Quarta-feira retomo as aulinhas. Por acaso, até já estava desejoso de recomeçar a segunda parte curricular do mestrado. Da primeira não ficam grandes memórias: em princípio duas cadeiras, em três, completadas – ou, melhor dizendo, encaminhadas; o que me obriga a esforço adicional: este semestre são quatro, de modo a obter os créditos imperiosamente necessários para dar o pulo até à fase seguinte (de resto, garantidamente a mais interessante).
Posto este momento de gáudio – já que me estou borrifando para as «aventuras» dos óscares –, retomo a inversatibilidade das estórias que são a história deste espaço virtual.
Outra vez quarta-feira; quis o destino (?) que outro acontecimento viesse a ter lugar nesse dia; porém, provando que o destino a mim não me convence, penso que optarei por protelar esse mesmo acontecimento que, leve levemente, mencionei – contudo, não por muito tempo. Coisas aborrecidas que me aborrecem, carecendo, todavia, de claro e durável esclarecimento; ai, este indelével adiamento de (re)soluções...
Tenho ideia de ter sempre um discurso preparado, mas acabo inevitavelmente por abdicar dele quase à última da hora. Como se diz, fica o terreno deixado ao improvisar; muitas foram as vezes que me safou, menos, com toda a certeza, que aquelas em que me deixou escaldado – pese embora a tendência seja para relembrar as últimas (talvez porque deteste perder...). Não passa por aqui qualquer motivo – motivo de circunstância – referente ao preparo ou impreparo que tenha condicionado a alteração da data. Contudo, brincando com o paradoxo, sinto-me abominavelmente impreparado. Abominavelmente impreparado, ainda que não ao nível do discurso – ou da forma. Impreparado, sim, mas quanto a outros factores: digamos, mais substanciais, de conteúdo – a fórmula para encarar o resultante é exígua e pouco aprumada. Enfim, as consequências – ou as suas possibilidades – infirmam um quê da minha coragem que mais não é do que retórica «fajuta». O futuro ao homem pertence; e a audácia sempre se me recusou como companheira.
Vale o facto do herói ser imortal. Ou melhor, o Herói. Sucedem-se, numa lógica que só assim aufere consistência e sentido ao conceito. A um, outro; após este, o ainda – ainda outro, e outro, e outro. Nas sequelas do(s) acto(s) heróico(s) não existe a obrigação do sujeito ser sempre, como inevitabilidade, o mesmo. Novas histórias conquistam a disposição e despertam os sentidos ao público, público ávido de um alter com o qual se (ousa) identificar. Nenhuma guerra está ganha, como nenhuma está definitivamente perdida. Importa a permanência, o retorno do e ao ideal que pelos tempos é formatado em coerência com as consciências (diria históricas, mas pareceria demasiado marxista).
Sublinha-se, então, um tal porvir, encabeçando as expectativas que se perseguem até se consumarem por si – como objectivo alcançado e usufruível – ou pelo desinteresse. E lá vou desconfiando que tenho maus fígados: passo a discorrer sobre possíveis futuros sem antes desenredar as meadas do aqui e agora presente – deve ser vício, vício pouco saudável ao qual me vou evitando precaver.
Cantavam os Heróis do Mar que dos fracos não reza a história; pois sim, dos que reza... bom, basta-me estar ciente da sua inexistência pelo mundo dos vivos em quase cem por cento da sua totalidade. Prefiro urdir a minha – biografia –, ainda que pouco afoita e de escasso interesse. Todavia, não vou esmiuçar a questão.
Joga-se com as cartas que se têm em mão, não relevando o como nos vieram calhar nem quais: é e é o que se pode, demitindo-se quaisquer responsabilidades supostamente ponderáveis e, inclusivamente, plausíveis e sustentáveis. Agora, até com uma mão medíocre, conseguem-se distinguir os bons dos maus jogadores. A arte do saber pode, e muito, fazer desfilar um happy endind nas mais estreitas avenidas. Isso sim, importa.
“Quando um indivíduo surge na presença de outros, pretende descobrir os factos que definem a situação em que se encontra. Se possuir essa informação, poderá saber, e levar em conta, o que vai acontecer a seguir e dar aos outros presentes o que lhes é devido, de acordo com uma versão bem interpretada dos seus próprios interesses.”
Erving Goffman, ‘A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias’
Quem disse que não se ama para sempre?
"O nosso amor de sempre
Brilhará, p'ra sempre
Ai, meu amor
O que eu já chorei por ti
Mas sempre
P'ra sempre
Vou gostar de ti
Juro, meu amor que sempre
Voltarei, p'ra sempre
Ai, meu amor
O que eu já chorei por ti
Mas sempre
P'ra sempre
Gostarei de ti
Ai, meu amor
O que eu já chorei por ti
Mas sempre
P'ra sempre
Vou gostar de ti!"
'Para Sempre', Xutos & Pontapés
Tenho que trocar de ninfa. A imaginação esgotou-se.

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Life is more than an ordinary song.

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"Wake up, wake up dead man
Wake up, wake up dead man
Listen to your words they'll tell you what to do
Listen over the rhythm that's confusing you
Listen to the reed in the saxophone
Listen over the hum of the radio
Listen over sounds of blades in rotation
Listen through the traffic and circulation
Listen as hope and peace try to rhyme
Listen over marching bands playing out of time
Wake up, wake up dead man
Wake up, wake up dead man"
'Wake up Dead Man', U2
Diz-se que a uma porta que se fecha uma nova há que se abre; de novo, em frente desta, outra firmemente cerrada.
As únicas palavras que dirigirei acerca deste último sufrágio, tendo uma aplicabilidade genérica e independente de forças políticas em particular. Assim, e ancorando-me nesta breve sentença de Michel Maffesoli, aqui ficam:
"Não há nada pior do que aqueles que querem fazer o bem, em particular o bem para os outros. E o mesmo se aplica àqueles que «pensam o bem». Eles têm a irresistível tendência para pensar para e no lugar dos outros. Encapotados pelas suas certezas, a dúvida não os aflora. Desde logo, a vida, na sua complexidade, escapa-lhes. Em si a coisa tem pouca importância, a não ser que tendo-se erigido como detentores legítimos da palavra, esses provedores de lições decretem o que «deve ser» a sociedade ou o indivíduo."
Michel Maffesoli, 'Entre o Bem e o Mal'
"Não tenho a menor dúvida de que no âmbito do que se chama 'atracção dos sexos' se constitui o primeiro factum, ou se quisermos, a pré-configuração do amor."
De onde resultam, creio, uma boa porção de manias.
Arremata-se com a justificação:
"O outro é «o meu amor», com tanta mais razão quanto é «a minha representação»".
Em aspas: Georg Simmel, 'Fragmento Sobre o Amor e Outros Textos'

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"O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba malfeita"
'O Meu Amor', Chico Buarque
um pequeno fim-de-semana, e ir a correr comprar uma entrada para U2!
Finalmente, iupi!!!

"Lights go down, it's dark
The jungle is your head
Can't rule your heart
A feeling is so much stronger than
A thought
Your eyes are wide
And though your soul
It can't be bought
Your mind can wander"
'Vertigo', U2
Assim, não receio dizer-te que tenho saudades tuas. Oh moça, se tenho saudades: minhas...

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"I guess it was meant to be today
Our lives divided in separated ways
It wasn't you, it wasn't me
It was the destiny we choose
Somewhere in time"
'Timerunner', State of the Union
Gostar e continuar a hipotecar um - meu - futuro, só por ti.

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"Life is no more assuring than
love
(it's time to take the time)
There are no answers from
voices above
(it's time to take the time)
You're fighting the the weight of
the world
And no one can save you this
time
Close your eyes
You can find all you need in
your mind
I close my eyes
And feel the water rise around
me
Drown the beat of time
Let my senses fall away
I can see much clearer now,
I'm blind
Find all you need in your mind
If you take the time"
'Take the Time', Dream Theater
Há muito que te imputam a responsabilidade, tentando-me fazer crer numa que não te cabe carregar em ombros. É mentira, obviamente.
A responsabilidade deve-se e tem de ser assumida por quem - ainda - não resolveu - os seus - conflitos pretéritos. Não se tratando de culpa minha - nem tua -, trata-se indeflectidamente de responsabilidade própria e única: minha.
Ao menos, o meu Sporting venceu.

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"Não há dúvidas de que o efeito amoroso desloca e falsifica inúmeras vezes a imagem objectivamente reconhecível do seu objecto [...]"
Georg Simmel, 'Fragmentos sobre o Amor e Outros Textos'
Ânimo de tropa; forçado, mas - enfim... - eficaz.

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"D'outra vez, noutro lugar
Ninguém espera junto ao cais
Sem razão, barcos que não voltam mais
Os dias vão sem te levar..."
'Noutro Lugar', Sétima Legião
Ela é que sabe:
"Foste descartado".
Bem, vá lá que também assegura que não é hoje que a neura vence.
:P
"Stuck together with God's glue" ['Staring at the Sun', U2]
Deus já não é o que era.
Por entre nuvens escassas e pouco espessas o Sol vai mostrando ares da sua graça; ainda tímido, ainda que tímido.
Sentado numa esplanada, pede-se mais um café. A ressaca do Carnaval já passou, curada e esvaziada. Contudo, um sono bucólico imprime a necessidade de mais outro shot de cafeína. Há que abrir a pestana, estar atento, aproveitar enquanto o tal Sol não se esconde provocando uma nova era de cinzento. Três golos e a chávena está vazia, estragando-se o paladar do café com um cigarro que queima ao contacto da chama. Não se pensa em nada, deixa-se o fumo sair à medida que os olhos se centram no arvoredo que resistiu a um campo de golfe implantado nuns montes: está-se, simplesmente está-se e é bom; sem pressas, sem concentrar o raciocínio no que seja.
Decidi que hoje o dia vai ser óptimo, variado e à revelia das rotinas que se têm feito. Ou então, afinal, não exijo nada do que é soberbo, sim que seja apenas diferente: um nada de especial confecionado com um tudo de alternância. Hoje o episódio conta-se a raios de luz.
Na tranquilidade e sereno, começo a deixar a massa encefálica trabalhar. O dia continua agradável; é deixá-lo estar e ir com ele. Acendo mais um cigarro, concluo que o post tem de terminar. Volto a olhar as árvores, esgoto as ideias; e o Sol brilha.
Estou bem disposto.
Não te telefono – não te alimento o ego, insaciável.
"If you twist and turn away
If you tear yourself in two again
If I could, yes I would
If I could, I would
Let it go
Surrender
Dislocate
(...)
If I could through myself
Set your spirit free
I'd lead your heart away
See you break, break away
Into the light
And to the day
To let it go
And so to fade away
To let it go
And so fade away"
'Bad', U2
Por obra de sugestão, faz-me sentido que tivesse sido ontem; óbvio, não foi. Acontece demasiado depressa, demasiado furiosamente – desorientas-me a ordenação do tempo: porquê, pá?
A título de tretas com significados específicos e redutíveis àquele momento, vais vivendo em mim. Já não te conheço, porém. A pessoa não é a mesma, nem pela apresentação nem pelos vínculos de personalidade. Acabou, alterou-se, mudou. Cresce-se, sem que signifique ser-se mais e melhor: e se duvido disso... Permanece tão somente o pendular, uma imagem construída, projecção do ego em ti: quem és? Nem verdade, nem mentira – uma apólice de seguro a suster o equilíbrio deveras inconstante, que ameaça desmoronamento.
És imaginação desenhada a lápis, retirada do modelo real; a lápis, sempre pronta à cirúrgica reparação, verificação, autenticação, optimização de traços – dos teus traços. A lápis, porquanto no extremo existe a possibilidade de completa remoção – sem dano, mas não indolor – da figura. Isso não se faz: não te vou apagar – não me posso apagar. Alinho, vou alinhando vértices moldando-os à satisfação do meu desejo. Sei que és tu, sem que nunca mais o sejas; não és essência, és produto – resultado e resultante de processos, processos que não sei definir mesmo que advindo obrigatoriamente do meu íntimo. Contudo, o molde... ficarás sempre, enquanto o perene for perene, o molde de tudo o que vou querer – não te querendo?
O amanhã nunca chega; como poderia, alguma vez, chegar? Não chega, não chegará – vinda adiada pela sua eterna repetição. Sinto-me gratificado por isso. Hoje tenho-te a ti não te tendo: percebe, é exactamente o que quero – o que me faz falta. Hoje tenho-me a mim, à tua representação, a de quem irá fazer a tua vez; não, não te substituindo: ocupando, isso sim, o lugar que dentro da minha hierarquia açambarcaste para ti – diz-se fazer as vezes de. Quiçá, todos insubstituíveis, pois que todos diferentes; diferença patente na pequenice mais importante, a dos momentos... dos momentos e das suas – respectivas – gentes.
Hoje sonho contigo, ser irreal e imaginário (imaginado?), espelhada imagem da distorção que te provoquei.
"This time we'll fight back
This time we'll know
Implant hysteria
Who really knows?
This time we'll kick back
This time we'll see
A bullet right between the eyes
Takes down the enemy
No use in hiding
No use to run
Finger on the switch
Blinded by the sun
Lock down
Shut down
Hang on
Condemned for life"
'Condemned for life', Front Line Assembly
Estou rodeado de espectros. Para onde quer que me vire, dirijo inapelavelmente palavras às pessoas que o foram e não àquelas que são no momento presente. São diálogos cansativos, gastos e absurdos. Não têm sentido.
Rodopia-se por entre acontecimentos de dislexia: claro, insistindo em não querer viver o facto presente. Não acontece sempre, talvez mesmo só em sonhos. Permitir desconexões perante o real é uma coisa; criar um hiato para com ele, outra distinta – pouco saudável, pouco consequente: daí a estratégia ser outra, gerir o fenómeno pelos parâmetros considerados mais próximos do vulgo normal.
Em verdade, é mais simples ficar-se pelo normal – se estiver disposto a abdicar de parcelas que foram e me são, ainda, gratas. A lógica maniqueísta do presente impõe-se tautologicamente, quase nada sendo preciso fazer para se ir fazendo. Complexo é encadear coisas, querer-lhes dar ordem e sentido, lugar e continuidade (continuidade... sim, mesmo que na inversão, na descontinuidade). Montar a nossa história sem lhe retirar coerência, obrigando-a a ser mais que um perpassar de sucessivos acontecimentos passíveis de serem contados à margem do respectivo enquadramento cénico – como se conta, vez após vez, a História com h grande.
A teimosia desta meta-realidade espectral tem como fórmula coexistir com a outra, com a dos factos palpáveis porquanto comprováveis: a comummente aceite (não como real, como o real: a realidade). A prova inefável de que coexistem passa pela aceitação disso mesmo, que coexistem verdadeiramente, ie, vão coexistindo. E que fácil é essa percepção, encaro-a – a essa coexistência – indiscriminadamente por aí: o truque é só, tão só, não lhe afectar relevância – se queres estar, está; não te ligo, sei-vos distinguir, sei-vos tratar separadamente.
São quase de um irreal demente – sem demência(?) –, interacções com réplica, ou seja, o simultâneo viver-se com o que é e com a representação do que mentalmente se constrói como o deveria ser; espécie de esquizofrenia, talvez, em que um é o próprio e o seu alter – por comando da nossa vontade. Interacções em que conversamos de alto com uns e de baixo com os mesmíssimos uns – alters – que mais não são que espectros na realidade, bamboleantes e bamboleando ao ritmo do som que se toca no íntimo.
Fim de divagação.
“Ellas danzan con los desaparecidos
Ellas danzan con los muertos
Ellas danzan con amores invisibles
Ellas danzan con silenciosa angustia
Danzan con sus padres
Danzan con sus hijos
Danzan con sus esposos
Ellas danzan solas
Danzan solas”
‘They Dance Alone’, Sting
Um dia disseram-me que a casa vinha abaixo.
Pode ser que sim...
... que anda aí um vírus no meu blog.