dezembro 31, 2004

“Canta o Cisne” ou “Olha quem chega!”

Neste dia somos todos políticos, de todas as algibeiras saem promessas, novas ou das velhas, tanto faz. Autênticos profissionais que, conhecedores dos anseios do eleitorado (e ia-me saindo populaça), repetem programas sérios (só) na aparência, possíveis apenas graças a um público de memória curta: nós mesmos.
Mas como é mesmo essencialmente através do rito que se celebra, mantendo-o dessa forma vivo, o mito, então cá estamos ano após ano em práticas costumeiras.

Promessas não faço (só quando ninguém – nem eu – estiver a ouvir) pois que nada de novo, como se percebe por toda a conversa anterior, iria acrescentar ao leque de ditos prometidos e, menos ainda, realizaria o que quer que fosse dentre essas promessas. Circunscrevo-me a outro lugar comum, mas bem mais simples já que se resume à vontade de acreditar sem se expandir também à vontade de realizar: que o ano de 2005 seja excelente, dentro e fora da blogosfera, óbvio, e que se contem bem melhor as saídas de um ano com um tão conturbado final.

Entremos com a «pata» direita num 2005 que, espero, seja mais simpático que o seu antecessor – pelo menos na parte que me toca, eheheh. Divirtam-se, os (re)começos têm sempre a sua piada – ainda que quando macabra ou tontinha.


©

Cumprimentos, ao 2005 que aí vem (ao 04, e o seu canto do cisne)
;)

Publicado por PmA em 04:07 AM | Comentários (1)

dezembro 30, 2004

Negro claro

Insisto na vã tentativa de descodificar acontecimentos que ainda não foram nem estão a ser. O resultado, esse, sempre imutável: claro que isto corresponde a uma impossibilidade, nem outra coisa poderia ocorrer; mantém-se a nulidade quanto ao conhecimento das cifras do porvir: é esta parte de uma magia que motiva e impele para a continuidade, excluindo o acomodar bem como o desistir.

Frestas há, no entanto, que avançam com (escassas) possibilidades a vir a ser. Espreita-se por entra elas, maquinando estratégias de gestão de maneira a obtermos a maior satisfação; obviamente, é uma perspectiva radicada num economicismo simples, ainda que me sinta tentado a dizê-lo simplista. A paciência torna-se, então, numa arte neste jogar, jogar que nos entretém pelo correr dos anos. Encontrando-se aprimorada, permite-nos a paciência conhecer ou desconfiar do mais propício momento para jogarmos a nossa carta, ou mesmo aquela cartada que se aguardava com elevada (mas graciosa, se pacientes) espectativa. De cartas sei que nem tudo passa pelo saber jogar: é, de igual forma, um jogo estipulado pela sorte; e a sorte, como é sabido, funciona em contornos aleatórios, vindo, ainda que diminutas vezes, inexoravelmente bater-nos à porta – que mais de tão fácil do que tão somente esperar, tendo o facto como garantido? Bem, claro que existem dificuldades intrínsecas, mas deixemo-las por ora.

Com a impossibilidade de estarmos conscientes do que permanece na incógnita do porvir, conduzimos boa parte do nosso quotidiano num vivência definida por um negro claro; claro porque há o plausível, o possível, o que, por intermédio de uma enorme quantidade de indicadores, é espectável através das nossas acções e a do outro (leia-se no plural). Negro, todavia, dados os níveis de incerteza, variáveis numa escala de grandeza, naquilo que de facto irá ser (vivido, experenciado).

De que serve esta lenga-lenga. O mais provável é que para nada. Excepto, talvez, para negar condicionalismos e determinismos radicais; que a realidade se vai montando, peça a peça, pelo derivado da acção: nossa (individual) e do conjunto (colectiva).
Conta-se assim que devemos agir em função de objectivos (nunca descurando os meios, que nem por isso são sempre justificáveis – asseveraria Maquiavel, para quem só os fins importavam), a fim de obtermos o objecto da nossa vontade (pode-se, igualmente, ler no plural). Quem não os tem manifestamente – objectivos –, irá consumando, ainda que no etéreo, imediatismos – coisa que, com largas possibilidades, constituirá per si objectivos no seio de um projecto de vida.

Estabeleci, claro está, um esboço de um projecto de vida. Contudo, parco ainda em objectivos, pois que um há, pelo menos, que terei de voltar a ponderar.
Tudo, porém, a seu tempo – vive-se no momento o negro claro do indefinido.


©

Cumprimentos,

Publicado por PmA em 10:04 PM | Comentários (0)

dezembro 24, 2004

Despropositado, eu sei.

O Natal é quando um homem quer;
não vou querendo.

Reiterados desejos de boas festas, para quem - teima(?) em - gosta(r)

Cumprimentos,
abraços ou beijinhos, conforme melhor vos convier.



©


[the neverending tic-tac]

Publicado por PmA em 06:37 AM | Comentários (3)

dezembro 23, 2004

Para todos...

Publicado por PmA em 05:36 AM | Comentários (4)

Instantâneo (XVII)

Todos lavamos a «cara»; inclusivé os blogs.


©

Publicado por PmA em 05:26 AM | Comentários (1)

dezembro 21, 2004

Instantâneo (XVI)

A morte é o egoísmo que sublima a vida.



©

Publicado por PmA em 08:28 PM | Comentários (2)

Sussurro a um tom

Baixinho, convém, desconfia-se que as paredes têm ouvidos; e eu acredito. Os grunhidos das multidões são desconfortáveis, julgo mesmo serem prejudiciais à pele, como aqueles cigarros que assim começaram a ser rotulados. A par de centenas, ou milhares, de bocas esvaídas em sons vagos e indistintos, parecendo a uma só voz, coabitam em dobro ouvidos – que nada e tudo escutam. Ensurdeço e brutifico com este uníssono e baixinho, apenas assim tenho coragem de o dizer, «maldito coro!», permanecendo num andar mecânico de cabeça erguida a olhar para lugar nenhum. «Raios partam este maldito coro!», e todavia ali também estou, imiscuído naquela coisa amorfa e conjuntural, desprovida de lógica e coerência internas. De baixinho, se a multidão tudo ou nada escuta, desconfio que as paredes dos edifícios que nos ladeiam possuem ouvidos muito específicos a si; quem sabe o que poderão falar, essas paredes, portadoras de infindáveis segredos que com o tempo apenas partilham.

Seria incapaz de (sobre)viver isolado, mas a multidão empeça. Verdade seja dita, Lisboa, uma verdadeira cidade – outra qualquer –, é um espaço que não abandonaria à troca pela calma – demasiada – de um espaço rural ou não urbano. Tenho em mim o culto de vida urbano; não posso assegurar com franqueza que se trata do bichinho metropolitano, parece-me exagerado e que não o sou – metropolitano. Ser-se metropolitano exige uma maior entrega à urbe em comparação àquela que admito.
Gosto de pessoas, gosto do toque humano na paisagem natural; só não gosto, definitivamente, da multidão, talvez por ser um tanto que na realidade nada é – apenas encontro esporádico e circunstancial, incapacitado da propriedade do laço social. Contudo, percorrem-me no sangue as avenidas circundadas por construções de habitação ou de serviços, a panóplia de semáforos e cruzamentos, as circulares de alcatrão, os eixos que recortam a cidade de lés a lés, as suas diferentes coroas destinadas a serviços e comércio, as mistas, as de primeira residência, o frenesim que por elas perpassa, a mais ou a menos, nos locais de lazer desde o centro ao periférico. Não preteriria de toda esta matéria dinâmica por lugar algum de pleno sossego – não, faz, tudo isto, parte da seiva que alimenta a minha vontade; definharia ao perder este sereno sossego à sombra do contínuo ruído que a torna peculiar e tão especial.

Localidades sem iluminação artificial, sem o constante burburinho típico dos quatro (ou mais; ou ainda, menos) rodas, encantam por momentos pautados pela escassez: é simpático por dias, não para concretizar toda uma vida – embora em nada tenha descrédito por eles. As estrelas que à noite são tremendamente presentes e próximas, o silêncio típico quebrado pelo discurso de espécies animais que inclusivamente, em certa medida, desconheço sufocam-me em absoluto. Fico tonto, gazeado por um real que me é estranho e que parece querer-me a ele aglutinar; é, sem dúvida, um cenário lindo, porém castrador para aquilo que (e quem) sou.
Só a cidade me liberta, preenche vácuos quando me embebo na sua (poluída?) atmosfera. Claro, atmosfera não só na crua acepção do termo, mas extrapolada a toda uma realidade simbólica (também poluída, esta atmosfera?). É um vício, experimentei e não me desprendo, intoxicou-me com a sua opulente vivência fazendo-me não desejar outra (coisa) que não ela.

Da vivência urbana guardo, contudo, memória – impossível não fazê-lo – de outras componentes, estas bem menos desejáveis – o inverso, sustenha-se. Uma delas, a única que referirei, é a da estupidez do amorfismo da multidão constituída; coisa feia e invariavelmente despropositada, partilhando objectivos que se esgotam em imediatos concluídos, anónima por definição. Abomino-a, anuindo contudo ser mal necessário a quem temos de aplicar a nossa complacência.

A postura a que me reservo torna incontornável a compartilha de existência com esta especiúncula de actor social. Compreenda-se, porém, que multidão é coisa mais abrangente que aquela – a mais comummente apreendida – a que fiz menção. Há, creio, multidões bem mais particulares e de (bem) menor dimensão. Quantas vezes, a fim de se conviver com gente que nos é querida, somos confinados a fazer parte integrante da multidão? Tantas que as vejo como demais. Esta multidão reduzida em número assoma-se, na minha humilde opinião, como um algo portador de maiores perigos (ou efeitos indesejáveis e indesejados). Menos ouvidos, logo menos bocas palradoras; efeito: maior atenção a que é prestada àquilo que nos sai em forma de palavras e, porque os olhos se servem é para ver, à linguagem corporal. Fisicamente menos incomodativa, a pior característica desta tipologia de multidão é o facto de ser substancialmente mais perniciosa ao nível da identificação do outro (ie, conhecer-se quem e o que diz e subsequentes consequências), do – quase inexistente – anonimato.

Rodeado pela multidão tipologia dois – a última definida – remeto-me ao falar de baixinho: ninguém escuta, ninguém ouve – parece. E muito, em demasia, se torna coisa pública, de conhecimento generalizado, sem que o notássemos e, menos ainda, o pretendêssemos. Assim sustenho, até as paredes têm ouvidos: não as quero a escutar o que a outros, que quero, digo; muito menos de ti, de nós: mesmo que ainda não te tenha conhecido; e se te conheço, pois que vou conhecendo, quero-te: quero-te em privado.

Quero contigo, quero que sejamos os protagonistas; e não parte de um coro que só serve o efémero e o volátil. Opões-te, opomo-nos à multidão; tu e os – poucos e bons – que vivem – por um gostar e respeito recíprocos – lados a lados (que lado a lado, em permanência ninguém deseja) comigo.
Contigo, protagonistas e não coro repetindo em uníssono um diferente sempre igual. Contigo, preconizando o protagonismo da diferença que desta maneira se alcança. Contigo, actores e não agentes – agindo em manifesta contradição perante o mero ser-se função.

Protagonista de uma história verdadeiramente nossa, desconectada do pensar e sentir comum que em excesso enjoa.
Concluo recorrendo a uma citação que me parece dificilmente superável quanto à pertinência de encaixe nos ditos deste post:

A multidão, de repente, tornou-se visível, instalou-se nos primeiros lugares da plateia da sociedade. Dantes, se existia, passava despercebida, ocupava o fundo do cenário social; agora passou para a boca de cena, é ela a personagem principal. Já não há protagonistas: só há coro.

José Ortega y Gasset, “A Rebelião das Massas”



©

Publicado por PmA em 08:25 PM | Comentários (0)

dezembro 20, 2004

Dissolvências

Não te via há muito tempo; a ti, como a muitos outros. Fizeste-me recordar pessoas idas, amizades adolescentes que se ficaram no tempo: é bom assim, tudo tem um prazo de validade, sem continuidade indelével prometida, mais vale ficarem as memórias, memórias das – coisas – boas que proporcionam uma estética elegante daquele belo elegante congelado e condicionado pelo que foi.

Foi agradável rever-te. Simultaneamente estranho, tenho que admitir. Torna-se tudo diferente, o modo como agora nos olhamos, as palavras que ora se trocam. Muito permanece igual, ainda que nos saibamos estranhos numa realidade vincadamente própria: não é a nossa, é a tua e é a minha – perspectivas divergentes, descabidas de oportunidade de reunião.
Mesmo assim, reitero, foi agradável rever-te. E a alguns outros igualmente presentes, comungando do mesmo espaço, indo, porém, a caminhar por percursos definidos pela vontade própria de cada um como ser individual. A dinâmica é confusa, dava conta do facto quando me calava e observava o que ia acontecendo. Surgiam-me, esses acontecimentos, como imagens de fotografias que se sucediam com um encadeamento lógico e temporal, da mais antiga para a mais recente – e tudo isto advindo de umas poucas horas, o tempo que estivemos (todos) juntos.

Falámos disparates, dissemos absurdos derivados de circunstâncias que mais remetem para o que foi do que para o que estava a ser. A novidade esgota-se, ou pelo menos esgota-se em coisas nenhumas do quotidiano de hoje – rapidamente são discursadas até que nelas se coloca pedra em cima.
É engraçado constatar que não fossem os traços físicos diríamos estar por onde estávamos, estagnados numa época, enfim, inseridos numa qualquer estória: quando dali saíssemos far-se-ia um natural regresso à actualidade, deixaríamos todos de ser aquele nós que ali estava (artificialmente construído).
Aqueles que ali estavam, que eu revia, onde também tu te incluías, dispensavam os trâmites das apresentações: dir-se-iam figuras fantasmagóricas, conhecidas entre si desde o começo das eras. Montamos um esquema sem perguntas, sem carências de primeira experiência – só o término dessa ‘reunião’ era facto assegurado, até lá viveríamos o limbo como mito do eterno retorno.

Ao dia seguinte a normalidade surgiria novamente engrenada na sua estranha perfeição; o anterior, o dia anterior, era coisa pertencente ao universo do sonho, um molho de fotografias lógica e temporalmente encadeadas nas quais, porém, não – mais – nos revemos.
A cada um o que é seu. Aceitamos interlúdios porque nos divertem e libertam da pressão do real vivido de todos os dias, por mais nenhuma razão. Depois, claro, reclamamos as nossas pertenças, a nossa rotina. Afinal não somos espectros, somos carne e osso – é por aí que devemos continuar.

A rotina é substância do belo, aí temos e construímos, dia a dia, a nossa identidade. Talvez num outro dia nos permitamos reabrir a porta ao limbo para de seguida, saciados, a voltarmos a encerrar. Tudo faz parte, até – especialmente – o álbum de fotos.


©

Publicado por PmA em 09:23 PM | Comentários (2)

É assim... (XXVIII)

Outro post, porque cansado de não escrever nada; ainda que, em resultado, isto.


©

Publicado por PmA em 02:19 PM | Comentários (0)

dezembro 17, 2004

É assim... (XXVII)

Um dia... um dia mais, só isso.



©

"One of the most obvious points in it is unwillingness to think about the dirty work. In this case - perhaps by chance, perhaps not - the good man suffered an actual lapse of memory in the middle of this statement."
(Everett C. Hughes, Good People and Dirty Work, in Howard S. Becker, "The Other Side")

Publicado por PmA em 02:58 PM | Comentários (0)

dezembro 13, 2004

Amarelo desmaiado

Sabe sempre bem voltar a segunda-feira... As segundas são promíscuas sem dolo próprio, não devem culpa que nelas tenha recaído a escolha para primeiro dia após um fim de semana que se fosse extendido não me importaria (digo eu...). Se um domingo parece cinzento, as segundas são de um amarelo desmaiado que sugere doença... Aves raras bem dispostas neste dia só um aniversariante a quem lhe calhou a segunda, ou as de rapina, frequentemente workahoolics que abominam os dias de repouso, que parecem possuir o monopólio nas hierarquias de chefia (se bem que não das mais elevadas); há ainda, tendo estes motivo para desagravo, os que bulem afectos a um horário flexível – como é de fácil compreensão, há sempre o típico exemplo do trabalhador por turnos: porém, o fio condutor assentará nas estatísticas padrão, ie, segunda a sexta.

O comum dos mortais desperta mal disposto, contrariado e provavelmente acentuadamente mais birrento à segunda-feira; a própria tonalidade da tez é apropriada desse amarelo próprio a quem sofre do fígado (pois, os que abusam do álcool também os há; esses, contudo, são outros motivos). O raio do despertador, pactuando com o inimigo (com quem terá igualmente dormido), consegue aclarar os seus peculiares tons agudos para que a irritação seja complementada – ou assim parece. Nada começa bem numa segunda, mais não seja porque o é: segunda-feira. Os fumadores penalizados com agravante: ninguém os obriga a abusar do número de maços de cigarros durante o fim-de-semana, mas aquela maldita saída à noite... (bem sei do que digo, caibo no leque destes maníacos que não passam sem o hábito idiota de inalar fumo cancerígeno – o não largar deste vício «erótico-oral» é questão bem mais complexa, assevero com ironia).
Para quem reside em Lisboa e faz uso quotidiano dos transportes públicos tem igualmente que gramar com os autocarros ex-laranja que, surpresa, (re)ganharam por obra e graça de um iluminado a cor de amarelo.
De amarelo desmaiado ficam as almas desanimadas, sem vontade de dispor o corpo ao manifesto; de amarelo desmaiado ficam os trabalhos e também as aulas – resignemo-nos: se a nossa está, a dos fofos patrões e ilustres mestres de escolas e academias estará tão ou mais amarela desmaiada que aquela que transportamos no nosso corpo (quem se lembrou de utilizar invólucro?). Não espanta, por conseguinte, o retorno ao estado de pitecus durante o curso e duração deste dia; os genes não endrominam, mantemos aquele resquício do homem selvagem (não se tenha a tentação de o adjectivar de bom, deixe-se em paz o senhor Rousseau), faltando como corolário o jubilado «grrrr...» - embora no nosso discurso se possam encontrar alguns laivos próprios desta linguagem arcaica.

Por me encontrar, como o comum mortal, imbuído por esse amarelo desmaiado que tonaliza a alma de sete em sete dias é a exclusa justificação para ter redigido este post.
Contudo, é coisa passageira: amanhã é terça. Fico-mo por aqui, que de baboseiras já basta.


;)
Cumprimentos,

Publicado por PmA em 12:22 PM | Comentários (2)

dezembro 12, 2004

Tarde demais

Das coisas mais fáceis que existem é o apercebermo-nos de que é tarde demais: aparece-nos pura e simplesmente defronte do nariz como facto consumado sem retorno, fenómeno ao qual não reportáramos a devida atenção, ou do qual não desconfiáramos, e que num repente surge descobrindo o véu. Não se evita um tarde demais exactamente por ser tardia qualquer redefinição do e no processo: inexistem receitas para o que não é remediável. Tarde demais é um final – um final de processo – pelo que continuação é facto não verificável; tarde demais é dogma, irresoluto e imoldável: aparece porque tem de aparecer não permitindo discussões nem argumentos. Tarde demais porque simplesmente não ousámos(?) ser capazes de o evitar.

Uma particularidade curiosa do tarde demais concentra-se num paradoxo: o acontecer cedo demais – pelo menos na ideia que temos ou formamos quanto ao processo experimentado que antecede o ponto derradeiro assumido na máscara do tardio em demasia. Não deixa de ter, assim, uma certa postura irónica, valência que dá corpo a situações deveras comuns: nomeadamente, as de ficarmos eternidades de tempo em questões e interlocuções introspectivas fundadas num porque é que terá sido tarde demais. Obviamente, estas introspecções raramente conduzem a algum lado; ao invés, têm o condão de confundir e baralhar mais o sujeito executante. Na realidade seria mais razoável apartarmo-nos desta infrutífera e ineficiente tarefa mas, porém, aqui entra sempre em contradição a particularidade da dita natureza humana (insondável nos seus desígnios, para bem ou para mal).

Embora devido às propriedades a si inerentes, apenas constatamos o que é tarde demais tarde demais. Mas se não o fosse – tarde demais – nunca nos aperceberíamos de tal mesmo que cedo o suficiente. Brincamos àquilo que metaforicamente é tão bem representado pela figura da pescadinha de rabo na boca: circunferência que se desenha circularmente a si e per si.
Outro paradoxo a acrescentar é o de o tarde demais fluir no momento certo; enfim, antes que se tornasse efectivamente tarde demais (dou um exemplo um pouco descabido, mas que julgo esclarecedor: o da violência doméstica, à qual se antecederam indicadores suficientemente relevantes para a predizer e prognosticar). Um tarde demais desta categoria – presumivelmente demasiado prematuro – é pois um elemento de equilíbrio que esquiva atempadamente um tarde demais em dimensão e prejuízo bastante mais danoso.

Ao tarde demais apenas se pode retorquir com uma atitude: a de que – em regra – nunca é tarde demais para recomeçar.
Com um final resta o desafio de novo começo, tal como por inúmeras vezes somos compelidos a recorrer a um restart nos nossos computadores pessoais (com os ‘alegres’ agradecimentos ao sr. Bill por parte dos utilizadores de sistemas operativos Microsoft). E quem se entusiasma com desafios um tarde demais torna-se – outra – premissa conducente a um possível enriquecimento pessoal, com novas telas a desenhar, novas incógnitas a decifrar e novo caminho labiríntico a mapear.
Enfim, um tarde demais pare – assumindo a norma – uma renovada aurora, com cercas de espinhos e vias douradas – como tudo o que é humano. Acorda-se, levanta-se e, aos poucos deixando os sonhos e o sono para trás, caminha-se no decurso de novo dia (leia-se nova vida...) proeminente e prometedor de ganhos num vivido não repetido e – felizmente – (parcialmente!) desconhecido.

Pois então se é tarde, nada é impeditivo que se prospecte o restante real que fora, até então, velado por uma neblina em facto dos – nossos – interesses concomitantemente direccionados.
Torna-se tarde demais para o tarde demais, que é redimensionado para o passado: géneses são coisa não característica de termos irrevogáveis, propiciam antes a repetição do vivido e do não vivido, a repetição do substituível pelo substituto que urge em se consagrar.


Caríssima(o)s, cumprimentos.



©

Publicado por PmA em 10:11 PM | Comentários (0)

Instantâneo (XV)

O belo não precisa de ser difícil mas eficaz.



©

Publicado por PmA em 12:49 AM | Comentários (0)

dezembro 11, 2004

Vitória, não. Vingança...

Porque é que o sabor a vitória nem sempre é suficiente? Bem, talvez se goste por vezes de um prato servido frio. E qual o melhor que não a vingança? Nada altera, nada de facto se conquista, não adicionamos o que seja em termos concretos; todavia satisfaz, e satisfaz aquela pequena molécula que outrora se sentiu lesada – uma espécie de mais valia a posteriori que recoloca um número de pontos à nossa auto-estima e nem nos importa que seja apenas um ímpeto egoísta ou não.

O sentido da oportunidade de vingança surge bastante prematuramente: quem não ouve crianças com o seu discurso do ‘há-des cá vir...’? E trata-se de uma fase ainda num estágio deveras embrionário, sôfrego em se refinar; e realmente refina-se... Em estágios mais avançados deixamos de lançar a ameaça verbal – esta torna o requinte previsível – e em silêncio aguarda-se pela oportunidade sacramental para executar os mais – ou menos – planos maquiavélicos que saciam uma partícula do nosso ego: e aí está a vingança a valer-se por ela própria. Para mais, as suas utilidades desdobram-se em concurso de multiplicidades: desde o absurdo sentimento da sensação de superioridade, da experiência (nula?) de dano ressarcido, até ao simples gosto de se ter (finalmente?) «entalado» alguém. Curiosas que são as diferentes formas que constituem e estruturam esta praxis.

O terreno em que esta se aplica, ou o objecto sobre o qual recai, é por força da pertinência da sua aplicação alguém que em tempos idos (mas nunca demasiado distantes, de preferência) se gabava da nossa – elevada – estima (estranhos ou pouco próximos não repercutem um efeito particularmente gratificante). A vítima, então, encontra-se previamente definida, se bem que nas alturas de temperança nem sequer nos ocorra a ideia desta – ignomínia, por essa ora – prática; contudo, é no leque dos nossos mais próximos que irá recair a nossa praga, o direito de retoma do prejuízo ou dano sentido.

Qual a lógica da vingança? Nenhuma senão, em antítese com o sentimento altruísta, uma volúvel e efémera consagração egoísta; que sabe bem, importa não esquecer.

Ilação moral: nenhuma; fica ao arbítrio de cada um o uso desta prática.


©©

Cumprimentos, caríssimos.

Publicado por PmA em 11:37 PM | Comentários (2)

dezembro 10, 2004

Cromos para a troca

Nos tempos da Preparatória (ainda assim se chamava) era habitual verem-se miúdos a trocarem a expressão do «tens cromos para a troca?», ávidos por obterem aquele(s) especial(is) que não possuíam.
Quer a idade quer o tempo passam; os interesses também, manifestados agora noutras formas e necessidades. Porém, a expressão dos «cromos para a troca» mantém-se actual quanto à sua tónica (se elaborarmos um pequeno exercício de metáforas). Não recaindo actualmente o interesse nos cromos (mal seria, com esta idade), a troca verifica-se manifestamente nos nossos quotidianos. É uma espécie de ritual particularmente intrínseca aos que da minha faixa etária se encontram solteiros (ou até mesmo divorciados), que decidiram (ou por eles decidiram, que também acontece) romper com relacionamentos de longa dura, enfim, aqueles que algum iluminado decidiu apadrinhar como os encalhados. Talvez seja coisa natural agora que vivemos num auge do homem metropolitano e do nascituro metrossexual (conceito difícil de entender; parece que entenderam ser um neologismo bonito, que ficava bem – a sua explicação, quanto a mim, permanece monstruosamente dúbia). Possivelmente muitos dos encalhados cairão na amplitude desta coisa de ser-se metrossexual: deixam de existir seres sós e solitários, só aqueles que optam por um estilo de vida metropolitano e... metrossexual(?). Porventura seja um augúrio para um futuro não tão longínquo. Afasto-me, contudo, do que me motivou à redacção deste post (ou o que raio é isto – estas formas linguísticas pós-modernas confundem-me...).

Pois, mesmo assim a história do metrossexual acabou por vir ao encontro, ainda que parcialmente, das minhas intenções. Na sua lógica subjaz algo que me importa para aqui.
Os dias que correm. Nos dias que correm os cromos coleccionados são representados por aquilo que constitui relacionamentos passados – estritamente afectivos ou não. São cromos colocados em caixinhas de memória, dos quais bastantes vezes não desejamos guardar recordação mas que uma vez por outra assomam ao consciente: ‘é pá, já tive este cromo!...’, ou ‘tenho [no passado] este cromo!... e eu que o julgava perdido...’ O presente não tem cromos, exceptuando aqueles com madeixas aloiradas (porque estão cada vez mais burros), mas pessoas reais que adquirem o seu estatuto de objecto de caderneta num curto espaço de tempo; por vezes até um trimestre é demasiado para que o consideremos «presente». Logo, as colecções vão crescendo conforme a habilidade do coleccionador... ou então casou-se, juntou-se, estabeleceu nova relação duradoura: o que igualmente tem o seu elevado grau de improbabilidade, já que na verdade os coleccionadores são ainda pouco astutos ou demasiado agarrados aos troféus pretéritos – onde normalmente há um de eleição, a quem (irracionalmente?) dedicam uma especial dedicação (aqui aconselho a leitura antropológica das teorias de endeusamento ou as tradicionais obras da psicanálise freudiana).
Realmente o termo troca ganha alguma pertinência se estabelecermos a ligação com os célebres paradigmas das substituições: enfim, acorda-se na troca aceitar um potencial substituto para um lugar ou espaço que vagou. É uma forma pouco romântica de abordar os afectos humanos, porém não é de desdenhar em termos pragmáticos. Quando se trata de beneficiários somos invariavelmente os primeiros em que pensamos; revertendo a lógica, quando se trata dos que saem deficitários... mais vale serem outros e não nós! Como é belo este utilitarismo individualista! E poupa tantas (e tantas) dores de cabeça. Acabamos por nos deparamos com um paradigma sistémico circular: o beneficiário da troca fica então (momentaneamente) gratificado; aqueles que saem pela porta dos fundos sabem à partida que não tardará muito para que tornem a sentir o bafejo da sorte. É um jogo sem derrotados absolutos, vence-se sempre – já se sabe, mesmo que o momento seja de derrota nesta continuada batalha, que há mais moscas em busca de mel. Pois, quase que passava em branco: e os sentimentos, no meio disto tudo, onde ficam? Reduzidos ficamos, então, a um automatismo de seres quase máquina? Não, não é assim tão simples como ficara em aparência.

Por muito que se padronize, ou se tente padronizar os indivíduos, é empreitada impossível retirar a cada um as suas particularidades específicas: a sua individualidade. Podem-se até trocar pessoas como acontecia com os ditos cromos, mas não se podem baralhar as cartas de neurónios onde se refugiam os sentimentos de modo a que tudo fosse um linear excluído de repercussões: ressentimentos, raivas, penas e dós, ansiedades, vazios impreenchíveis ou de preenchidos de lacunas...
Com a troca de cromos vêm os calmantes para ansiedades inexplicáveis, ansiolíticos, anti-depressivos e mais trezentas drogas passadas por um psiquiatra ou médico de família que se mostram muito preocupados com o estado da situação. Vêm as doenças de alma porque ‘gaita! era mesmo aquele o cromo que eu queria!’
Que seja. Agora esse repousa noutra caderneta – quem sabe não haverá cromo futuro mais em conta que aquele que era o que queríamos? Até lá siga o jogo, vamos para a troca?


©


Cumprimentos com os melhores votos – afinal, não estamos quase no Natal?

Publicado por PmA em 09:55 PM | Comentários (0)

dezembro 09, 2004

Wallpaper

Trocamos pessoas de lugar como objectos cuja disposição não mais nos agrada. Movimentam-se posições, comem-se peças, fazem-se xeques, num jogo de xadrez sem final e com um pacote de novas regras que melhor nos convêm. Talvez seja isto o pós-moderno, seres novamente nómadas sem vivências ancoradas a uma normatividade agora obsoleta; um poder de dispersão emerge, uma difusão que nega vínculos a personagens fixos desprovidos de características distintivas antes padronizadas no espaço e nos esquemas mentais de cada um.

O pano de fundo permanece o mesmo, pintado em tons de azul; todavia só o é perceptível visto do espaço, usufruindo de uma visão desfocada derivada da distância. A tela é a mesma, o que nela ocorre obedece porém a um outro arbítrio: afunilado no individual omnipotente, onde todos são o que cada um quer representar, onde cada um distribui nessa tela todos os outros numa disposição que apenas a si lhe pertence e que não se entrelaça com a representação que constroem todos os outros uns. Na globalidade existe-se numa caverna de Platão, e é tão mais confortável assim sê-lo.

Num plano meta-real pessoas e coisas coexistem indiferenciadamente. Nem vale o esforço da nossa interpretação outra coisa. O cansaço de nós é viciante, a pausa só aparece nos sonhos; depois continua-se, movendo e alterando à vontade – que é a nossa – pessoas que estão ou estavam: daqui para ali, dali para outro espaço e se mais perto ou distante não importa. Importa sim não largar esta dinâmica de um quase tudo aleatório, imperativo que goza de uma pretensa exclusividade de nos fazer sentir vivos num amorfismo a padecer de doença incurável e terminal.

Volto a escrever depois de ter varrido o pó para debaixo do tapete, de ter arrumado uma casa edificada na mente, sempre a alterar posições – que o estável está gasto – destes e daqueles, sempre a repintar uma atípica natureza morta dependente das excentricidades do – de um – artista.


©

Cumprimentos, caríssimos

Publicado por PmA em 12:49 PM | Comentários (0)