Deves pensar que me importunas; com os interstícios que deixaste em mim, cindido para uma eternidade que ensejo ver terminada. Desengana-te, sou eu quem provê o ser fendido que cá mora; amparo-o com alimento, fosse mais nada existir em mim que ele. Porque gosto, porque por ora faz companhia onde o vazio, por ti, se fez instalado; porque a ruindade de nós próprios é calque que torna o sangue vivo, holismo em apanágio ao sentir que somos ser refutando o vão éter do sonho – sou, que de matéria são as coisas mais os entes. Cisão vazia alimentada a visar o preenchimento; ainda que escasso, mesmo que vão. Não me importunas, desengana-te, que os interstícios que habitam tomam-me por inteiro; ou quase – rebelam-se outros poucos de mim que com afinco recusaram o abandono, apátridas que reclamam a virtude de de novo se endonarem por decreto, proclamação ou outro qualquer expediente.
Insinua-se que ocasião e ladrão valem-se em parceria de mão dada. Não há nada para roubar, nada para tirar, mais nada merecedor para levar. Ficaste com o melhor, que era pouco. Deixaste os sobejos que não se te fizeram ao olho, desinteressantes que se te insurgiam; com razão, assim subscrevo. O saque estava dado; o despojo executado em cálculo milimétrico. Ficaram-me as letras e a mania da escrita, que por tão leves que são esquivados se fizeram ao teu escalpelizar cirúrgico. Não foste de modas, reivindicaste o pouco tão pouco de préstimo e valimento. Assim são os parasitas; desengana-te, também eu te parasitei. A vitalidade humana, porém, tem o crédito de regenerar. Nesse interstícios fi-lo – o esparso, vulgar e ordinário, que fiz. Regenerar foi o mote de ordem, entoado por aqueles que certifiquei não se lograrem à renúncia e ao desamparo, garantido que desta feita os ferrolhos se encontravam corridos, as janelas batidas, as portas de trinco corrido: a ti, tanto como para ti. Só das cinzas se presta a fénix renascer; do chão profundo não se desce, antes se torna possível o elevo a nova e criativa jornada num espraiar de digno afloro. E o tal sangue, em original e singela pureza, faz-se sentir de novo na sua obstinação – de vida – quente.
Porém, o estigma é mais matizado – que não na cor, mas sim no realce que lhe provocaste e que eu promovi. Posto a sete chaves tudo ficou; incluo-me e aos outros que vejo e de quem comungo à distância da imposição que – me – ditei. Impera a carência de crescer; aprender; ou reaprender; a crescer; e ser(-te) independente. Desengana-te, prolifero ideias que a ti não favorecem – é só uma parte da verdade, aquela de que agora sou premente; mero reducionismo em conveniência de, para, mim – coisa insipiente de um real vivido impossível ao relato das palavras, mais ainda que agora são acres.
Sabes que digo? Que se dane tudo isto, que com o regenerar se formata o amplexo neonascituro ancorado ao reviver.
"All this frustration
I can’t meet all my desires
Strange conversation
Self-control has just expired
All an illusion
Only in my head you don’t exist
Who are you fooling
Don’t need a shrink but an exorcist
Show me the movie
Of who you are and where you’re from
Born of frustration
Caught up in the webs you’ve spun
Where’s the confusion
A vision of what life is like
Show me the movie
That doesn’t deal in black and white
Stop, stop talking about who’s to blame
When all that counts is how to change
All this frustration
All this frustration
Who put round eyes on a butterfly’s wings
All this frustration
All this frustration
Who gave the leopards spots and taught the birds to sing
Born of frustration
Born of frustration
I’m living in the weirdest dream
Where nothing is the way it seems
Where no one’s who they need to be
Where nothing seems that real to me
What can we build our lives upon
No wall of stone, no solid ground
The world is spinning endlessly
We’re clinging to our own beliefs
Born of frustration
Born of frustration"
'Born of Frustration', James

a tempestade ou a noiva do vento, Oskar Kokoschka
Que tal mudar de registo? Posso encomendar-te um textículo a propósito de saudosismos infantis? ;)
Beijinhos
Lamento, Jacky; mas a resposta é duplamente negativa.
;)
beijinhos.
Afixado por: PmA em maio 25, 2005 05:54 AM