maio 14, 2005

Industriado

Bucólico. Dia de jogo grande. Como o futebol angaria massas, despersonaliza individualidades. Tenho o meu de eleição, um clube, sem saber porquê; ninguém sabe, é irracional: é-se e pronto; por isso se diz poder-se mudar tudo menos as cores por que se irá torcer até ao fim. Ao contrário de muitos, prefiro ver um jogo, quando os vejo, junto de gentes das duas sensibilidades; ou mais, se se proporcionar. Tem mais piada e existe uma rivalidade sadia, raramente me aborreço por causa de um jogo; ou por causa das sensibilidades, quanto muito por determinação do desempenho dos jogadores ou da sorte que nem sempre bafeja quem merece. Hei-de ir ver o jogo a algum lado, porque sozinho é que não – nunca achei graça em ver vinte e cinco tipos ofuscados por uma bola sem ter com quem comentar, nem que seja as novas tendências de cabeleireiro do jogador da bola (enquanto estereótipo). Contudo, não sou naíf nem desinteressado: que ganhe o melhor é chavão que não aplico – que ganhe o meu, dane-se se melhor ou pior.

Bucólico. O sono ainda me ronda, manhoso; e ontem que não houve noitada... Só mesmo um sono que se passeia pelas margens de uma consciência, sem se aprofundar. Já acordavas, pá. Já abrias a pestana. De vez, sem sono a amanhar limítrofes de ti. Pois, para quê? Preferia ficar enroscado contigo, em ti; no ninho. Contudo, há muito que cessou de existir. Porque teimas? Tolice, essa é que é essa. Acordavas. De vez. Ser-te-ia mais útil, bem mais útil. A culpa, apontas, é do consuetudinário que julgaste haver-se tornado obrigação; coisa adquirida. Até o adquirido finda. Findou. Tens um pé numa galera e outro no fundo do mar, é assim que o Palma canta Portugal. Enquanto nada fizeres ninguém te vai ajudar, prossegue – ainda que fatalista; desprezo fatalismos, não lhes tenho respeito, quero não crer-lhes.

As extremidades nervosas, e com elas os músculos, demoram em responder aos estímulos e às decisões manifestas que passam pelo SNC. Que chata e aborrecida, esta sonolência que torna corpo e alma dominados pelo dormente. As próprias ideias são de parto tardio, acomodadas, esquivando-se a sair, entre um ou outro grupo de neurónios. Hoje posso tirar sem receios a porcaria dos óculos de sol; que ninguém lerá dos olhos, que nada têm para contar. Síndrome de domingo, digo que é aquilo que isto deve ser. Tretas. Sabes ser pasmaceira, do pasmo a que te tens rendido porque não existe um porque não. Onde está o capitão para ditar o rumo ao homem do leme? Com certeza que também dorme, ou dormita por debaixo de uma sombra algures na proa embalando-se com o ondular de um ameno azul; e um copo de rum, com pedras de gelo, que garrafas é coisa do antigamente – ou em cenário com uma twin, à pós-moderno, sem álcool para cuidar do corpo.

Espero que o jogo aconteça no tempo de um sopro, para que as pessoas retornem; para que se destituam do amorfismo de massa e readquiram os seus carácteres próprios. Aí acordo, a letargia flui para o insignificante, a vida volta a ser bombeada e as gentes a ser gente. Como tantos e tantas vezes terminam com frases fáceis, sugiro-me que os há assim: definitivamente, há dias assim. Industriados por nada, existindo porque têm de existir.

:P

Mit und Gegen (For and Against), Wassily Kandinsky

"Take a drug to set you free
Strange fruit from a forbidden tree
You’ve got to come down soon
More than a drug is what I need
Need a change of scenery
Need a new life

Say something, say something anything
I’ve shown you everything
Give me a sign
"

'Say Something', James

Publicado por PmA em maio 14, 2005 04:11 PM
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