março 30, 2004

Por cá...

Portugal e o seu melhor


Alguém um dia disse “O coração tem razões que a razão desconhece” (ou qualquer coisa em que, basicamente, o significado é o mesmo). Embora não possa asseverar, estou em crer que se trata de uma proposição originalmente francesa.
Ora, a verdade é que quando alguém nos pergunta sobre os seus sentimentos sentimo-nos, para despachar, tentados a cuspir, com uma mão no ombro do pobre desgraçado, o sagrado dito “o coração tem razões que a razão desconhece”.
Porém, nada de mais errado! Como quem não quer variar, exportamos o que é bom e importamos da maior porcaria.
Não é estranho que tenha julgado esta belíssima sentença como francesa, afinal não foi o próprio Descartes, na altiva França, que proferiu “cogito ergo sum”?
Mas com esta propensão para o que é medíocre, lá vamos dizendo - dia sim/ dia não - "o coração tem razões que a Razão desconhece”.
Por aqui esgotámos, uma após outra, todas as edições que iam saindo de uma obra do Luso-Americano António Damásio. É questão para me questionar, passando a redundância, quantos é que leram o que compraram? O homem que apresenta “O Erro de Descartes” infirma, com igual veemência, essa treta da história do coração que tem razões que...
Mas como dizem os britânicos, “look at the bright side of life”: nas estatísticas da Eurostat estamos mais cultos, compramos mais ‘literatura’. No fundo, continuamos os mesmos artolas.

Publicado por PmA em 02:19 AM | Comentários (3)

‘Sete anos remetidos ao Silêncio’

O que mal começa, mal se remedia


Sete anos no Tibete. Foi o título escolhido para um filme. Sete anos, não no Tibete, mas a subir e a descer cordilheiras, muitas das vezes espinhosas, foi a fúria de viver que definiram (mais de) sete anos de vida. Em concreto, os últimos.
Como dois alpinistas jovens, irreverentes, sem experiência, com a desmedida ambição do mundo, foi assim que começamos a trilhar entre vales e montanhas na busca da excitação do pico mais alto; o espírito era outro, o limite antevia-se pouco abaixo do céu. Tal como a chama da paixão, cega-nos e faz-nos agir no limiar do impossível – nada havia a perder e a cada passo dado em frente encontrávamos o sublime da, mais uma, vitória. Era o que nos movia. Nada havia a perder.
Há medida que o tempo passa e deixa uma indelével marca da sua corrosão, também a energia que emanava desses espíritos dos jovens alpinistas se corrói, molda-se à objectividade e ao real. O imaginário apenas se vislumbra como uma chama sem fôlego que parece agora inalcançável. Sete anos (ou mais), percorrendo o mundo e a vida no incessante carrossel do sobe e desce os dois são os mesmos, mas sem serem o que eram. De novo a marca obtusa e obstrusa do tempo: a cristalização; nada mais que a simples cristalização, estado que conquista a irreverência para em seu lugar dar voz à experiência que já não se deixa enganar por armadilhas mal montadas que só quem num estado de ceguez se encontra é capaz de não visionar. Claro, tudo tem o seu preço. O limite deixa de ser aquele ser que, ao crepúsculo, parece mesmo tocar o céu... se ao menos esticasse o braço, quem sabe se não o tocaria mesmo? A consagração do limite opera-se ao nível de alguns passos acima do solo, não fossemos nós correr o risco de engolir o engodo, aquele que agora, com o coração frio estigmatizado por uma chama que um dia existiu, só os seres não dotados pela divina oferenda da razão que a nós foi oferecida engolem sem ver, cegos pela impossibilidade de cogitação, sem o calculismo com que (quase) tudo o que nos aparece como sombrio consegue ser desvendado num segundo; a teia é evitada, o engodo ignorado. Chamam-lhe o sonho de crescer. Somos (estamos) mais velhos. Desde crianças que o quisemos, verdade? Brincamos às profissões de adultos, fingimos realidades que são o real do adulto, que na criança são, à luz do seu imaginário, o que queríamos ser já. Breve ilusão, ainda que perdure alguns anos, pois à luz da ferroada que nos acorda para um mundo onde todos (ou quase) ‘brincamos’ à mesma coisa: porque queremos crescer tão rápido? Para a frente ainda é possível andar, ou pelo menos ir andando; o retorno ao passado é-nos interdito. Ficam-nos enevoadas memórias de tempos que foram e nunca mais o serão, e, mais profundamente triste, toldadas pela percepção de seres que sendo os mesmos já não o são – quais delas, quais destas imagens que nos ficam encarnam a verdade? Não teremos memórias que nos mentem, quero dizer, não há nesta amálgama toda algumas, entre elas, que mais não são do que constructos nossos ‘feitos à medida’, como convém?
As cordilheiras mantêm-se, a vontade... esta é... responde agora a premissas sempre a priorísticas que mais não nos dão que asas de galinha: a ilusão de voar mantém-se pela posse de um par de asas, porém sabemos que não ultrapassam senão aquilo que gostaríamos de fazer mas que nunca alcançaremos: o voo da águia que espreita entre a ravina da montanha, altiva e majestosa; já nos satisfazíamos com o voo do pardal, embora mais limitado, sempre mais bem possibilitado; nós já não podemos voar. Igual a toda a indumentária restante, as asas de galináceo são só mais um pobre adereço que, não percebo porquê, continua a fazer sentirmo-nos grandes.

- 3 de Janeiro de 2004, em publicação póstuma -
(a continuar...)

Publicado por PmA em 12:06 AM | Comentários (1)

La Legion

Muitas vezes me tenho perguntado: que interesse terá a Legião Estrangeira para uma alma pacífica e branda como a minha? Está claro e bem de ver que farei tábua rasa de tudo aquilo que a Legião Estrangeira significa para os outros – eu, com as minhas razões, me tentarei explicar. Como segue.

Penso que talvez um “psicólogo” apressado e pouco arguto veja, nesta minha atracção um instinto sadomasoquista com origem numa irresolvida relação parental; uma neu-rose persistente e rebelde que radicaria nos jogos de poder e dominação do meu pai sobre mim, da minha resistência heróica à subjugação e a aprendizagem dos jogos de bastidores, pela manipulação do terceiro elemento – a mãe: o elemento mais forte do triângulo. Tudo seria o resultado da guerra eterna entre as diferentes vontades de po-der e dos jogos – sempre os eternos jogos – os jogos em que só a vitória interessa e vale tudo para que se consiga sair vitorioso. A desigualdade na arena em que se movimenta o gladiador romano, que luta com feras, bestas, homens e armadilhas, e por fim com a vontade soberana do juiz, assemelha-se em tudo àquilo que pretendo explicar que, se ainda se não percebeu é: na Legião usarei qualquer arma que me torne vencedor.

A vitória. Se penso nisto algumas vezes, outras há em que penso que ela, a vitória mesma, calculada ao milímetro, traçada por um geógrafo no mapa das coisas possíveis, reais, que digo eu: reais – verosímeis, a tal ponto de terem ruído e espaço, de envelhe-cerem, de quebrarem, sem encanto, sem enigma, sem esconderem nada de nada... oh sim, como a realidade é nauseabunda até ao vómito com as suas coisas que se dividem em conhecidas e desconhecidas. Mas que é que eu conheço? O que é que, segundo jul-go, desconheço – há algo escondido que não vejo e algo à vista que não se descobre totalmente? Porquê este absurdo, este paradoxo, de estar sempre a caminho, sempre quase lá, sempre facticiamente real, pesadamente real e irrealmente verdadeiro. Mas, onde nos leva isto? Que penso eu do que serei – legionário? – uma vez que imagino a realidade como reflexo ou sombra, ou, pior (vomito o fígado ao dizê-lo), duplo metafísico... E aqui, confesso, tenho vontade de chorar: tanto esforço para reduzir o objecto à sua essência, expurgá-lo da sua sombra e, quando me apercebo, vejo que a sombra lhe é própria, a sombra dá sentido, o real serve a sombra e a sombra o real, e sem a som-bra não saberíamos o que era isso – o real? Onde quero eu chegar com isto? Não basta conhecer a arte de triunfar, é preciso demiurgizar num palco em que se sinta o “rapport”, em que haja transferência, afecto, insegurança, a neurose do boxeur dentro do ringue: quer vencer, mas não só, quer derrubar o adversário, mas com estilo, quer a-gradar, ouvir urras por servir bem o voyeurismo alheio. Aqui já nos aproximamos mais daquilo que eu pretendo da Legião - “o propósito de existir do boxeur”: uma vitória, uma derrota, um jogo de sombras e o vício mais caro do ser humano: a sensação de “sentido”. Quer fosse um gancho de direita que me esmagasse o crânio ou o massacre indiscriminado de um alvo determinado pela hierarquia da guerra, isto é tudo: sentir-me vivo.

Publicado por Adriano em 12:02 AM | Comentários (0)

março 02, 2004

O repto...

Pedro abandona alcool por um mês enquanto Adriano se prepara para cinco meses de ginásio na prática de boxe.
Não percam os próximos desenvolvimentos...
jab, jab, uppercut - and the winner is:

Publicado por PmA em 02:35 PM | Comentários (0)