abril 29, 2004

Há muito atrás, numa galáxia perigosamente semelhante...

Dissertar acerca de conteúdos que nos fazem viajar no tempo é uma tarefa árdua e ingrata. A memória atraiçoa-nos com os seus inevitáveis lapsos; mais, à medida que insistimos em dirigir o pensamento para algo de que já não temos em rigor, maior se torna o risco de criarmos aquilo a que psicólogos, psiquiatras e neurologistas denominam por memórias falsas; memórias estas que, a páginas tantas, não conseguimos distinguir – pelo menos de forma óbvia – daquelas fidedignas ao real acontecido, presenciado e, acima de tudo, vivido.

Esta publicação trata apenas de ficção (será? – talvez os mais argutos discordem), porém mesmo a ficção é construída com base na estrutura da ‘verdade’. Esta publicação trata de uma viagem fictícia a tempos que já foram – não são, muito menos voltarão a ser. Apesar da remissão ao passado, o texto será verbalmente apresentado no modo presente. Ao leitor, boa(s) viagem(ns).

É uma longa viagem de comboio, sem paragens em estações ou apeadeiros, sem destino pré-definido – e esta não é a primeira, outras muitas houve, mas será (ainda não o sei) por infortúnio a última. A velocidade a que nos deslocávamos era impressionante. Olho pela janela da carruagem e vejo sempre a mesma paisagem; praticamente sinto o corpo molhado com o vai e vem das ondas do rio; também ele, o rio, nos acompanha nesta viagem. Algumas horas, nenhum destino. Assim tinham decorrido as pretéritas, as já acontecidas viagens neste comboio.

O meu olhar continuava a apreciar uma paisagem imutável à medida que avançávamos, com a vã esperança que seria desta que o tempo, ele próprio, se tornasse imutável (se calhar já o é, todavia não para mim. “Dá tempo ao tempo”, disseram-me um dia quando eu estava ávido pelo acontecimento no presente; “Não – retorqui – , o tempo é teu amigo e não meu.” Assim foi, mas por ora ainda não o sei). O tempo, ao invés da paisagem que corria sempre igual a meus olhos, corria no seu lufa-lufa – porque terá tanta pressa, o tempo, que o tem todo?
Desvio a vista da direita para a esquerda, da janela para as palavras da cara, que pelos movimentos labiais, falava. Não ouvia; não queria era ouvir – não ouvir trivialidades, dessas coisas a minha vida é feita, excepto nos sonhos, e não careço de mais.
Mais por simpatia do que por vontade decido ligar o aparelho auditivo. E o descodificador que algures entre a massa branca e cinzenta possuímos. Passo a perceber o que me é enviado, antes não passavam de sons desconexos e sem sentido sintáctico ou lógico. Logo interrompo, senti como que uma paranóia a percorrer-me o corpo, e pergunto: “e o teu namorado, como é que ele está?” Nunca contabilizei o número de vezes com que a aticei com esta expressão, julgo que se tivesse tentado teria na mesma perdido a conta e acabar por saber o que sei agora: inúmeras vezes, é o que é. A resposta variava tão somente ao nível dos vocábulos empregues, o conteúdo permanecia sempre o mesmo – uma amálgama de ambiguidade que, virei mais tarde a suspeitar, tratando-se de um “isso depende de ti”. Desta feita, enquanto aguardo pela resposta do costume, quando de pronto, lá está! Dá-me a resposta: a do costume.
A modos de telenovela, com o seu quê de previsibilidade – todos sabemos o que se segue, ou no mínimo a nossa suspeita aproxima-se daquilo que o será – sou agredido – igualmente pela enésima vez – com questão semelhante: “E a tua, Pedro? Como é que ela está?” Respondia-lhe sempre com a invariável sinceridade da mentira. Não seria diferente agora. “Está bem. Mas sabes, se calhar já esteve melhor.” Inventava mil confusões, das quais oitocentas inverídicas – duzentas tretas que abalam uma relação no dia a dia não são mais do que banais, o sal da relação: chamam-lhe alguns.
A nossa estratégia primava pela semelhança. Sempre à defesa, sempre à espera que fosse o outro a dar o primeiro passo. O intuito, o objectivo, esses desconfio que eram sempre os mesmos: cala-te, eu também me calo, junta a tua à minha (sabem bem o quê) – abandonemos as mentiras, os jogos. Mas o jogo era parte integrante do Jogo: havia um passado a defender, uma reputação que construíramos ao longo de vivências com amigos comuns – a certeza é que era a proximidade que nos afastava.
Olho nos olhos dela depois de lhe ter dado a resposta que me convinha. Não sei sequer se tem namorado, se não será uma invenção, mais um joguete, para combater ao meu lado de igual para igual. Eu não podia negar uma relação a que todos, aqueles que nos eram comuns, assistiam quotidianamente. O dela, o “presumível”, julgo que ninguém alguma vez o conheceu, nem os amigos comuns que o deixaram de ser para ambos – virei a saber mais tarde.

Molho os lábios com Bushmills de 8 anos – ela entretém-se com uma long drik qualquer –, quando a minha vontade me impelia a despejar aquele copo em balão num só trago (tenho que manter as aparências: mais do que séria a mulher de César tem que parecê-lo). Pergunto-me sobre o que está mal, mas só para mim e baixinho – não fosse ela ouvir ou perscrutar qualquer emoção estranha nos meus olhos; e ela sabia olhar-me nos olhos, o que me trazia sentimentos de desconforto. Sempre fui e continuo a ser assim. Se os olhos são, em facto, as janelas da alma, então é seguramente essa a razão pela qual quando falo, quando falo!, escondo os olhos, revirando com eles tudo ao meu redor à excepção dos olhos de alguém que me é especial.
Continuo a falar. Ela responde. Ela continua a falar. Eu respondo. Cá estamos, bem vindos novamente ao mundo da trivialidade.
Parece que só nos voltamos a olhar quando decidimos que a viagem por hoje está terminada. Abandonamos o comboio. Lá está o rio. A paisagem, por impossível que julguem, continua como os nossos sentimentos antes de termos empreendido noutra viagem: igual; pior do que igual, inalterável.

‘Por quem já não volta
por quem não esqueci’
(Sétima Legião)

De volta ao nosso tempo, de regresso à nossa galáxia e ao nosso planeta em particular.
Do fundo da garganta um nó impede que grite aquilo com que o meu pensamento me atormenta: À obra!!! Assim é que não vamos a lado nenhum – como a viagem que descrevi.

Agradeço ao leitor que (ainda) tem paciência para ler estas publicações, mas escreveria mesmo só para mim.
Afinal, é muito pela ficção que se constrói a realidade.

Publicado por PmA em 08:21 PM | Comentários (6)

É assim... (I)

A razão de sentir é um misto de emoções e sentido de razão.

Publicado por PmA em 04:52 PM | Comentários (0)

abril 23, 2004

(no title)

- pequena reprise -

Estou a ficar velho, mas vejo que quanto mais se bebe mais se tem a certeza que mais se devia beber.

Um abraço.

Publicado por PmA em 05:47 AM | Comentários (1)

Que título?

Dizia, e penso que ainda diz, a canção do meu saudoso António Variações:
“Tu está só e eu mais só estou, que tu tens o meu olhar (...)”

Coincidências da vida. Que raio, tanta miúda que tem o meu olhar e não é por isso que fico menos só. Se calhar é mesmo por serem tantas...
O tempo corre em velocidade de fórmula 1 quando eu acho que descobri o motor a explosão. Irra, sempre um (dez) passos atrás. Penso que me moldo, que me vou adaptando a diferentes realidades, a diferentes formas do vivido. Em simultâneo com este pensamento tenho a certeza, que eu próprio me dou, que vou perdendo terreno face às novas gerações – é escusado teimar em dizer que sou um tipo a-tradicional, estou, em veritas, a envelhecer física e mentalmente.
Qualquer publicação tem um título, por mais ridículo e desinteressante que seja (o que inclui, grosso modo, as minhas e, por consequência, as do João – o Adriano que ‘hostejo’ neste blog). Todavia, esta não irá ter. Porque deveria, aliás?

Sou um tipo lixado e por muitas das vezes aborrecido. Escrevi, neste blog, ficção, excertos da realidade, sobre temas da minha área científica de interesse (é mais que uma), entre outros, vários, assuntos. Norma constante é que, por hábito, escrevo sobre algo em que possa opinar. Nem mesmo isto pode ser negado pelo leitor.

Que título?, é possivelmente uma publicação em que, como dizem os meus mestres, a filosofia se sobrepõe à história. Porém, nada de complicado (não sou kantiano ou não kantiano, cartesiano – ou mesmo damasiano, ou bachelardiano). Sem título representa apenas um vazio. Um vazio que não remeto à generalização, a uma hermenêutica filosófica, mas tão somente à representação de um ser, neste caso eu.

Um vazio sem título que me faz ver o caminho em frente em sinal de nébula: se acredito que já fui, porque me recuso a acreditar que serei? A resposta encontra-se em mim e breve seria a resposta para o leitor se eu a quisesse dar (melhor, se fosse fácil dar).

Sozinho estou, sozinho poderei ficar... ou não. Tenho amigos crentes no amor, naquele que se refere a uma predestinação – como que se existisse uma alma gémea, ou a ‘nossa’ outra metade.
Recuso-me a acreditar nisto. Mesmo em tempos recentes, aprendi a acreditar que existem condicionalismos, mas nunca determinismos em forma pura.
Esta publicação não tem título porque o não merece, mas também porque a hei-de continuar. Quem sabe, até talvez não sozinho... como agora, sem salva vidas onde me agarrar e com uma certeza de sufoco pela frente (aos meus amigos que mais me apoiam, que me desculpem – com toda a sinceridade – mas estou fraco; e fraco de espírito, principalmente).

Publicado por PmA em 05:33 AM | Comentários (1)

De um amigo...

Nos dias que correm esquecemo-nos muitas vezes de agradecer um conselho a um amigo. Deste não esqueci. Aqui fica:

Hoje em dia as mulheres só sabem mentir. Estou farto de gente falsa. Eu quero é vinho.

Não sei se é original e, a bem saber, estou-me nas tintas, Obrigado, NR.

Publicado por PmA em 05:04 AM | Comentários (0)

abril 21, 2004

Para Além d’Ele

(ATENÇÃO: esta publicação poderá ser ofensiva para crentes e praticantes de religiões de raiz juidaico-cristã)

A Paixão

Vi “A Paixão de Cristo” uma única vez. Porém, considero ter sido suficiente para deixar os comentários que se seguirão. Entrei na sala com todos os sentidos despertos, não se desse o caso de qualquer coisa escapulir à teia mental que tinha montado (e é óbvio que umas quantas, muitas, furtaram-se a toda a minha sensibilidade).
Vi uma vez e ouvi milhares de comentários por dezenas de ‘críticos’ sequiosos, como eu, que tinham alguma coisa para dizer.

Nem nas suas mais loucas conjunturas o sr. Mel Gibson expectava o astronómico sucesso da sua “Passion”. Pena que tenha sido pelos motivos errados: uma pudica polémica, que me parece infundada, cercou a sua obra que bem merecia os seus créditos pela espantosa manipulação de efeitos iconográficos, quanto a mim a melhor de sempre aplicada à vida quotidiana. Outra vitória para a saber fazer política do que duma política de saber fazer (e o Mel soube mesmo fazer – achei deliciosa a manobra de marketing que foi vermos um filme integralmente falado em aramaico e latim).

Cristo é redenção e após este filme fiquei com a danada impressão que urge o seu regresso. O seu regresso a fim de redimir e voltar a pagar o preço pela salvação da humanidade; é nos pequenos pormenores que reparo que continuamos mesquinhos, interesseiros, caprichosos e muito mais, em pequenos pormenores a que vamos assistindo ao desenrolar da fita; séculos mais tarde e parece que nada se aprendeu.

É um facto que o filme prima pela violência e apela aos sentimentos através dos sentidos. Facto é que a história já foi escrita. Facto é que muitos dos clássicos do cinema discorrem nesta matéria. Mel aproveitou uma nova perspectiva de vermos a história de sempre, uma nova abordagem para vermos o que já o foi. Optou por mostrar uma das facetas menos exploradas pelo cinema: o sofrimento constante e continuado, e fá-lo de forma a que quase conseguimos ‘cheirar’ a dor. Fê-lo, no entendimento de alguns, bem demais. Quanto a mim, fê-lo pela diferença e pelo acto criador que é dar forma a uma obra e ‘só’ isso.

Revolto-me contra a revolta daqueles que vêem o filme e acabam invariavelmente por condenar a brutalidade dos homens (seja o judeu, seja romano). Não fui à estreia, pelo que ainda pude ouvir, aqui e ali, alguns comentários referentes à película: que a ou o não sei quantos, indignado ou não resistindo à pressão, saiu a dada altura da sala; como elas – mais do que eles – verteram tantas ou mais lágrimas do que a sra. Maria Madalena enquanto aquilo – o filme – durou. Meio incrédulo, deparo-me com o mesmo fenómeno quando assisto ao desenrolar do ecce homo de Mel Gibson.

Não sou insensível nem desdenho ele ou ela que não tenha mantido as emoções mais estáveis durante o visionamento; é, em boa verdade, um visionamento impressionante.
Detesto o sofrimento quando em demasia (quem não sofre ou sofreu por amor?). Repugna-me de forma veemente o tratamento a que é sujeito um corpo humano, ainda para mais quando explicitamente mostrado, como aquela que nos prenda o realizador.
Porém, algo ultrapassa, em todas as fronteiras, esta minha repulsa: o nojo de todos serem sensíveis ao sofrimento quando se trata só e apenas do sofrimento do ‘chefe’. Caríssimos, então e todos os outros?

Quantos os que na mesma medida padeceram com as intrincadas malhas da justiça. Mas não, esses não nos podem salvar e lavar a alma – não merecem o nosso tempo ou mesmo um esgar de pensamento. A violência, ou a forma como a aplicamos, é hoje diferente, mas em essência somos carne da mesma unha.
Quem não apontou o dedo a Pedro por negar três vezes, algo que lhe tinha sido predestinado? Quem não apontou o dedo, de forma peremptória, a Judas, o traidor, mas traidor sem o qual a profecia não se cumpriria? Também o seu destino estava delineado. Se Judas não traísse quem te tinha salvo leitor? Quem não gracejou ou, pelo menos, não achou justo quando o desgraçado na cruz foi bicado pelo corvo? Se estivesse hoje na ‘cruz’ com Cristo a seu lado reconhecê-lo-ia?
Pensamos saber julgar a história, pois esta é passada, mas não nos conseguimos julgar no decorrer do presente, na vida do quotidiano, pois não? Já não somos tão sábios a distribuir julgamentos.

Muitos sofreram ao longo da história, da nossa história, a do Homem, e quem pode dizer que mais ou menos que aquele homem especial na cruz? A diferença reside mesmo nisso, no ser-se especial. O nosso semelhante é tratado à semelhança de sempre, passando a redundância. É caso para dizer que só recordamos quem nos interessa.
Em ninguém, após o final da sessão, vi estas palavras. Em ninguém, srs. católicos apologistas do humanismo. Sentem-se salvos por carpirem o sofrimento de Cristo? Eu não me sentia com toda a certeza se ignorasse a palavra ‘irmãos’, que significa iguais, tantas vezes proferidas pelo Salvador. Se é crente, logo se vê... afinal vamos mesmo todos acabar por dar o último suspiro por um destes dias.

Cristo perdoou e é bom, para nós, que volte a perdoar.
(Dei gratia)

Publicado por PmA em 03:41 AM | Comentários (2)

Ser o escolhido é como estar apaixonado:

perspectivas e possibilidades de se ser o que se é


Estar apaixonado é sofrer a paixão; sofrer e exercê-la, sobre nós próprios. Estar apaixonado é estar exposto; ao vento, à chuva, ao medo, à desilusão. É sofrer insegurança, é exagerar aquilo que se vê ou reduzir a nada aquilo que se não quer ver. Estar apaixonado é, aos olhos de um observador, viver num universo totalmente irregular, desfocado, desproporcionado, surrealista, onírico, sem centro, sem geometria, sem simetria, sem perspectiva de objectividade, sem medida. Este observador diria que o mundo enlouqueceu como se tivesse tomado uma dose de ácido alucinogéneo. Isto é o que diria o observador meticuloso acerca do mundo que se desenrolasse sob o seu olhar. Ainda assim, este observador teria termo de comparação: o mundo objectivo lá atrás - o real - , e a paixão diante dele. O seu pânico derivaria desta comparação. Este ser não gostaria nada da sensação de estar apaixonado; ele saberia dizer perfeitamente do que é que gosta e o que é que quer, mas sempre com o terreno da racionalidade e do razoável atrás de si para poder retirar.
O apaixonado, aquele que gosta de se sentir apaixonado, revela, nesta análise, uma idiossincrasia diferente: para o observador citado o mundo não tem centro, ou talvez seja tão vasto que se possa considerar cada ponto dele um centro – é um mundo infinito em que nada significa nada senão nas latitudes e no quadro de representação que ele deliberadamente escolheu para o esquadrinhar e (isto deveria ele saber) ilusoriamente compreender. Se isto é ilusão cada qual julgue como entender mas, definitivamente, é um mundo tão bidimensional como um quadrado de papel, i. e., sem qualquer sombra. Este mundo tem qualquer coisa de seguro – o controlo, a medida, o proporcional. O mundo do apaixonado é selvagem; é perigoso; nele não se pode controlar seja o que for; tudo é imprevisto, improvisado. O apaixonado não conhece o território, tem a vida constantemente em perigo, é um coelho fechado numa jaula de leões.
O apaixonado veria o mundo tal como o veria o observador mas, ao contrário dele, não o acharia estranho: dir-se-ia mesmo que o ácido que alucina a mente do observador é o estado normal da vida do apaixonado – o mundo estranho de um, é o dia-a-dia do outro. Fundamentalmente, tão iludido é um na sua paixão, como é o outro na sua lucidez, se bem que de maneiras diferentes (é como se a droga de um desse ilusões azuis e a do outro ilusões amarelas).
Que vantagens tem um e que vantagens tem outro? O observador raramente perde: tem terreno para retirar; tem o controlo das emoções; tem a presciência dos movimentos do inimigo; goza de uma boa margem de antecipação e relativiza as baixas. Sente-se feliz por ganhar. Ganhar é mais importante do que a vida e a morte. Viver é secundário porque, aliás, de um modo geral, estes seres não entendem (ou não procuram entender), o que é viver ou morrer. Ganhar é tudo. Entender. Medir. Avaliar. Controlar. Para o apaixonado passa-se tudo diferentemente: o apaixonado sabe bem o que é perder – ele perde constantemente. Para ele não é mais importante ganhar do que sentir-se vivo. O apaixonado goza os prazeres e as delícias de se sentir vivo – essa é a sua recompensa.
Estar apaixonado é como ser o escolhido. O apaixonado é o centro do Universo, ele vive, tal como Cristo na cruz, todos os males (e os poucos bens), que o mundo guardou para si. Ainda que o seu sofrimento seja indescritível, ele é o único no mundo a sentir tanto cada segundo da sua existência. Sobre ele tudo cai, como um buraco negro que não deixa escapar nada.
O apaixonado é o escolhido, ele sabe-se o escolhido contra todas as justificações – ele sabe-o; não o explica. Ser o escolhido não é exactamente como ser o melhor (isso seria relativizar), é mais como ser o único! O que se sente escolhido é, primeiro que tudo, único, só depois, secundariamente, o melhor, o segundo melhor ou o pior, se bem que o melhor de entre os escolhidos é o mais cego perante esta classificação: aos olhos dele, ele, o escolhido será, mais tarde ou mais cedo, o melhor.
O observador sofre por não se sentir vivo, e o escolhido sofre por não ganhar. Será possível “viver” vitorioso sem ser por acaso ou calcular a vitória sem que nos fuja a “vida”? e que aconteceria se puséssemos um pé em cada lado e planeássemos tudo sem ganhar e sofrêssemos tudo sem viver? Será isto real? Surreal? Não. É o mundo dos mortos-vivos: o Inferno ainda é quente e distante, mas para nós o Inferno é já... e tremem-nos os dentes.

(texto de 17/04/2004)

Publicado por Adriano em 01:05 AM | Comentários (0)

Um Suspiro

Tiraste-me da cama já passava das três da tarde. Prática comum, dormi mal e o meu humor não estava orientado no sentido de te aturar. Resmunguei para comigo quando, com dois olhares quase em simultâneo, mirei o telemóvel e o despertador. Bocejei e pensei, a modo de autómato, que não ia atender aquela coisa; afinal se estava com o som desligado, limitando-se a vibrar, era porque prescindia de chamadas. Mas, afinal, se prescindia mesmo porque raio o deixei ligado? Força do hábito, foram muitos anos a seguir a mesma rotina – mas será que acredito verdadeiramente nisso?

Foi após um suspiro que atendi. O número era o teu e a voz logo a reconheci. Foste importante para me levar a atender – muitos são os ignorados – mas o desenrolar de uma pálida conversa não me trouxe nada de novo (acho que, bem a fundo, estamos sempre à espera de uma novidade; desconfio que talvez até faça parte do significado da vida). A verdade é que, embora a tua importância, o que ficou dito foi insignificante; insignificante como quase todas as restantes e anteriores vezes.

Já com o telefone desligado não pensei em voltar a dormir; confesso: é que, mesmo antes dele tocar, eu não estava a dormir. Permanecia na cama no enredo dos meus sonhos, sonhos que teimo em ter acordado embora façam com que com alguma regularidade questione a minha sanidade. Mas no real do sonho também eu lá sou real, é o que importa – vivendo e sobrevivendo a uma vida dupla, sabendo que uma é mentira.

Foi com um suspiro que me relembrei que sou o ‘eterno estudante’. Merda, esqueci-me de avançar com os trabalhos da faculdade. Foi com um suspiro que cortei com o sonho e, já sentado com o tronco debruçado nos joelhos, acordei, agora sim, para a realidade.

Para todos os que sonham.

Publicado por PmA em 12:59 AM | Comentários (0)

abril 06, 2004

É mesmo assim!

Sou a favor que na noite de passagem de ano os condutores que não bebam sejam inibidos de conduzir. Para variar com o resto do ano, caramba.

Tenho que enviar um Projecto-Lei para o Governo.

Publicado por PmA em 12:15 AM | Comentários (0)

abril 05, 2004

'De Visu' ou Por o ter visto

O mundo do Boxe mais pobre.


É notícia: João "O Cacilheiro" Adriano 'encosta' as luvas.

Veritas est.
É com tristeza que o Desporto anuncia a retirada do futuro campeão de boxe de pesos-pesados: João "O Cacilheiro" Adriano, de forma inaudita e inexperada, abandonou os ringues em finais do pretérito mês.

Boa notícia, a única, é que este afastamento não é tido como efectivamente permanente. A todos os fãs deixamos uma palavra de ânimo: O "Cacilheiro" pode ter encostado, mas longe está da situação de 'arrumado'; até breve, João - apela o boxe por todas as galáxias.

Nota do Editor: Não se confirma o rumor de "O Cacilheiro" ter abandonado o planeta em nave espacial, rumo à sua galáxia de origem. Mais, tem-se confirmado a sua presença em ambientes costumeiros; afastada está, também, a hipótese de se tratar de um clone ou sósia.

Publicado por PmA em 01:59 AM | Comentários (0)

O mundo é redondo ou O mito do eterno retorno

Deve mesmo ser!


Curiosamente, parece-me cada vez mais constatar a não consideração que o tempo tem por nós. Desde os princípios dele, do tempo, que o tentam caracterizar: já foi linear, é cirular, será caótico? Confesso, continuo ignorante a este respeito.

Todavia, não deixa de ter o seu desagrado o facto de estarmos em déja vu. Porquê? Não estou aqui para sustentar a tese da falha técnica na Matriz, nem o contrário.
Simplesmente é difícil tomar decisões sobre alguma que nos parece que aconteceu, e até que aconteceu num passado relativamente próximo.
É óbvio o porquê, digo eu. Quando nos confrontamos, temos que lidar ou operar decisões perante uma nova situação (neste caso, no sentido de não repetida, de não déja vu) o nosso comportamente, consubstanciado pelos nossos genes e 'genes sociais', reduz-se a uma espécie de utilitarismo: pelo melhor/ menos mau, pelo prazer/ menor desprazer; Pode, inclusivamente, ser uma tomada de decisão que demore bastante - mas o móbil é e será sempre o mesmo, enquanto nos mantvermos como somos hoje, ie, animais sociais.

De forma inversa, hesito à brava quando olho e digo, em voz baixa para que ninguém censure o meu juízo (no sentido de frase, afirmação/ nível de sanidade mental), "já vi esta treta"; e como a vi sei para onde caminho se tomar a mesma decisão quando o passado era o presente. E devo? Se tenho medo de arriscar, pelo menos estarei consciente das consequências, ou seja, repete-te o passado que fora presente e a esta última condição retorna.
O reverso da medalha é optar de outra forma, decidir de qualquer maneira que não aquela que conhecemos ou pensamos conhecer.
No fundo, o que é pior? Viver o que já vivemos, por bom ou mau que o ajuizemos, ou escolher a via da construção, aquela que nada nos mostra e que teremos que descobrir a cada passo?
Existirá aqui algum equilíbrio, ou nem por isso? Poderei viver com respostas conhecidas e criar algumas situações de/da novidade? Se insiro a novidade não estarei a evaporizar o déja vu por completo? Acredito, em alguma medida, numa resposta afirmativa (afinal não me ocorreu o déja vu naquilo que eu já pensava ser a carreira da novidade e da incerteza?).

Conclusão: vou pensar nisto.

Publicado por PmA em 01:38 AM | Comentários (2)

abril 04, 2004

Pois...

Há dias em que não sei porque é que saio da cama.
Hoje seria, tipicamente, um desses dias...
Porque é que saí?
Só eu sei...
Raios prós avcs ou acvs... que porra!!!!
Resumindo: levantei-me, é o que é. E ainda bem...

Publicado por PmA em 05:39 AM | Comentários (0)