“Ouvia um troar fervente indescritível que não se encontrava dentro do meu ouvido, mas sim em todo o lado e não tinha nada a ver com sons. Percebi que tinha morrido e renascido inúmeras vezes, só que não me lembrava sobretudo por causa das transições da vida para a morte e de novo para a vida serem tão simples espiritualmente, um acto mágico em vão, como adormecer e tornar a acordar um milhão de vezes, pela absoluta casualidade e profunda ignorância disso."
‘Pela Estrada Fora’, Jack Kerouac
Nem por isso o mundo deixa de ser pequeno; e redondo qb.
Sorrio
Para o ar
Não sei para quem
Só para parecer bem
Um cigarro
Tudo se cala - parece
Tens sido indecente; final presente.
Vais ouvir e...
Quem te disse que deixasses tudo lá dentro?
Azar, pois então.
Mais se multiplique, mais não há. Fede-se a fim. Azar.
"Olha pró que eu faço
+ vale nunca nunca aprender
+ vale nada nunca + querer
+ vale nunca + crescer
Ficas a aprender (Toca a
Aprender)
+ vale nunca nunca + saber
+ vale nada nunca + beber
+ vale nunca + crescer
Agora é a doer
+ vale nunca nunca apetecer
+ vale nada nunca escolher
+ vale nunca + crescer"
'Mais Vale Nunca', GNR
..., eu.
fantástico, o ponto que a idiotice se permite alcançar - e vamos, só!, nos prólogos... adiante, sem proporção de fé.
"pierdes la fe,
cualquier esperanza es vana
y no sé qué creer;
pepepepepero olvídame que nadie te ha llamado
y ya estás otra vez
déjame, que yo no tengo la culpa de verte caer
si yo no tengo la culpa de ver que..."
'Entre dos Tierras', Heroes del Silencio
Nada pode ser tão mau quanto se julga; seria insuportável. [e injusto.]
Daqui a pouco regresso à FCSH, ter mais umas aulitas com uma rapaziada simpática, quer os doutores quer os quase - so, you wanna be a master, hmm?... hard way, it is... beware the dark side, you must.
"I don't care if it hurts
I want to have control
I want a perfect body
I want a perfect soul
I want you to notice when I'm not around
You're so fucking special
I wish I was special
But I'm a creep
I'm a weirdo
What the hell I'm doing here?
I don't belong here
She's running out again
She's running out
She runs runs runs
Whatever makes you happy
Whatever you want
You're so fucking special
I wish I was special"
'Creep', Radiohead
Adorava ser como a Lua: e mentir lá do alto.
"Ring the bells
Ring ring the bells
Wake the town
Everyone is sleeping
Shout at the crowd
Wake them up
This anger’s deeper than sleep
Got to keep awake to what is happening
I can’t see a thing through my ambition,
I no longer feel my God is watching over me
Got to tell the world we’ve all been dreaming
This is not the end, a new beginning
I no longer feel my God is watching over me
Break break the code
Concentrate
Let the doors swing open
See through all your walls
All your floors
Now you’re in deeper than sleep
When you let me fall
Grew my own wings
Now I’m as tall as the sky
When you let me drown
Grew gills and fins
Now I’m as deep as the sea
When you let me die
My spirit’s free
There’s nothing challenging me"
'Ring the Bells', James
Não sei se és um sonho ou realidade, imagem a tal ponto cristalizada que na verdade deves ser um ideal-tipo; feita das coisas das estórias, do doce mais doce, da ternura mais meiga, da beleza que inveja às rainhas; da palavra tonta e atinada, dum saber que só tu sabes, de um mel que nem os deuses tomam. Pessoas assim não existem. Tu não existes. Onde mora a tua faceta má, de má, a tua intolerância descomedida, onde as palavras que não partilhaste, as birras que te apeteciam, a má vontade a rojo, as mentiras que me escondeste? Certo, podes retorquir que eu também; não desminto: tens razão; também eu não existiria, se assim – não – fosse. Se era cansaço, porque não o disseste? Porque não pudeste ser – mais uma vez – honesta? Nada te cobro ou estou a cobrar; é só a insatisfação de um alguém que não percebeu o filme, aborrecido consigo pela incapacidade em decifrar a trama; de burro que é. De ti fica a mentira, o ideal-tipo construído e aprimorado na sequência de um modelo em bruto, como o diamante que aguarda a talha: mas não és tu; não sendo tu. De ti, o estereótipo que é revolto e distorcido da tua imagem de espelho.
O sedentário colhe o fruto, da planta que cuidou, do bicho que tratou; o outro, à deriva por territórios sem dono, preda a sua caça. Ao pretenso conforto de um, o errante percurso de outro, que de tecto conhece apenas o manto de estrelas e a cortina das nuvens. Ficámos sem tecto, que eu deitei a casa abaixo e tu não a quiseste reconstruir. O trabalho que isso implicava, para mais sem presença da vontade. O sentir evapora-se. Sentiste-os evaporar pelo ar?
A imagem que ofereceste, revolta e distorcida, é de personagem desprovido de essência – etérea, volátil, sumida por nunca ter tido corpo, o corpo de alguém. É alma, as almas não coabitam este mundo, ou não as vemos senão dentro de nós. És uma ideia, uma mentira; não és verdade. Canso-me de ti por não existires; por não teres corpo, aquele que clamo. És a mentira que te mantém ainda presente, longe que vai o – nosso – passado. És a mentira com que me vou mentindo, ainda crendo e querendo que um dia se materialize em coisa consumada; real.
As estórias são cruéis; ensinam um para sempre que rara vez o será – se alguma vez o for. Embriagam petizes que em adultos padecerão da ressaca. São, as estórias, monstros dantescos dissimulados numa inocência sem malícia. Não preparam, antes estendem passadeira à armadilha; simulam o fictício como facto, assegurando credulidade a quem não é hábil para discernir. Desenvolve-se, o ser maturado, com o inconsciente impresso de fantasia; daí à alegórica cabeçada na parede é um passo apenas.
O belo puro narra-se tão somente pela fábula. Fabulosas, as fábulas.
Uma estória; como das outras, ninguém existe. Um sopro no pensamento, talvez. O mundo cá fora é assertivo nas suas regras; obriga-se a existir, renega-se (a)o imaginário. Agora é a doer.

“De cima, em pé, a encarar-me, minúsculo, no banco, disseste-me que tudo estava acabado, já não gostavas de mim, tudo estava acabado.”
‘Para Averiguar do seu Grau de Pureza’, Jacinto Lucas Pires
Furioso, que a memória não quer esquecer.

©
O Amor é uma Instituição Total.
"First, all aspects of life are conducted in the same place and under the same single authority. (...) Finally, the various enforced activities are brought together into a single rational plan purportedly designed to fullfill the official aims of the [total] institution."
'Asylums', Erving Goffman

Existe-se – ou vai-se existindo? – num mundo que não se quer. Não era esta a imagem do real que se tinha presente quando, em tempos idos, este era, em moldes de projecção, imaginado. Anda-se perdido, a viver uma vida que não a própria, que de todo é desconhecida, estranha, insípida. Alguém cometeu um erro, um erro dos grandes – efectivamente, mais provável é que o tenha cometido quem agora se lamenta.
Este mundo tresanda a bafio, a cansaço e desilusão. Algum condutor se enganou, dobrando para uma transversal quando deveria ter mantido a direcção em sentido recto. Nem a estória nem a história irão ser contadas como se ansiava, como exigia o desejo e a vontade. Neste mundo ocorreu a cisão por umas quantas – tantas – vezes temida, com estonteante pavor. Não mais haverá um universo de partilha; espaços e momentos que se viam comungar desintegraram-se num alvitre que não propõe posteridades.
A noite, de que tanto se gostava, animando as ilusões, tornou-se num limbo que revive memórias mortas, murchas, infecundas; as recordações tornam-se tipologicamente um peso morto que não mata mas moi. O passado assoma, evocando-se, ao presente. Olhar pela janela, observando o escuro de uma urbe, a Lua, as estrelas, cessou enquanto prazer. Resta um rosto demasiado cansado para a idade, reflectido pelo vidro; um rosto irreconhecível, não o mesmo que se mostra durante o dia. O fumo dos cigarros fumados desenha pelo ar fantasmas voláteis, de uma efemeridade extraordinária, enformando com essa sua névoa – fantasmagórica – as promessas que outrora foram, bem como aquelas que nunca irão ser: tempos que se extinguem já que, por decisão alheia, foram extintos. A música que faz acompanhar estes momentos, até os dos cigarros à janela, confessa-se lúgubre em sintonia com a disposição – há coisas que não se ouvem, evitam-se por poderem deturpar um estado de espírito que não se pretende mas que, vontade masoquista, se toma como necessário (bem vindo?). O ruído dos carros, um pouco ao longe, complementa e completa a atmosfera de fundo; a ir e vir, destinos desconhecidos. Deita-se uma outra espreitadela em busca da Lua; demasiado avançada que vai a noite, o cansaço derrota o físico.
Porque o ritmo biológico assim o obriga, recolhe-se para repouso (quem o levantaria amanhã?). Na mesa de cabeceira, entre um despertador e um candeeiro ainda ligado – se bem que quase sempre entre mil tralhas –, o copo com água do costume; hábitos, ritos de que não se abdica. Um golo, dois golos e o horrível paladar deixado pelo tabaco é desanuviado, gasta-se gradualmente até inexistir – a luz, entretanto, apagada.
Os olhos cerrados, a cabeça no lençol que não se usa almofada, e dá-se corda à fantasia. Outras realidades, outros mundos são criados sem limites que os balizem. Não aquele por que se clama, a esse nem se ousa recorrer sequer à guisa do imaginário. Esse é cadáver, o seu sepulcro merece o respeito das coisas que foram: ficar onde pertence, com a alma entregue ao Criador. Nos outros – imaginados – deixa-se perder a mente, perder-se até que o sono, bichinho bonito e sorrateiro, tudo encubra com a sua meiga e delicada manta de – quase – inconsciência.
Cumprimentos, caríssimos.
;)

©
"O nosso amor não vai parar de rolar
De fugir e seguir como um rio
Como uma pedra que divide um rio
Me diga coisas bonitas
O nosso amor não vai olhar para trás
Desencantar, nem ser tema de livro
A vida inteira eu quis um verso simples
P'ra transformar o que eu digo
Rimas fáceis, calafrios
Furo o dedo, faz um pacto comigo
Num segundo teu no meu furo
Por um segundo mais feliz"
'Mais Feliz', Adriana Calcanhotto
Porque depois de amanhã virá outro amanhã.

©
"If I could reach through
Catch you
Make you understand
If I'm not dead enough for life
Am I alive enough for death?"
'Dead Enough For Life', Icon of Coil
A paciência é tida por muitos como um conceito que emana virtude. Posso até, embora com determinadas reservas, concordar ou, mais honestamente, ser complacente com essa proposição. Não sou, todavia, grande apologista dos seus termos. Lacuna minha, por ímpeto ou pragmatismo, não sei. Concretamente nas situações ou fenómenos que exigem uma peculiar capacidade na manipulação com o tempo. Invariavelmente, nunca me relacionei bem com o tempo: se em termos genéricos de gestão sou medíocre, em gestão do tempo sou pior que ruim.
De facto, não vejo qualquer vantagem em protelar quando, devido a contornos que se assumem, é possível começar a usufruir (quase) desde logo. Acontece que se deve julgar que há cerimoniais a serem cumpridos, de entre estes (praticamente inúteis) prolongamentos no tempo. É questão que me ultrapassa. Se coisas há que me aborrecem, uma será indubitavelmente o ter que esperar – pior, quando para tal não existam motivos, diga-se, explicáveis pela razão. Provavelmente, talvez considere que esperei vezes demais, bastantes sem resultados que fossem de todo benéficos; claro, outras circunstâncias, não raras, são indiscutivelmente gratificantes – e quanto! Aplica-se, aqui e só aqui, a velha máxima do «vês que valeu a pena esperar?», mesmo que tivesse ocorrido a hipótese de encurtar, até drasticamente, o período de espera.
Por motivos de entretantos e implícitos, joga-se com o tempo quando na realidade é este quem parodia connosco; bom, trata-se obviamente de um ponto de vista bem particular, de uma idiossincrasia própria à minha pessoa: já referi que não me relaciono lá muito positivamente com o tempo? Pode ser uma virtude saber esperar, contudo é displicente desperdiçar aquilo que não volta atrás – enfim, que não recua, sendo inclusivamente irrepetível. Não sustento o paradigma que se afirma na praxis de viver como se tratasse do último dia. Como não sustento que se ofereça tempo ao tempo que, repito-o à imagem de outros posts, o tem todo. O dar tempo ao tempo que ele tudo resolve é asserção que comigo não condiz; não negando que, por maioria de razão, é o que acontece face a um considerável número de circunstâncias. Dar tempo ao tempo é um método homeopático, muitas das vezes doloroso e desgastante. Subscrevo um método holista de sanar uma sintomatologia, aplicando-se ao todo de uma situação verificada uma prescrição, ainda que igualmente penosa, ágil e célere no efeito de mediar as disfunções. O mais aborrecido é quando nenhuma das duas tem aplicabilidade concreta, especialmente aquela que corroboro e que será muito menos vezes passível de ser colocada em prática.
Saber esperar, lidar com esta dimensão da paciência, mais do que virtude é uma imposição a assemelhar-se a um quebra-cabeças que não se consegue solucionar – e se eu odeio este tipo de brincadeiras em estilo de cifra.
A paciência como virtude... A paciência é algo que mormente se me esgota com facilidade sempre que, a ela, seja o tempo chamado a tomar parte. Outras dimensões da paciência existem que integram em si as maiores das pertinências, que sem custo abraço. As que colocam gestão temporal em cena são-me absolutamente ingratas, confessam as minhas estatísticas que apontam os factos correlacionando números. A obrigação em ter que lidar com a espera é agravada por quanto quase sempre é imposta pelo exterior – não havendo necessidade de mencionar que existem igualmente abundantes excepções –, subtraindo-se à vontade interior do próprio sujeito em acção... infelizmente.
Termina-se por aqui: tanta conversa de convénio para uma síntese que se revela breve – parece-me que sou um tanto ou quanto impaciente. Temos vulnerabilidades, umas das minhas são, incontornavelmente, as impaciências – coisa que vou verificando pelo quotidiano.
..., arrepiada em melancolias, mas começa hoje a Primavera.
Enfim, reafirma-se o ciclo da vida - mesmo que com inícios gastos.
"You're sure, there's a cure
and you have finally found it
You think, one drink
will shrink you to your underground
and living down"
'It's not going to stop', Aimee Mann
E o piolho sorri para a nova estação.

©
..., hoje. Ou assim publicitam.
Todavia, o que e quem seria eu sem ele?
;)
Sempre.
"Oh, why you look so sad?
Tears are in you eyes
come on and come to me now
Don't be ashamed to cry
Let me see you through
'Cause I've seen the dark side too
When the night falls on you
You don't know what to do
Nothing you confess
Could make me love you less"
'I'll Stand By You', The Pretenders

©
Aprendi que sou melhor que tu; e que tu és melhor que eu.
A birra é grande.
#od§-#e, desta é que acho que - ele - ganhou - de vez.

©
"Change your heart, look around you
Change your heart, it will astound you
I need your loving like the sunshine
And everybody's gotta learn sometime
Everybody's gotta learn sometime
Everybody's gotta learn sometime
Change your heart, look around you
Change your heart, it will astound you
I need your loving like the sunshine
And everybody's gotta learn sometime
Everybody's gotta learn sometime
Everybody's gotta learn sometime
Everybody's gotta learn sometime
Everybody's gotta learn sometime
Everybody's gotta learn sometime"
'Everybody's gotta learn sometime', The Korgis
[maybe - who knows? - the farewell-goodbye song; kisses, as much as you wish]
... chorar por uma pessoa. Não vou fazê-lo. Nem gostavas.
Meu caro Luís, sei que têm escasseado os post kilométricos. Deixa lá: a culpa é mesmo minha; e das pedras da calçada que não mais me respondem.
Um abraço, pequeno.
..., mas continuo a pensar que nos faria bem falarmos (falarmo-nos?); já sei: um dia destes.
Ou será que não sabes, que me esqueci de to dizer?
One man betrayed with a kiss.
['Pride (in the Name of Love)', U2]

©
Há que ser realista; vou-me trocar para a realidade virtual.
Se as fórmulas estão gastas inventem-se novas.
Sei que é tarde, mas acho que por um destes dias temos que conversar.
Jinhos.
Querendo uma coisa ter-se-á, forçosamente, que abandonar outra. Mais, não se podendo olhar a custos.
"Fazer aceitar alguma coisa pela coacção é confessar que não se reconhece o outro como igual."
Marie-France Hirigoyen, 'Assédio, Coacção e Violência no Quotidiano'
Há tantos; nem sei em quantos e quais caio.
"Prometo não falar de amor
De gostar e sentir
Portanto não vou rimar
Com dor ou mentir
Joga-se pelo prazer de jogar
E até perder
Invadem-se espaços
Trocam-se beijos, sem escolher
Homens temporariamente sós
Ai que cabeças no ar
Não interessam retratos
De solidão interior
Não há qualquer tragédia
Mas o vinho a beber
Partidas, regresso, conquista
E fazer
Tudo anotado numa memória
Que quer esquecer
Homens sempre, sempre sós
Preferem perder
Homens temporariamente sós
Ai que cabeças no ar
Homens sempre, sempre sós
Bolas de ténis no ar
Muito batidos saltam
Acabam por enganar
Homens temporariamente sós
Ai que cabeças no ar
Homens sempre sós
Nunca conseguem casar"
'Homens Temporariamente Sós', GNR
Acordei com dor de cabeça. Uma aspirina e a alma acalma. O resto da noite está garantido.
Ao sujeito passivo apenas o interlúdio do que podia ter sido.
Mingua-se, assim, o seu dote.

©
Fingiu olhar para o lado, pela janela; na verdade, tentava ler-lhe a expressão. O que passaria naquela mioleira desmiolada, nos neurónios da jovem que o intimidava ao ponto de o fazer evitar contactos olhos nos olhos? Nem mesmo ela saberia, era o julgamento que ele, para si, ditava. Conservava-se mormente calado, desejando um rápido chegar ao destino. As palavras que lhe saíam eram desconexas, mas ainda assim suficientes para disfarçar uma calma que não lhe assentava: acontecia ela rir, responder-lhe com o à vontade que lhe faltava, a ele, e o desconcertante ruído do silêncio quebrava-se por momentos; por momentos, logo tomava lugar, novamente, a estridente mudez que definia a inexistência de conversa ou palavras. Tentava ler-lhe a expressão, porém a ambivalência das suas interpretações conduziam-no de volta à mesmíssima ignorância: todas as tentativas eram fúteis, como se, na realidade, estivesse incapaz de decifrar qualquer mensagem. No seu íntimo, mudou de assunto; outras coisas o deixavam além da realidade – debatia-se em conflito interno, seguro porém de que a sua postura corporal não o trairia, por tão bem treinada que havia sido: em aparência, respirava normalidade e calma dignas de uma representação angélica enformada pelas mãos de um Miguel Ângelo.
À voz dela, respondia mecanicamente; contudo, firme e resolvido, com cabimento e tino, obtendo sensorialmente uma perfeita cisão entre aquele real ali e o conflito interno ao qual não tinha deposto armas. Mais, pelo pouco que diziam era fácil acompanhá-la como, em simultâneo, oferecer-se às divagações mais endógenas de si. A sua arrogância precedia-o, contava com ela e com o seu resultante: estar-se assim, dialecticamente, é fácil; demasiado fácil para mim; quanto e quantas vezes operei a níveis de dificuldade largamente superiores? – bem poderia ser dele esta asserção, uma imagem fidedigna, um instantâneo reificante da estrutura mental em que se considera.
Gostava que fosse dia, que pudesse colocar os óculos escuros e esconder dos outros o que os olhos dizem sem a sua permissão. Porém, também a noite tolda a visão – e o discernimento, em parte. E assim julgava não se apresentar desnudado perante um inimigo imaginário capaz de troçar das emoções transferidas por um olhar que atraiçoa, aconchegado pela manta escura que encobre o brilho dos olhos que, por isso, passam a comunicar difusamente. Permite-se sublinhar a sua prepotência, brincando à apanhada consigo próprio: seriam os outros pouco mais que marionetas, trabalhadas por um resto do mundo que lhe é exterior? Não, o excesso de confiança funciona-lhe como arte de defesa – ainda que sim, que seja arrogante (talvez por disso ter necessidade, mais do que por uma valência de destrinça de potencial superioridade).
Decide-se por um armistício para consigo. Por ora, por conveniência. Gira o corpo e vota-lhe, a ela, novo olhar. Com a intenção do costume, perscruta-lhe o rosto. A expectativa era a de, rebuscando, encontrar sinais que saciassem a sua vontade de saber: de saber o que pensa, o que pretende de facto aquela jovem. Nem eu sei o que pretendo – teria pensado, de si para si, silenciando como hábito o que de seu poderia manifestar-se significativo. Domesticado como os restantes, precavia-se como bicho selvagem e disso fazendo bandeira. Continua sem conclusões, ou sem as querer executar; outro olhar que resulta num vazio doutros conhecimentos. Olhando-a, nada percebe, nada vai percebendo, nada quer perceber – não almeja perceber-se.
Atreve permitir-se sentir. A astenia, no entanto, usurpa a vontade do seu corpo, envolve as sinapses na apatia de um existencial vão. Dir-se-ia comatoso, coisa que o pestanejar involuntário infirmava. Estático, via agora paisagens pela outra janela – pela sua. Pouco interesse manifestava se o mundo iria desabar ou prolongar-se pela sua comum existência, mas sabia que inevitavelmente regressaria dessa letargia: conhecia-a, sabia-a passageira, momentos que de tempos a tempos se impunham fossem ou não contrários ao seu querer. Funciona como anestésico, dormência mais ou menos prolongada que todavia permanece com acção durável limitada, acontecimento passageiro.
Repara que desenha objectos imaginários no ar, com o indicador, voláteis e fugazes, sem forma nem ritmo. Sorri. Percebe que ela conduz, insistindo às voltas num alcatrão negro. Balbucia qualquer coisa, ela grunhe por cima. A história é sempre a mesma, entendendo-se que ninguém se entende – finge-se eternamente que sim, que se compreende o outro quando o certo é sermos os indeléveis outsiders fora de nós próprios; contudo, a cena é o que merece importância, o teatro operado no faz de conta. Revelando impaciência, é ela quem acende o primeiro cigarro: falsa companhia que nos ocupa pelos curtos minutos que dura. Não deixa de ser um interessante subterfúgio, e, mais ainda, de eficácia comprovada – por aqueles minutos, poucos, que dura garante-se companhia, afirma-se ter companheiro que nos percebe pois mais não acaba por ser que uma extensão do ego daquele que o usa. O fumo que expelia pela boca substituía, de bom grado, as palavras que faltavam; de uma maneira especial, também as palavras assumem contornos e formas. É a vez dele puxar por um cigarro, atrasando apesar disso a mão do isqueiro. Especado, imóvel, instalado entre lábios, comportava-se o cigarro como aquele a quem poderia chamar dono, também ele aguardando sentir – a chama, essa, demorava-se; um deleite, uma consagração ao vazio que ora aqui, ora ali nos habita a título de invasão.
Compondo-se taciturno, emboca pelos trilhos das praxis tidas como comummente aceites. Substitui o diafragma da vista pelo seu outro, por aquele que lhe mostra a existência como possivelmente semelhante àquela de todos os demais. O real... belo palavrão. Contenta-se, agora, com a coexistência entre bichos da mesma espécie. Há pouco abandonavam o carro, juntos ainda que sozinhos, e já se permeiam por dezenas de corpos, ávidos sabe-se lá de quê. Que buscariam eles, esses tantos? Ultrapassados pelas possibilidades, resta imaginar; atenho-me a isso, não tem lugar na narrativa. Só aqueles dois, só as suas duas realidades consubstanciadas pelas suas verdades próprias. E é já muito. Esgueiram-se pela multidão. Por sorte, a infernália do som incapacita a comunicação verbal, ou a sua constância. Por sorte, sentencia ele; por sorte, considera, convicta, ela. Rum cola, escolha habitual que deixa ser quase infalível acertar quanto à pergunta que questiona o que ele vai beber; só um, não pretende que o álcool distorça o seu julgamento – deve ser o tão consagrado, pelos ditos populares ou mais académicos, beber socialmente: existirá de facto? Um licor de whiskey e três pedras dão o toque feminino consolidados pelo seu género; é o que ela grita, porque assim tem de ser, a um alguém que por ali trabalha. Irão ser dois (ou três?), a condução que a espera obriga à prudência; pois, pela condução ou pela polícia?
Juntos, ainda que sós, deixam que o ritmo lhes perpasse os corpos predispostos a uma embriaguez ditada por notas musicais e vocais a durar enquanto durarem as suas disposições; depois não fica ressaca, o organismo não se queixa nem se culpa – talvez o aparelho auditivo – e a embriaguez cessa numa estocada célere.
O que trocaram em sussurros estridentes foi escasso e abafado, quer pelas suas próprias gargalhadas, tão honestas quanto espontâneas, quer pelo volume da música sistematicamente análoga em constituição e estrutura que nem por isso lhes desperta – norma – particular simpatia. Trocaram espécies de conversas simples, coisas tontas mas simpáticas, gracejos em conformidade com o espaço, brincadeiras de criança ensaiadas por gente adulta. Esqueceram-se. Esqueceram-se de si, partilhando uma felicidade dopada na qual alcançaram sintonia; dopada, nem assim menos verdadeira; nem assim de importância menor.
Poucas vezes se dedicou ele a análises que sistematicamente, como se interiorizadas em si e emparelhando com o seu ser, o acompanham no quotidiano. Terá, inevitável, perpassado com os olhos todo o espaço circundante, bem como os que o ocupavam; todavia, quem não o fará nem que seja por ordenança da curiosidade? Deteve-se, igualmente, de forma cuidada a evitar impertinências, na apreciação da sua companheira da ocasião. Puramente analítica, sublinhe-se, não revogando, porém, alguma carga erótica que naturalmente ombreia com o restante por muito substancial que este seja. Muito antes de ter lido e relido a História da Sexualidade de Foucault que já prestava atenção ao cuidado do corpo, àquilo que extrapolaria para o cuidado de si, e às maneiras como este se evidencia na prática. Para quê negar o erotismo, sendo ele uma das presenças mais sólidas na e durante a existência humana? Contudo, não era só o erotismo, a imagem do corpo e suas expressões, que determinavam as suas atenções, dirigidas com concomitante atenção para ela, ao menos pelo tempo que durou.
Os olhos. O sorriso. O desenho dos lábios. Preponderante a tudo o resto, foi nestes eixos que dedicou a sua atenção enquanto, cuidadosa e paulatinamente, a olhava. Voltamos à questão do erotismo: com erotismo? Talvez, mas distante e emanente. Desenhava os seus lábios em ideias, na mente. Apreciava o seu olhar vivo, ainda que deixando escapulir um quê de naíf e singelo, afastando-se porém, em qualquer medida, ideias de inocência tal qual é mormente entendida. Desengonçava-se com o seu sorriso, mais quando explodia num rir aparentemente descabido. Sem que fosse a oitava maravilha do mundo, tornava-se por aqueles instantes, a seus olhos, em algo semelhante; sendo bonita, não arrasava corações ao primeiro esgar dos olhos; sendo bonita, era-o mais ainda. Sabia ser graciosa e simultaneamente dinâmica quando se vergava aos convites endossados pelo som imposto. Compunha um todo composto, um todo a que adicionando o restante que mais valor tem do seu ser merecia a felicidade; ou ser feliz, ir sendo, que os estados não são permanentes. Conquistou-o e apoderou-se dele toda a ternura do mundo. De maneira diferente, em medidas que não podem nem devem ser aferidas, também ele, no vácuo da sua indiferença, era alguém feliz.
Em despedida, prendou-a, sem que a percepção a tivesse permitido compreender, com dois beijos, um em cada face, prometendo-lhe que havia de ser feliz, que havia a pulso e por si só ganho o direito a reclamar o melhor. Posto isto, insurgiram-se-lhe, regressando, as divagações pelo tormento. Impôs-se-lhes: por hoje esqueceu-se disso, embrulhando-as num canto submerso pelo insignificante.
É o mês em que começa a Primavera. É uma estação que promete.
Que venham as andorinhas, a minha promessa é que contrato quem saiba ler o seu voo.