maio 15, 2005

Aconteceres (awakenings...)

A retina quase colada a um estore de cana. Observas o que de lá fora vai, precavendo-te de seres visto – tens vergonha de ti?, não, não tenho. Gosto mais assim, observar a ser observado. Raios partam as análises. Exausto de ser analisado, auscultado, julgado; por aí se deve o véu de ignorância que estabeleces para fora, com o que lá está – com os que lá estão e vivem vidas que pensam livres da consciência dos demais, até do estranho que nunca conheceram.

A orla do mundo é grande demais, só admites pela pureza que nele vislumbras a infinitude entre fronteiras do olhar que o mar te oferece; porque não se ostenta; sabe que o sabes grande e não tem a ímpia vontade de o relembrar amiúde; não é obsceno.
Os prelados ditam que morte é salvação mas é apenas fim; fim do que conhecemos e a que nos habituámos; que não se quer largar. Não é resposta, é sim a vida por complicado que é saber vivê-la. Viver a vida sabendo-o é a exclusiva bem-aventurança que desencontra em argumento e verdade com o fútil orar dos prelados que não sabem do que falam – falar da morte, se nunca lá estiveram; ou dela não crispam quaisquer memórias. Vida sim, eis que esta – e o sabê-lo – é beleza digna da beatitude do belo. A enfatuação por excelência, a excelência.
Isto só porque a orla do mundo é excêntrica, grande demais.

A aparelhagem em blocos queixa baixinho; já lhe estoiraste o comando, foi-se o à distância para restar o digital – contacto mais puro, tocar a matéria ao invés de informá-la pelo ar das instruções que nos apetece; preferia-o intacto a funcionar, ao comando. Tudo onde pões a mão, foste cruel em dizê-lo e sabias, sabias? Outros disseram, contudo outros que não interessam, ou não – me – importava que o dissessem.
Afinal, lá fora não chove nem faz sol. Lusco fusco. Que irritante. Indecisões tem-se de sobra, dispenso acrescentos delas. Pensos moram por cá de sobra, de escoriações mal saradas; mas esse azar é de quem o tem sem pertencer aos ademais que sejam. É de dizer ao tempo que é tempo de estender passadeira ao bom tempo. Ou talvez não, pois que sempre soube decidir sozinho e por si, renunciando registos intencionados dos seres pequenos; efémeros.

A morbilidade, contas feitas, convenha-se, não passa do estado de alma; conceito materializado em mentes; cansadas, talvez, e não doentes por que nula é patologia formalmente aplicável. Uma obra de arte, prima, a mente – que mente a haverá cinzelado?
Encarar como sinónimo morbilidade e essência natural pessimista parece-me erróneo. Erróneo, pois que a certeza não é vincadamente suficiente a fim de asserir errado. Ela é passageira, ou quando o é, afirma-se como potencial em bruto que após trabalho de aprumo garante equilíbrio comportamental; e de atitude. Os estados são exactamente o que são: ritmos conciliavelmente substituíveis, logrando-se de boa maneira uma existência modal medíocre no real vivido.


de ensomme (the lonely ones), 1899, Edvard Munch

Sleeping on your belly
You break my arms
You spoon my eyes
Been rubbing a bad charm
With holy fingers

Gouge away
You can gouge away
Stay all day
If you want to

Chained to the pillars
A 3-day party
I break the walls
And kill us all
With holy fingers

Gauge Away’, Pixies

Publicado por PmA em maio 15, 2005 07:30 PM
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