! – a consegui conhecer – da primeira vez que trocámos uma palavra.
Numa quinta. Em que outro dia podia ser? Numa quinta-feira, claro está – tão claro como a água mais pura... E sim, veio do banal. De um acontecimento que, inclusivamente, até poderia ter virado para o torto. Mas não. Eh, eh, eh. Agradeço à rapariga por detrás do balcão. Agradeço-lhe, pois teimava fazer ouvidos moucos às chamadas de atenção para que servisse à mesa – delas, óbvio. Num rasgo de têmpera, a minha menina levantou-se: olhe, desculpe... Recordarei pelo tempo que o tempo tem aquelas palavras precisas. E soltas com uma convicção... Se a tinha num pedestal, tê-la-ei, digamos, endeusado mais ainda.
Duas colas – sim, com limão!, esgotando-se a parca paciência que restava – e uma ananoska. Estaria eu mais nervoso que ela? Exaltado, com certeza que não. Enfim, lá foi uma ananoska embebedar umas calças de um beije clarinho; resultante de um brusco gesto meu, é verdade. Porra! e até saltei. Desculpe, exaltei-me. Nada disso; caramba, eu é que tive responsabilidade; devo ter medido mal a distância – conversa parva do costume... – e causei esta trapalhada; eu é que lhe peço desculpa. Ripei rapidamente de três ou quatro guardanapos e passei a tentar reparar o dano – como se estes valessem de alguma coisa... Parecia, sem sombra para dúvidas, um autêntico parvalhão: a esfregar-lhe as calças – provavelmente nem no sítio correcto – enquanto a olhava perdido (espero bem que não tivesse feito a típica figurinha de boca aberta, queixo caído).
Para minha felicidade, a solução foi rápida. Mais prontamente que o pronto, uma das amigas – um tanto ou quanto tolinha, ou era essa a ideia que dela havia montado – habilmente – de forma simplista, diga-se; mas com resultado – transformou o acidente numa oportunidade de... interacção? Vocês também estão sempre aí sentados ao balcão, é natural que assim acontecesse mais tarde ou mais cedo – observou em 360º - porque é que não vamos para aquela mesa grande sentarmo-nos? aquela redonda; já agora, sou a Sofia.
Por muito complexa que seja a estratégia que se construa, o raio da simplicidade ganha sempre... Nenhum dos meus fez ondas; nem a minha menina, excessivamente atrapalhada para anuir ou ripostar com um não será propriamente a melhor altura. À guisa de continuar com as desculpas sobre o sucedido, abeirei-me de um acento junto a ela. O resto da noite foi normal – normal?
Um tipo, nos dias que correm, não tem quaisquer garantias de como agir. Inevitavelmente, o homem termina por ser preso por ter ou não ter cão. Queres que te vá apanhar a algum lado? Engasguei-me... lá está, ser preso por e por não. Pode ser, assegurei, confirmando a minha segurança com um afinal já sabes onde moro, certo? Acho que sim, quer dizer, em princípio sei onde fica; dou-te um toque para desceres, está bem? Ok. Ok? Como ok? Não poderia ter dito qualquer coisa mais... sei lá, simpática, composta, digna. Mas pronto, ficou de me vir buscar. Era o que importava. A primeira vez sós, os dois sem mais actores a teatralizar ao nosso lado e, agravando-se, connosco.
Perdi a conta a todas aquelas vezes em que tive vontade para lhe agarrar a mão no escuro não muito escuro daquele concerto; pensei que por sermos poucos na plateia, que mais não suportava que duzentas pessoas, todos os olhos se voltariam para mim (ok, estava era paralisado pelo medo – pelo medo de uma reacção pouco prazenteira que adviesse daquela coisinha linda). Dizem isto e aquilo dos homens, dos machos; nunca vi como eles para hesitar às beiras de tomar o – e não um – passo decisivo. Queria movimentar a minha mão para a dela, contudo os músculos enrijecidos pela circunstância – pelo medo! – escusavam-se a aderir às minhas ordens. Fitava-a. Fitava-a como se fosse a última vez, embasbacado. Fosse um São Bernardo e havia inundado o recinto. Adorava-lhe os traços, o seu sorriso, os lábios, os contornos, a voz e como a colocava, a maneira de pensar, o que parecia ser, adorava-a toda, plena – sem excepção. Caramba, como me apetecia fundir-me nela; mas não, o meu pedaço arruinaria aquela harmonia. Percebi que a começava a amar – não seria ainda demasiado cedo para amar? não, não me cabia que fosse apenas arrebatamento; sentia e sabia ser muito, muito mais que isso.
A viagem de retorno fora relativamente calma. Calma essa a não se compatibilizar com um desassossego que me envolvera. Sentia-me, dentro de uma cúpula, no interior de uma redoma de vidro – daquele que, até ceder, suportaria o impacto de cinco ou seis impactos provindos dos disparos de uma 9mm. O meu corpo tornara-se em algo hermético e na realidade, dado o efeito psico-somático, comecei por sentir uma certa apneia; inspirei profundamente e com esforço, no entanto apercebi-me do patético de uma reacção assim manifestava ser. Mas que me faltou o ar, faltou – digo eu...
De tal forma não tirava os olhos dela que suspeitei que ela julgava estar-me a insinuar quanto à qualidade da sua condução. E havia estradas? Claro que havia, palerma! – que bronco pusilânime... Se nada lhe saía de maravilhoso, ao meu encontro, também não indiciava estar aborrecida: a geriátrica questão do se não é mau, então (ao menos) já é (alguma coisa de) bom. Como me satisfazias com um tão pouco, quase nada...
Estacionaste para aí em sétima ou oitava fila, mesmo defronte da porta que abria as primeiras defesas da minha casa. Afortunadamente, penso que aí o meu cérebro sofreu qualquer síncope funcional; mais rápido que o pensamento, logo até mais rápido que o Lucky Luke, escapei do carro em direcção à porta do teu lado. Abri-a, contive a respiração e lancei o braço esquerdo à tua cintura. Por nanossegundos julguei que o mundo iria desabar, infirmado, todavia, pelo sorriso que atravessava os teus trémulos lábios. Mais que assentir, consentias.
Moveste-te comigo até à entrada. Voltei a observar-te, ávido de ti. Mais inebriante que álcool, a adrenalina falava agora por si. Percebia a proximidade do teu exalar morno; encostei os meus lábios aos teus, com toda a candura que me era permitida. Quentes, contudo tão secos que exaltavam a sua extraordinária textura; cerrei firmemente os olhos, deixando em aberto todos os campos que refinassem o tacto. E beijei-te; se beijei... Acompanhei a imagem do paraíso, que me eras, ao carro. Recordo-me de ver-te sentada no banco com as pernas voltadas para a estrada. E de ter agarrado a cabeça com as duas mãos, quebrado pelo pânico que tinha em que te fosses; toquei a tua testa num beijo de carinho e respeito, agradecendo por existir, agradecendo-te por existires. Doce, ainda murmurei.
Quero tentar; ou voltar a tentar. Para ser sincero, duvido bastante que qualquer resultado positivo venha a surgir; mas se o faço, se tento, é exactamente por ser isso mais do que meu desejo. Suspiro, pois que infelizmente não é possível apagar aquele mal que maldito – nos calhou; o que acontece é irreversível, nem se justifica caminhar por esses trilhos. Contudo, o que nos calhou na sorte, aquela erva daninha que nos minou, é-me difícil superar; não a questão de ter acontecido negro quando se previa e desejava branco; somos adultos, sabemos superar, melhor ou menos bem, os acontecimentos que não queríamos ter visto acontecer: perde-se muito quando se cresce, mas ganha-se maturidade no pensar, no sentir, no agir – maturidade, o único contrapeso conquistado à e com a idade.
Relembro carinhosamente aquela ternura que era quando vivíamos a nossa vida, juntos, simbióticos, um para o outro tanto como um com o outro. Amava-te acima de tudo; amo-te, essa é que é a verdade. Tão verdade como não me querer magoar mais; nem a ti, paixão.
Lembras-te daquilo que tantas vezes te repetia? Uma realidade tão óbvia que julgo nunca lhe teres oferecido uma importância sequer similar à que lhe dou. Tão óbvia, que no entanto sentia com tremendo fervor. Lembras-te? Lembras-te ainda? Não o irei saber. Pelo menos por ora, não é momento para to perguntar. Era tão simples. Era só isso. Dizia-te – espero que te lembres – como em grande parte se aferia o grau de confiança que ofertamos ao outro. Disse-to logo da primeira vez em que apresentaste queixa que adormecia vezes demais ao teu lado. Pequena, a maior prova de confiança passa por isso mesmo: adormecer, aninhado e desprotegido de tudo, à mercê de ti apenas, sem receio mas antes com a sensação de todo o conforto do mundo – e do universo; é entregarmos a nossa vida, é colocá-la na mão de quem está ao nosso lado sem que qualquer preocupação arrelie ou apoquente; isso era confessar-te em silêncio seres a pessoa mais importante para mim, o maior amor que tinha.
Contei-te que sonhava, acordado, numa hipotética situação ridícula, quando alguém disparava uma arma contra ti e eu, sem hesitar sabendo que morreria, me colocava entre o mal e o amor, impedindo que te fosses porque eras mais importante?
Adormecia, amor. Mas completamente feliz e sereno, que te tinha – a ti e só a ti – ao meu lado, com os corpos a trocarem carícias sem nos pedir.
Passávamos grande parte do tempo, que restava das obrigações do dia, a disfrutarmo-nos no aconchego da minha casa; a maior parte das vezes estendidos – rendidos? – na minha cama, quase sempre com uma fina e confortável manta ou o meu mais fofo edredon como conchego adicional. Trocávamos ternuras amiúde. Pensava não existir nada mais sólido em que galáxia fosse. E aos fins-de-semana, os passeios intermináveis, de mão dada por onde andássemos, a fazer inveja aos filmes que mais exaltam estas perspectivas; fazíamos escolhas por entre planos conjuntos, acabando tal como nos dias de semana na mais profunda intimidade que perfazíamos.
Adorava o teu corpo, único. Trivial, coisa igual a tantas outras e ainda pior, retorquias com uma certeza que jamais me convencerá. Perderia – perder, como perder? – horas a fio a contemplar o teu desenho nu sem carência de mais. Linda! Eras linda. Perdão, és linda.
Dava-me prazer aspirar o cheiro do teu cabelo, do teu pescoço eternamente elegante e fofo; mas o do teu peito levava-me à perdição, aquele cheiro morno que ora me tranquilizava, ora excitava todas as partículas que me constituem. Se fechar os olhos, mesmo estando no Evereste, consigo assomar o cheiro do teu peito. E do toque: se toda tu tinha aquele toque... então o teu peito, terno, meigo, o meu esconderijo secreto e preferido. Fitava-te de alto a baixo, por vezes incomodava-te e até me apercebi disso, quando fazia amor contigo. Saboreava todo o teu corpo, com todas as sensações que os sentidos têm. Não te quero descrever, fá-lo-ia muito por baixo daquilo que mereces... Quando beijava e mordiscava todo o teu peito, nem um milímetro escapava; quando beijava as tuas coxa por dentro; quando te sentia os diferentes sabores; quanto te beijava o pescoço e os lábios assim que estava dentro de ti; como te mordia, arrepiado que nem cão abandonado, às portas de cada orgasmo; como o meu corpo se torcia quando me tocavas... sim, porque eras tu que me tocavas; tu, o meu amor.
O que nos separou? A vida, não quero acrescentar mais; mas sabes que vivemos talvez demasiado intensamente, que não bom esquecer que existe um mundo, outras vidas, em nosso redor. Sei que te amo e basta-me. Basta-me para confiar, por muito que a realidade o desminta, que vamos resultar. Amo-te com intensidade que não sabia existir, possível, sequer verídica. Amo-te quando estás comigo, amo-te quando estás longe, quando dormes; sempre. Sei que é tolo assegurar o que não se sabe, mas: amo-te, para sempre. Para sempre, doce.
Esta nostalgia mata-me, esta indecisão de não te ter estando tu cá dentro. Merda para isto tudo! Já te disse que quero um filho teu, contigo? preferia uma menina; e tu, que dirias?
(É verdade: nunca soube se aquela ananoska era para ti...)
The End, para uma história que certamente não voltarei a retomar. Mas sim, acredito em finais felizes, quem sabe? Fico satisfeito por ter apresentado um rascunho em duas vozes, vozes que pensam numa complexidade – diferenciada – muito além destes dois pequenos-grandes posts que gostei de criar.
;)
A ficção é artifício com génese na realidade.

"Together they would travel on a boat with billowed sail
Jackie kept a lookout perched on puff’s gigantic tail,
Noble kings and princes would bow whene’er they came,
Pirate ships would lower their flag when puff roared out his name. oh!
Puff, the magic dragon lived by the sea
And frolicked in the autumn mist in a land called honah lee"
'Puff, the Magic Dragon', Peter, Paul and Mary
Em tentativa de resposta ao repto da Jacky.
Um bar – ou qualquer coisa – calmo, como sempre. Ou como sempre desde que me senti crescer verdadeiramente. Junto à Estrela. A visão daquela basílica preenche-me. Melhor... nem sei bem, não sei ao certo. Grande, enorme, confere-me aquele aconchego materno que em criança me escasseou. Grande, enorme, demasiado bela e significante; assim me sinto pequenina, um minúsculo pontículo numa espécie de ordem que me transcende. Adoro-a por esses significados ambíguos que me acalentam o ser, fazendo-me sentir (n)uma plenitude de vida – que outro qualquer objecto é incapaz de transmitir; menos ainda eles. Homem – homens! –, animal errante que me faz questionar se realmente pensam: se alguma vez ponderam a sério; o que fazem, o que são.
Sou retirada da abstracção, as minhas companhias exigem presença: a minha. Sorrio, como que numa desculpa pueril justificando por que não estava ali com elas. A Raquel olhou-me de lado, enquanto a Sofia matraqueava com a língua uma sucessão de palavras: a verdade é que não tolerava o silêncio; bastavam-lhe alguns a que se via coagida e nós, naqueles momentos, éramos uma verdadeira terapia para ela. Com um dedo, a Raquel recoloca a armação no sítio. Olhava-me agora como se visse melhor. Realmente, desde que usava óculos que sugeria aos outros uma seriedade que lhe faltava; não ficando por isso menos bonita – é um ponto que lhe invejo, julgo eu, ditando esta sentença da mediania do mediano em que me considero: nem boa nem má, nem bonita nem (muito) feia.
Instalei-me mais confortavelmente na cadeira, por muito que isso depois se manifestasse nas minhas constantes dores de costas. Esperei que ambas serenassem; depois, depois voltaríamos às conversas banais. Suspirei por dentro, não pretendia atrair mais atenções da Raquel. Aproveitei uma falsa tentativa em compor o relógio, com bracelete a dar duas voltas ao pulso, para me confrontar com as horas. Nem tarde, nem cedo; mas sentia-me exausta por mais um dia de trabalho, da voz da directora a berrar pelo habitual incumprimento e desrespeito dos timings de edição; afinal, tudo acabava sempre por ficar pronto nem que fosse just in time, mesmo à justa.
Ao balcão sentavam-se quatro bichos homens. Todos diferentes, pelo fato e gravata escuros que um envergava; pelo fato mais ordinário – bem como a gravata (meu Deus, que gosto!) – de outro; o blazer bombazina e calças de ganga carcomida com uns vela Timberland do terceiro; das calças verde-oliva à la marine – como lhes chamo (aquelas com uns trezentos e tal bolsos laterais) – acompanhadas por uma camisola de algodão de decote em ‘V’ e de uns Airwalk última geração e bem mal-tratados, do último.
Pediam sempre o mesmo. Conhecia-lhes as rotinas: café e ‘pedras’ fresca para o senhor gravata-seda Façonnable, na pior das chances uma David & Monteiro linha branca; um café, a que seguiria uma imperial mista, para o senhor gravata Business, que na melhor das hipóteses fazia vez com uma ou outra Wesley – pareço fútil a ordenar assim por ‘marcas’, mas a verdade reside mesmo no mau gosto deste último em escolher qualquer, mas qualquer peça de roupa da sua ‘espécie’; também o senhor Airwalk pedia café – não saberão variar, estes bichos? –, ao qual, por vezes, fazia acompanhar um brandy aquecido. Conhecia estes três; também a Raquel; a Sofia nem tanto, limitando-se a devorar, alternando, um ou outro – ou dois ou três ao mesmo tempo – com os olhos.
Ao número três nunca o vira. Na verdade, o nosso mútuo conhecimento não extravasava aquele espaço.
Ao ouvir se tinham chá flor-de-lótus não resisti a olhar pelo ombro, mantendo o devido cuidado que as aparências exigem. Pois, pode ser então de canela e menta: em resposta ao não e a um só temos de (rol), vindo por detrás do balcão. A curiosidade voltou-se a despertar-se-me, olhei novamente; e ele viu-me a olhar; e sorriu; normal, não matreiro, não apelando ao tão fácil sorriso de pseudo-engate que deve estar embrenhado algures na genética masculina; voltei a cabeça, depois de retribuir como se fosse normal, uma qualquer trivialidade. Senti o rubor a subir do peito à face; que tolice, disse-me sem manifestar qualquer som. O rubor, esse, continuava – teimoso; e o estômago desenhava agora um nó. Foi a primeira vez que o vi. Não me voltou à mente pelos dias que se seguiram. E a Sofia... bom, a Sofia lá comia com os olhos – nem as desaprovações ditadas pela postura da Raquel – que idolatrava com um amargo sabor de ‘inveja’ – a demoviam de o fazer; descaradissimamente!
Vi-o outra vez num outro dia. No mesmo dia da semana, pensei. Às quintas, vem às quintas, concluindo como se houvesse executado brilhantemente a mais complexa das equações. Decidira que, de futuro, passaria a usufruir da vista da basílica todas as quintas; pelo menos enquanto mo aprouvesse na moleirinha. Não voltei a estar desprevenida, escapando-me com arte às cadeiras que colocavam as costas voltadas para o balcão. Serenamente – embora, sem paradoxo, com estupenda avidez –, iniciei o roteiro das descobertas. O físico. Nem alto, nem baixo; nem forte (gordo), nem magro. Igual a tantos outros... porquê então esta necessidade em descobri-lo, pouco a pouco? O seu estilo sempre inalterável, roupas diferentes mas que se diriam saídas do mesmo molde: variavam cores, traços ou estampa por quadrados, bombazina por aquela camurça pele de pêssego em que apetece, sensação inolvidável, encostar a cabeça e roçar as unhas – o estilo, a trave mestra, por assim dizer, mantinham-se conformes; ficava agora curiosa por conhecer aquela pessoa, provar a sua personalidade. Provar... há quanto tempo não pensava esta palavra... provar... Tão pueril, e tão maturada agora na minha pessoa.
Atraiam-me os seus gestos, calmos mas decididos. É difícil explicá-lo; seriam mais ou menos de grande ternura, que todavia escondiam uma robustez de pessoa. É estranho por em palavras o que se sente, ainda que mais estranha seja a busca por fazê-lo. Contemplando-o percebi que teria de o conhecer. Afinal, se ele me sorrira ir-se-ia a recusar-me conhecê-lo? Dúvidas, dúvidas... Não sendo a oitava maravilha do mundo – talvez até o contrário! – sou determinada, sabia que nada me faria inverter o sentido. E quanto mais o olhava, mais precisava de o conhecer para além do que transmitia a sua linguagem corporal. Recordo-me, por exemplo, da forma como era trapalhão ao andar; o que lhe conferia, aos meus olhos, uma graça adicional. É possível gostar-se sem conhecer, isto é, gostar-se e pronto?
Sexta-feira, uns dias adiante. Uns bons dias adiante! Conhecêramo-nos. Na tosca, e martelada à pressão, primeira conversa que partilháramos, havíamos descoberto ter em comum o gosto por um alguém que iria actuar no Estoril, no Casino, naquelas salas onde são os concertos íntimos. Não exagerei na produção – só numa coisita aqui e noutra coisita ali, mas pouco –, dado que quero que me queiram pelo que sou; ou por quem sou, sei lá. Claro que o meu coração pulava mais rápido do que aquilo que me consigo lembrar por entre entes passados. Criança para mulher; ou mulher para criança? Não nos dão um livro que explique isto: nem nos inúmeros anos de escola, nem no trabalho onde passamos mais do que devíamos em tempo. Deixei-me relaxar – numa calma aparente; mas que convencia, ou não fosse eu conhecer-me. Tentava inalar cada palavra que lhe saía, quase sem ruído e em tom mais grave que o corriqueiro, daqueles lábios em direcção a mim. Finalmente compreendi que a voz lhe tremia também, acusando o toque da sua insegurança.
Estava com sono quando o deixei à porta de casa – mulher de armas sabe conduzir (nem que seja só o suficiente!) –, causa de muitas birras que me nascem sem outra razão. Ainda assim, senti-me tremer, de alto a baixo, de fio a pavio, quando me afaga os cabelos dizendo qualquer coisa que nem me dei ao trabalho de perceber. Convida-me a sair do carro, a acompanhá-lo a casa, já que era, nas suas palavras, coisa que as mulheres raramente faziam. Guiada pela graçola, acedi com um aceno de cabeça e uma porta a abrir. A custo saí do carro – nunca hei-de saber ao certo se cheguei a tirar a chave da direcção –, mas logo fui amparada por uma braço que me envolveu. Sussurrámos algumas palavras, uns risos abafados; e o silêncio junto à porta do prédio. Olhávamo-nos toscamente, parecendo a primeira vez que víamos aquele olhar, os olhos dele – ele os meus. Custava-me mais a respirar, ouvia o oxigénio a ser inalado e expelido; forte, sem a cadência tão bem ritmada do costume. Senti o seu sopro, o calor do ar que a ele saía por entre lábios. Não fechei os olhos: queria vê-lo; sim, vê-lo, a ele. Suave, encostou os lábios aos meus lábios: que o aguardavam; e quanto – que o diga aquele espasmo que percorreu toda a minha coluna. Tinha-o beijado, beijado aqueles lábios tão doces quanto fofinhos. Pouco mais faltava, naquele momento, para me ver às portas do sétimo céu. Abracei-o; correspondeu – firme, mas com uma ternura que não consigo descrever. Conduziu-me no torpor de todo este êxtase à porta do meu carro, que abriu sem que desse conta e enquanto as nossas línguas se iam explorando mais profundamente. Não me hei-de esquecer do derradeiro beijo que antecedeu a entrada no rodinhas; segurou-me a cabeça com ambas as mãos, beijou-me a testa demoradamente, terminando a dizer ‘boa noite, doce’. Fechou-me a porta, sorriu com ar de puto traquina, cruzou com os braços, e em aperto, o seu peito e apontou para mim. Foi a primeira vez que disse ‘gosto de ti’, sem ter que usar a boca para isso.
Dei-me conta a sair do trabalho apressada, correr e tê-lo comigo, para mim. Aos poucos, tornava-se habitual vivermos todos os dias no seu confortável T2. Uma sala pequena e aberta, por obras que quisera executadas, para a cozinha – fundindo-se numa espécie de um só espaço. Um quarto inteiramente dedicado à sua extensa biblioteca, uma secretária disposta em ‘L’ onde, no meio de tanta confusão que só ele percebia, morava um portátil que parecia destinado a estar sempre ligado e ainda um desses monitores fininhos cuja função, porquanto ele explicasse, me passava ao lado – chamava-lhe o seu santuário.
Mas o espaço que mais gostava era sem dúvida do quarto onde dormia, no qual tinha a única televisão da casa. Era naquele quarto que me aninhava ao seu corpo, que aprendi a arranhar-lhe as pernas quando ligava mais à televisão ou ao dvd do que a mim. E adorava ouvi-lo resmungar, que já tinha as pernas num estado lamurioso e isto e aquilo e mais que também; no fim, acabava por rir, trepar por mim e beijava-me intensamente. Se ainda tínhamos roupas vestidas, era ele quem tratava de as tirar: a mim e a ele. Achava-lhe uma profunda graça, era extremamente mais capaz em destituir-me de toda a roupa do que a ele próprio: mais uma faceta do seu jeito trapalhão. Trepava-me para cima, olhava-me com olhos sérios que fechava para me dar um beijo melado nos lábios; e demorado. Dir-se-ia que me começava a provar; e eu a ele. Mordia-lhe o lábio de cima e só o soltava quando o ouvia suspirar, como se sentisse o prazer que viria. Tinha arte e eu rendia-me a ela com todo o prazer: despia-me da roupa para cima enquanto me beijava, lambia e mordiscava o pescoço – e eu mordia o dele, excitando-me senti-lo excitado; depois de contornar vezes e vezes o meu peito com as mãos, passava-as para baixo da cintura para me ter completamente despida de tudo o que não fosse eu. Arranhava-lhe as costas, largas e bem constituídas e absorvia-lhe cada cheiro: cabelo, pescoço, ombros, peito... aquele peito... e aquela barriguinha! A ele despia-se à bruta, quando não me deixava despi-lo, desajeitado, deitando para longe as peças de roupa que tirava de cada parte do corpo. Percorria-me, então, as formas, que eu dizia demasiado redondas – rechonchudas – e que ele teimava em contrapor que não, com o calor húmido da sua boca. E eu adorava depois inverter posição, trilhar-lhe ao de leve os pelos do peito, roçar-me na barba sempre mal feita devido à preguiça em aprumar-se nesse assunto; encostar a testa naquela barriga sempre quentinha e sentir que o desejo por mim aumentava nele a cada toque dos meus lábios, a cada roçar da minha língua.
Reconhecia-lhe todos os cheiros; reconhecê-lo-ia para sempre enquanto pudesse cheirar.
As pessoas são tontas. Eu sei, melhor que ninguém. Esquecemo-nos, no ponto em que estamos tão felizes que nos recusamos a pensar, que nem tudo são rosas: que estes mares também têm espinhos. Não quis acreditar à primeira discussão. Nem à segunda. Só quando ele quase me fechou a porta, que eu só via os meus desejos, que também ele existia e era dotado de vontade. Foi a reviravolta: aquele ser que tanto amava tinha também duas faces, como Eva. E não poderia tê-las? Deixamos de nos ver por um tempo, por acordo mútuo. Sabíamos não ser solução, ou melhor, sê-lo-ia se nada fizéssemos que alterasse aquilo em que nos tornáramos. Não, recusava-me a tê-lo só como uma parte: ou completo ou não valeria... Completo, percebem? Completo não quer significar exclusivo meu em tudo: mas sim que o desejava de corpo e alma.
Sei que me ama, mas que eu não o deixo viver... é tão forte, não deixá-lo viver. Não acredito nisso. Não pode ser verdade.
Decidimos que iríamos tentar, cedendo aqui e ali: não existimos para nos castrarmos, mas para nos completarmos, percebes?, disse-lhe um dia. Acenou que sim, acedeu; e eu também. Porque o amo; e ele a mim.
Cometi um erro: crasso. Deixei-me apaixonar não por ele, mas sim pelo meu ideal.
Aprendi que devo voltar a tentar: devo-me e devo-lhe isso. Olhando para ele, sem nunca deixar de olhar para mim; não permitindo porém projectar-me no outro, deixando-o livre como eu sou; uma liberdade de que nunca abdicaria. Porquê apartá-lo de tamanho direito?
Penso que havemos de conseguir. Penso que havemos de ser felizes. Que havemos de fazer por isso, em conjunto. Ficam para trás as obsessões dos monstros que criei, a obsessiva e compulsiva fixação no futuro que me tem impedido de viver o presente, presente onde o que virá a ser encontra alicerce.
Havemos de tentar, amor.
Nada disto é claro. Foi o que tentei expor-lhe. Aliás, racionalmente as respostas são de uma aparência assustadoramente simples. O problema é que razão e emoção se confundem, são uma só unidade que labora em ambivalência.
Foi por isso que nos rimos, juntos. Consciente de quase tudo, todavia incapacitado de pensar e sentir em consonância. Rimo-nos dessas tolas contradições da mente. Rimo-nos, levando-as a sério. Na realidade, estas tretas baralham mesmo um tipo.
Jogámos com conceitos. Estou satisfatoriamente à vontade com os meus. Ela domina perfeitamente o que lhes dizem respeito. Nesse espaço de acção em concreto tem toda a vantagem, é o seu. A experiência que transborda numa calma avassaladora eclipsa a minha: mesmo que estivéssemos num plano de acção igual... contudo, é o de sua pertença – e, factualmente, o que busquei.
Nem por isso se arrogou nessa desvantagem absolutamente óbvia. Talvez tacitamente; talvez, e só, naquela calma ‘industrial’ de quem reina, soberano, do alto do seu domínio – mas de igual para igual, não é uma oposição de onde interesse advir vencedor ou derrotado. E assim rimo-nos. Depois de uma entrada trágica, onde cometi prontamente o primeiro erro crasso, o gelo foi-se desconjuntando até à derradeira – derradeiríssima – parcela sólida ceder a um calor dum formalismo superficial.
Fuma?, interroga quando acende um cigarro e satisfeita por saber que o fumo não me iria incomodar. Sim, prontamente asseri; prontamente, não de modo precipitado como se se tivesse rompido um desespero. Está aí um cinzeiro; tome, pode colocá-lo aí; fica mais confortável, certamente. Sorri, acenando um agradecimento com a cabeça. Podemos continuar a rir? Bom, isto não dissemos: mas sentimos.
Temos várias coisas em comum. Percebemo-lo bastante cedo. Paradigmas diferentes, é certo; destinos paralelos em termos de ambição, que jamais se haverão de tocar – mas sem dúvida a caminhar relativamente próximos. Conceitos comuns, palavras iguais de conceptualização distinta, uma harmonia entre singular e divergente. Torna-se mais confortável. Percebemo-nos e, mais importante, respeitámos territórios simultaneamente alheios a um, ainda que de referência para o outro. A aceitação e o respeito são basilares para qualquer interacção; ela di-lo-ia de outra forma, com significados que roçam o parentesco.
Sentados, frente a frente. A rir um com o outro, nunca um do outro. E compreendemo-nos. E ficámos de nos voltar a ver; de voltar a rir? De voltar a rir com as tretas tão simples que tão eficazmente baralham tantos alguéns.

Pedes desculpa. Culpas os miolos; ou a falta deles, a sua inépcia. Vais-te cansando: um dia terás de parar, terás de endossar a ti as desculpas. Dizem-te seres sempre o mesmo, perdido a capacidade de variar. Engoles a seco, por ser verdade. Engoles com a prepotência que bem se vê quando lhes encolhes, em resposta, os ombros. Não te sai a palavra, embora a penses; dizes só, alto porque querendo mostrar domínio, «vai-te lixar». Ficas satisfeito, desviaste as atenções e julgas-te sair por cima: como sempre, detestas o sabor da derrota mesmo quando a negas para os de fora.

"Choose life.
Choose a job.
Choose a career.
Choose a family.
Choose a fucking big television.
Choose washing machines, cars...
compact disc players
and electrical tin openers.
Choose good health...
low cholesterol
and dental insurance.
Choose fixed-interest
mortgage payments.
Choose a starter home.
Choose your friends.
Choose leisure wear
and matching luggage.
Choose a three-piece suite on hire
purchase in a range of fucking fabrics.
Chose D.I.Y. and wondering who the fuck
you are on a Sunday morning.
Choose sitting on that couch
watching mind-numbing,
spirit-crushing game shows...
stuffing fucking junk food
into your mouth.
Choose rotting away
at the end of it all.
Pissing your last in a miserable home;
nothing more than an embarrassment...
to the selfish, fucked-up brats
that you've spawned to replace yourself.
Choose your future.
Choose life."
'Trainspotting'
Para que a manhã possa irradiar as suas primeiras luzes têm de existir as trevas da noite. Bela verdade la paliciana. O óbvio do óbvio faz, contudo, esquecer as premissas mais básicas que constituem os fenómenos: entra-se na fase em que tudo surge como facto adquirido; esquece-se quantas vezes se teve de batalhar por eles, que se deve sempre batalhar porque só a morte traz o final acabado da experiência terrena.
Hoje é mais um dia solarengo, ainda que por vezes peneirado por algumas nuvens – da época? As árvores tocam entre si um sem fim de acenos, eolicamente movidos. Cores vivas pintam o restante da paisagem. Uma boa quantidade de seres bípedes passeia-se por aí, muitos sem destino ou então rendidos à supremacia da rotina. Ninguém reparará que é um dia diferente? – como amanhã irá ser, orquestralmente manobrado pela mão – vontade, arbítrio? – da natureza. Cor – cores – para alguns, escala polissémica de cinzento para outros. No entanto, um mundo apenas...
Trocam-se passos e olhares sem importar. Cada qual tem a sua concha, o seu retiro privativo. A subtileza da esfera privada, o ninho que tudo é, onde os significados assomam promovendo esse espaço a centro do universo – do micro-universo, individualidade e individualismo ao expoente máximo. O resto do mundo desaparece ao encerrar-se a porta de serventia de uma casa. Oh, brave new world!, diz o selvagem.
Em todos os aspectos cada vez mais respeito aqueles que sustentam que o sentimento de insegurança é mais perigoso que a insegurança por si. Enquanto se sentir o recato protector do ninho, continuar-se-á a insistir na ruptura com o demais – um dia, tarde, acorda-se com a percepção que dito ninho está desmoronado, sem que nada fizéssemos – mas nada fazer não será fazer por omissão? – e, mais grave, completamente despreparados para voltar a encarar realidades – a idade pesa, e ilusões destruídas são complicadas de sanar.
Ser-se outsider de si próprio... Como conhecer o outro por quem não se reconhece? Amontoar experiências não é sinónimo de sapiência em saber lidar com as mesmas – senão, como seria possível tropeçar incessante e incansavelmente no mesmo?
Todavia, os primeiros raios de sol pela manhã estarão novamente aí; e as cores; e os sons; e o aceno das árvores.

"A experiência do abismo é típica do indivíduo isolado."
'O Mistério do Enamoramento', Francesco Alberoni
Se me questionassem sobre quais os locais privilegiados para meditarmos connosco próprios em sossego não hesitaria na resposta: as igrejas.
Não por uma questão mística, não por associação espiritual ou sequer por indução de carácter divino ou divinizado. A importância que lhes atribuo como esse lugar privilegiado é completamente dissociada duma transcendência (idealizada). São privilegiados pela atmosfera que emanam, do silêncio lúgubre com que dotam o interior das suas quatro paredes. Automóveis, buzinas, multidões, dicutires fervorosos e outras sonoridades que perturbam uma acepção eremítica e meditabunda que certas introspecções exigem não habitam estes espaços; somos que como transladados para outro universo, coexistindo com e simultaneamente à margem daquele de todos os dias, dos nossos quotidianos.
O silêncio é-o de tal forma que chega a ser aterrador; com o hábito, esvai-se esse sentimento de insegurança que a meu ver será absolutamente endógeno; talvez por culpa de um preconceito, o da definição inculcada do significado simbólico do lugar em causa.
Numa primeira análise tudo é pesado numa igreja. A fórmula arquitectónica, a porta de entrada, a escassa luminosidade, a aferição do ser com a transcendência. Arrebatados e esmagados pelas evidências do ambiente envolvente, o à-vontade por maioria de razão é muitas vezes castrado.
Seria igualmente o leque de sensações que primeiramente, e ainda agora durante os primeiros minutos após a entrada, inundavam o meu raciocínio fazendo inclusivamente que se toldasse num estranho e místico corte com o real. Parece que a mecânica da religião permanece numa tentativa de nos vergar ao invés de exaltar os espíritos – ou as mentes; não se deve esquecer que a religião, conceptualmente, é invenção e empresa humana...
Superados, por assim dizer, os incómodos relativos aos factos que enunciei, a entrega aos raciocínios indutivo e/ ou dedutivo é fortemente impulsionada pelo rol de condições tácita e manifestamente favoráveis a tal empreitada.
Os ponteiros do relógio congelam, as condições atmosféricas estagnam, espaço estranho este que parece intemporal tanto como atemporal. Desvanecem-se urgências, o rodopiar entrópico do dia-a-dia, as preocupações corriqueiras e de parca relevância (moral). De facto, este ambiente espartano (no sentido de exiguidade de possibilidades de acção) seduziu-me enquanto campus de reflexão; se bem que há muito que não entre numa.
Afinal, nem tudo é mau – nem bom – na casa do Senhor. Herético? Talvez o considerem, porém não comungo dessa opinião. Pontos de vista, somente – tão pertinentes quanto outros.

Deo Gratias
Como aceitei dizer à moça quais os meus trajectos pela leitura, aqui ficam. Embora expor esse trajecto assim gratuitamente seja tornarmo-nos como um livro aberto: é ler o que está por lá escrito; bem sei que ler não chega, mas por agora calo-me e passo às questões que se querem respondidas.
A primeira. Que livro quererias ser (não li o Fahrenheit 451)?
Vários e nenhum. Mas na obrigação de escolher um provavelmente, neste instante, quereria ser A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera. Entre outras razões, é um livro extraordinariamente sensitivo; e de sanidade – mental – duvidosa.
Segunda. Já ficaste alguma vez apanhadinho por um personagem de ficção?
Não propriamente. Revejo-me, quanto muito e num esgar demasiado rápido, em alguns personagens de Olhos nos Olhos, do Júlio Machado Vaz, e na do Fazes-me Falta, da também portuguesa Inês Pedrosa. Winston Smith, Henry Foster e a feminina Holly Golightly, de 1984, Admirável Mundo Novo e Boneca de Luxo, produções respectivamente de George Orwell, Aldous Huxley e Truman Capote.
Qual foi o último livro que compraste? Vamos na terceira.
Foram três a passar na mesma caixa: A Siciliana, Sveva Casati Modignani, A Cinza do Tempo, Daniel Sampaio, e A Metáfora Social, Alain Mons.
Qual foi o último livro que leste?
A Outra, romance de Laura Zigman, que por sinal é bastante fraquinho.
Penúltima. Que livros estás a ler?
As Estratégias Fatais, Jean Baudrillard, A Improbabilidade da Comunicação, Niklas Luhmann, Masculino e Feminino: Construção Social da Diferença, Lígia Amâncio, e, finalmente, Café República, Álvaro Guerra.
Sexta e última. Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Só cinco...
Cem anos de Solidão, Gabriel García Márquez.
Os Miseráveis, Victor Hugo.
O Vermelho e o Negro, Stendhal.
Asylums, Erving Goffman, não renegando assim à formação superior.
E, sem poder deixar de ser, DSM-IV-TR, APA, de modo a permitir-me acompanhar todos os sintomas de cada passo a caminho da loucura absoluta – definitivamente, careço de gente à minha volta.
E final. Puff...
Amanhece escuro. Quem te manda seres noite?

©
"Psychic changes are born in your heart
Entertain
A nervous breakthrough that makes us the
same
Bless your heart girl
Kill the pressure it’s raining on
Salty Cheeks
When you hear the beloved song
I am with you"
'Parallel Universe', Red Hot Chili Peppers
Continua-se a chocar com cadeiras vazias.

©
"Take me back home
There is nothin' fair in this world
There is nothin' safe in this world
And there's nothin' sure in this world
And there's nothin' pure in this world
Look for something left in this world
Start again
Come on"
'White Wedding', Billy Idol
Um futuro apaixonado.
Um passado acabado.
só para ti, pá:

PARABÉNS!!, pá!
Vê se tens um dia pouco infeliz. [:P]
Com um abraço amigo, uma 'malha' que te fica bem:
"Lifeless and fallen
Bodies lie still
Waiting for rebirth
To strike at will"
'Re-Birth', Front Line Assembly
A vertigem provocada por facto seguro é mera ilusão.
O tempo quente assoma-se com pezinhos de lã. Aos poucos vai-nos habituando a si. As temperaturas que estão são quase perfeitas, nem frio em excesso nem calor nem demasia. Convidam a sair para a rua e ir por aí, meios desbragados, apreciar as nossas vidas. Da minha conta, a resposta desilude. A vontade é pouca e só graças a duas pessoas, ao «arrancarem-me» de casa, é que vou dando uns «pontapés» por aqui e ali. As aulas de mestrado, com forte motivação inicial, perderam algum – considerável – do seu encanto. As meiguices da noite tornaram-se monotonias. Pasmaceira e astenia...
As sete colinas olissiponenses são, no entanto, um convite irrecusável. Mais ainda quando agora do campo nem vê-lo pintado a ouro. A selva urbana é o meu habitat por excelência, não devia ter insinuado trocá-la – ou partilhá-la, ninguém gosta de ficar em segundo lugar no ranking dos amores; um tudo ou nada, sem termos de permeio. Cinzenta, poluída, violenta, impessoal, desregrada... acresça-se o que se quiser; é do que gosto, é onde pertenço, onde também me sinto pretendido – por essa esfera imbricada em cimentos e organismos, num simultâneo simbiótico.
Deixo-me envelhecer a teu lado. De todas, foste a única que sempre recusou abandonar-me. Talvez Coimbra, que a tudo e todos está habituada. Também Coimbra estendeu o seu manto para que lá ficasse; é uma cidade carregada por sentimentos e pela História. Mas foi junto ao Tejo que me acolheram em primeira instância. Promovemos uma relação quase incestuosa, agarraste-me como mãe e cortejas-me como amante. Ensinaste-me e educaste, cuidaste e sancionaste. Mais tarde, abriste-me a cortina para outros prazeres, amores de espírito e de carne.
Por tudo o que de significante tens, passear-me na tua pele mantem a sensação de deleite. Correr-te de noite, ver-te brilhar à luz dos artefactos, numa falsa timidez que aflora a sensualidade, preenche e gratifica. De noite ficas ainda mais bela, envolta nas sombras que não mostram escancaradamente, mas que antes insinuam com terna lascívia. Ao fim de cada dia, sei que posso fechar os olhos e saber-te aí, no mesmo cantinho, quando ao acordar voltar a abri-los.

Recordo com saudade os dias em que saía do trabalho e ia deambular para a praia. Normalmente, devido à proximidade, algures pela Linha; excepto se chovia, isso nunca.
Quantas vezes, feito tolo, o único de fato – calças arregaçadas, sapatos na mão –, a parecer perdido no areal, bem junto à linha ondulada desenhada pela água naqueles milhões e milhões de minúsculos grãos.
Homens olhavam-me de lado, alguns riam quando por mim passavam. Cheguei a ser abordado por uma senhora que, muito dócil, questionou se me sentia bem – claramente julgava-me a priori taralhoco, assim meio enviesado das ideias se se quiser ser simpático; veio, porém, perguntar – foi querida. Não era taralhoquice nem enviesamento de ideias. Simplesmente adoro perder-me e ao meu pensamento naquela paz natural onde as ondas encontram terra firme, a beleza do mar, sem rival que iguale, transmite-me qualquer coisa que nunca hei-de conseguir definir, qualquer coisa de grandiosa e de reconfortante, boa num sentido místico que se aproxima do divino.
Cimentei essa adoração no decorrer das últimas fases da adolescência, quando acompanhava um vasto grupo, entre amigos e conhecidos, até ao Braham’s ou o Dunas. Tínhamos como ritual, coisas tontas circunscritas a essa época, apalermar e eteceteras para junto da linha do comboio, de onde saíamos quase atolados de areia – e não só; e deixávamos o resto da rapaziada aos arames, fula, que ao nosso regresso respondia invariavelmente para a próxima não esperar por nós.
Por aqueles cantos, enquanto disparatávamos pela areia, os ponteiros de todos os relógios congelavam, o tempo parecia não existir.
Com o evoluir dos anos cada qual terá seguido as suas passadas, restaram aqueles que habitualmente designamos como poucos e bons – na verdade, aqueles com quem estreitara laços desde bem mais cedo; outros há também que são posteriores a estes momentos.
Mantive o bichinho, o tal que me faz sentir em elevada brandura por ali entre a areia e o mar. E com ele o hábito, os rituais que fazem com que me desloque até no pico do Inverno – sempre que sinto precisar; e desde que não chova, reitere-se.
Adoro estar junto do mar, especialmente quanto trato com coisas inqualificáveis – indignas. Acontece.
[Ipsis verbis, execrável]

"Há luz sem lume aceso
Mas sem amar o calor
À flor de um fogo preso
À luz do meu claro amor
Há madressilvas aos pés
E águas lavam o rosto
A morte é uma maré
Olho o teu amado corpo
Não foram poemas nem rosas
Que colheste do meu colo
Foram cardos foram prosas
Arrancados do meu solo
Oi que ainda me queres
O amor que ainda fazemos
Dá-me um sinal se puderes
Sejamos amantes supremos
Será sempre a subir
Ao cimo de ti
Só para te sentir
Será do alto de mim
Que um corpo só
Exalta o seu fim"
'Foram Cardos, Foram Prosas', Manuela Moura Guedes (let. Miguel Esteves Cardoso)
Com o security center ligado, guardam-se alguns ficheiros. Os que importam. Vou formatar o meu disco rígido.
"And when my smile gets old and faded
wait around I'll smile again
Shouldn't be so complicated
Just hold me and then
Just hold me again"
'Bent', Matchbox Twenty
Descartáveis.
As relações são recicláveis, os parceiros separados com novas formas – ainda que da mesma matéria – ocupam outros lugares com outros igualmente descartados, submetidos ao mesmo processo.

©
(porque, muitas vezes, só se tem garganta)
Queria prometer-me esquecer de vez. Tenho mesmo tentado. Tenho mesmo compartilhado essa minha fixação – legítima, sem dúvida – com alguns, daqueles que chamamos especiais. De falta de palavra – palavras –, das que sim, que não é sem tempo, não posso apresentar lamúria. Não basta. É bom; claro que é bom. E reconfortante, deveras reconfortante. Porém não basta. O princípio, entenda-se o postulado constitutivo, obrigatoriamente só poderá advir de um único indivíduo. Todavia, eu, esse indivíduo, teimo na prevalência de não desejar esquecer. Sei que preciso, mas evito essa atitude como o ser demoníaco evita a cruz. Digo que sim, desta feita o devido há-de ser não só prometido como cumprido; depois, por demérito do carácter ou da personalidade, a recaída; o voltar atrás, vergar de joelhos, repensar em tornar à posição eréctil, praticar as imagens já cristalizadas que imitam o mote de andar. Em amena cavaqueira disse-to, isto de ir indo aos trambolhões – nem em pé, nem ao arrasto – é de uma tremenda canseira; de desalento para a índole.
Queria mesmo prometer-me esquecer. Esquecer-me de ti. De vez. Finito, fim, sem indulgência.
Creio que a circunstância, para te esquecer a ti, viu horizontes mais longínquos que os do presente; do agora; se calhar, do agora mesmo. Mas não quero cair no engodo de medir, medir o que aparenta ser imensurável é erro que roça a insanidade. Louco por ti fui, nunca, convenha-se, insano; são fenómenos distintos, de ténue barreira, mas que vincam marcos por dois campos onde se movimentam jogos de realidades antónimas.
Eu deixo-te; e tu, deixas-me?; parece-me que ainda não deixaste; preciso que me deixes, e aí descansaremos, os dois, imunes – porque imunizados – para o percurso destituído, então, de percalços: esvaem-se as contrariedades, o transtorno – porque, simples, deixam de ter sentido. Preciso de deixar-te; de seguida sim, prometo com outra convicção esquecer.
As locuções fáceis sucedem-se; faço-as suceder. As decisões, o pior, encalha pelo caminho. Outra vez, na amena cavaqueira – ou noutra ainda, se não na mesma – sentenciaste-me que passaria metade, contado em tempo, do total que vivêramos até que a pudesse esquecer. Não acreditei; como tu não acreditas, meu caro. Só a (ante)visão é terrífica. Nem por sombras, assim não vale a pena – sabemos. Rimo-nos. Rir exorciza pensamentos néscios. Quanto às decisões. Vamos adiando. Eu sei que vou protelando – o mais que posso? Com pouco convicção e menos firmeza asseverei que não é amanhã que tudo muda. Amanhã, depois de amanhã, depois de depois até ser impronunciável. Não se pode manter assim, não há lógica, não há senso – algum, absolutamente algum. Datas marcadas, círculos num calendário, são impossibilidades. Caramba, percebo que tenho mesmo que te esquecer.
Não me prometo coisa alguma; nunca o fiz; nem a ti, que tanto quis e agora quero esquecer. Quando te esquecerei? Quem sabe – a começar – amanhã...
Cumprimentos, caríssima(o)s.

"It's my direction, it's my proposal, it's so hard, it's leading
me
astray
My obsession, it's my creation, you'll understand, it's not
important
now
All I need is coordination, I can't imagine my destination
My intention, ask my opinion, with no excuse, my feelings still
remain
My feelings still remain"
'Souvenir', Omd
Noutro dia. Lá fora chove. Abuso dos aconchegos na cama, quer-se fofa e apetente; queria que estivesse mais frio, incitando a atolar-me pelas cobertas – mas não está. Hoje prescindi de ouvir música para adormecer, permitindo à chuva que varre estores e janelas impregnar-me com os seus cantos. Todavia, resisto ainda mais um pouco. Com o portátil ao colo escrevo mais umas tolices para publicar no neurose; aliás, faço-o agora, agora mesmo.
Interrogo-me por que esquinas se andará a passear a minha imaginação. Tenho vontade de escrever e não tenho vontade de escrever; em simultâneo, claro; coisa que pode parecer de estranhar, contudo há muito que me habituei a que assim seja. Continuo a dar atenção aos tons da água, ininterrupta vão algumas horas. O que é feito da imaginação? Recordo um post que li noutro blog. Não recordo onde, é pena. Sei que o autor se referia a posts de outros blogs. No seu desenrolar, dizia ele, e isto aproximadamente, que tinha lido noutro que certo autor só conseguia escrever, a seu entender bem, quando dominado por um estado de espírito triste, mais ou menos em melancolia. Sublinhava, aquele que li, não perceber tamanha patacoada. Enfim, que não lhe entrava pela cabeça aquilo que francamente soava a fanfarronice. Desta feita, quem não percebeu fui mesmo eu. Tudo me indicia que, melhor ou pior, a melancolia – semelhantes e afins – propicia, favorece a criação de textos; de um determinado tipo de texto. Há-os aos magotes, variando em consonância com o tal estado de espírito; outra vez, melhores ou piores – nem sempre por determinação do motivo de alma. Não me custa perceber – e até compreender – o sentimento de proximidade entre melancolia e escrita que o segundo – autor – refere. Menciono, mais, que também sinto maior inclinação para o fazer quando imbuído nesse universo melancólico. As gentes são diferentes e há ainda quem não entenda, aceitando, exactamente essa diferença – é pena.
Por seu turno, a chuva insiste. Vai varrendo com melodia tudo o que encontra. Também a chuva consegue ser melancólica, nem por isso me fazendo gostar menos dela, nem por isso me deixando em desalento; inversamente, preenche-me, na sua faceta melancólica, com valências de específicos modos de sentir; e de pensar. Como belo citadino gosto da chuva, porquanto não me caia em cima – gosto de ver e ouvi-la, e só assim se torna mágica; feiticeira que, tocada, dança danças de sonho.
A pensar no sonho acomete-se-me o sono. Está-se no instante de partir para outras terras, essas do sonho, deixando o embalo às águas que em queda se precipitam para outro dia se levantarem. Boa noite.

"Andava eu sozinho a tremer de frio
Fui procurar calor e ternura nos braços de uma mulher
Mas esqueci-me de lhe dar também um pouco de atenção
E a minha solidão não me largou da mão nem um minuto sequer
Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar
Se queres ver o Mundo inteiro à tua altura
Tens de olhar para fora, sem esqueceres que dentro é que é o teu lugar
E se às duas por três vires que perdeste o balanço
Não penses em descanso, está ao teu alcance, tens de o reencontrar"
‘Na Terra dos Sonhos’, Jorge Palma