Já passa das dez da noite. O jantar, ainda que com pouca vontade, foi consumido. Isso mesmo, consumido. Deve-se à fatalidade do organismo ter necessidade não sei de quantas coisas, fome não havia. Nem fome, nem vontade de comer; que são vontades distintas. A televisão despeja informações a magote, às quais não ligo peva. Enroscado no edredon, importa-me antes o teu calor, a tua pele, ou a pele da tua roupa. Envolvo-te com os braços, os olhos correm-se num fecho para te apreciar melhor, à tua soberba. Enquanto escutas o palavreado e engoles sucessões de imagens. Tu gostas, eu não; prefiro o escuro dos olhos que não vêem para estar contigo, sentir-te. Mexes-te. Remexes. Buscas por posição que te conforte. E a mim que basta sentir-te.
Acordo à noite e não te vejo, não te sinto, a cama é larga; não há calor; a cama tornou-se larga, numa enormidade. Estou habituado, já o estou; sem estar. Dane-se. Não resmungo nem sequer abro os olhos, deve estar escuro. Viro o corpo para o outro lado. Frio, que vive frio por teres ido com a promessa de não regressar. A noite suspira. Ou eu suspiro e digo que é a noite. De queixas a cama não fala. Porque fomos, no sempre por pouco que fomos, um e não dois; de queixas não fala, continua a ser um mas mais pequeno. Busco não pensar, dar-lhe tempo para que – não – pense: a mim. Estica-se a coberta, encobre-se a cabeça, o sono.
Agarrava-te com o todo que era e mais algum, se fosse preciso inventá-lo. Encostando a cabeça no teu colo, vivendo a tua vida no sobe e desce de que respirava. Afagavas-me o cabelo e eu já não era ali, mas no belo duma estória por escrever. Estás-me a magoar. Desculpa, apertei-te demais. Então sorrias. Não que visse, contudo ouvia os teus lábios desenharem-se, os teus dentes num assomo breve, os ruídos do teu rosto que se movia para mais bonito ainda. Está quieto. Tinha bichos carpinteiros, nunca verguei a uma só posição de estar. Chata, entre dentes. E do afago passavas a festa mais firme, beijavas-me a cabeça antes de ir novamente encontrar os teus programas. Ganhavas assim dois minutos extra, aquietado pelos teus mimos.
Que sonho sonhei? O daquela sorte que não bafeja mais alguém. Assim pensam os que tomados pelo enternecimento da coisa pura. Lavo os dentes, todavia incomoda o silêncio do esquentador por usar. Não estás no banho, eu sei. Oiço o silêncio da presença que em ausência foi transfigurada. Ponho a água a correr. Com as mãos em concha passo-a, fria, pela face. Entrevejo ao espelho o rosto, meu, solipsismo árido que bem fica com aquele vazio reflectido. Uma t-shirt ao acaso, calças de ganga que em pé se já aguentam por si, uns vela. Vou ao café, só um café e vou ao duche de seguida. Escuso de perguntar-te se vens. Premindo o botão do elevador, não te esqueças pela enésima vez de ligar o esquentador para voltares à cozinha da casa de banho a resmungar culpas que afinal são tuas. Estava sempre ligado à tua vez, verdade? Afinal, talvez partilhes as tais culpas com o hábito, maroto perseverante.
Levantavas-te bruscamente, como o teu feitio. Voltavas com o hálito de higiene oral; e com o teu cheiro. Reparaste que tinha o corpo mal deitado, torto? Não faz mal, a tua perna atravessava por de cima de mim; deixava ficar, assim, a ti e a mim. Adorava quando o fazias, que era sempre quando não mais, invadido pela sensação daquele inabalável que era ser-te querido.
O sono era-te célere; ouvia-te dormir. Mexia-me devagar, porque importunar-te é que não. Voltava-me para ti que já me estavas de costas; quando não era o contrário, ficar-te eu de costas e tu toda encostada a elas com o teu peito mais o abraço vincado pelo teu sono; beijava-te o ombro, dizendo baixo e suave um desejar de boa-noite, e colava-me ao mundo que te vivia.
Vislumbro ao espelho. O rosto mais marcado. Cabelo húmido, porque o secador estará avariado pelo uso que era só teu, pela falta de trabalhar que lhe dei, pois que, sabes, não utilizo porque não gosto. Especo ao espelho. Besunto hidratante anti-brilho, que dizias serem condição sine qua non, e meio litro de um perfume que escolhi sem ser ao acaso por entre aqueles que enfeitam defronte ao espelho, só os meus na sua solidão; ou comigo e não menos abandonados. Em simultâneo termino de abotoar uma camisa. Com botões de colarinho. Não voltei a usar gravata; nem aqueles nós que fazias comigo sem que a ajuda para os enlaçar fosse alguma vez condição. Botões no colarinho e gravata não se harmonizam, embora não me digas mais que sim concordando. Resta ir buscar os óculos, aqueles de sol que mirei por dias e que me ofereceste sem seres mais minha. Acaba, a fim de recomeçar, da mesma forma: na cama, a repetir uma rotina que não apetece.
“Tu estás só e eu mais só estou
Que tu tens o meu olhar
Tens a minha mão aberta
À espera de se fechar
Nessa tua mão deserta”
‘Canção de Engate’, António Variações
às vezes acho que ja vi um "filme" parecido com este... só tenho pena de não o descrever tão bem :)
Afixado por: Chavininha em maio 30, 2005 07:00 PMIsso é o que dizes; não acredito; há tantas formas de o fazer...
;)
acredita, perderme-ia sempre em pormenores dispensáveis... ou em pequenas "niquices", que ultimamente me enervam... não conseguiria dar a imagem geral de uma coisa que não vi com a devida distancia.
Afixado por: Chavininha em maio 30, 2005 08:22 PMpormenores? São só tudo. Limito-me a abrir a janela e deixar entrar uma levíssima aragem.
(essa distância não vai existir, não vai ser verdade, como o que escrevi também o não é senão numa perspectiva absolutamente redutora)
Não e contrario, so digo que não consigo...prenderme-ia em cores e imagens e as palavras não iam querer sair, quanto à distancia... acredito nas tuas palavras.
Por isso só uma levíssima aragem. Há tanto que é humanamente impossível...
Bem como as formas como os olhos vêem, quase sempre deturpados pela experiência própria,
e que escolhem ver pelo bem ou pelo mal - depende; todavia, não vêem com rigor. (desculpa o sociologismo: mas só fazem juízo de valor porque o juizo de facto lhes é vedado)
;)
Afixado por: PmA em maio 30, 2005 09:27 PMConcordo com o que dizes outra vez. Só ainda n tenho a "saudade boa" (como eu lhe chamo) dentro de mim, para poder ver as coisas em condições. Por isso esperam-se melhores dias ;)
Afixado por: Chavininha em maio 30, 2005 09:52 PMVoltaste ao teu melhor :)
Afixado por: jacky em maio 30, 2005 10:27 PMSaudade boa, Chavininha... é uma expressão deveras feliz; faço igualmente uso dela; há algumas que parecem querer despontar por entre amálgamas conflituosas.
Será, Jacky? Espero que não, mas fico-me pela modéstia. Agradeço, claro, o cumprimento. ;)
beijinhos, as duas
Afixado por: PmA em junho 1, 2005 01:31 AM