Olha para o relógio, displicente. Nem lhe ocorre o porquê, talvez para queimar alguns segundos mais. Sente-se cansada. Não de corpo, moída ao invés na disposição. Ainda de cabelo húmido, desloca-se lentamente para o guarda-fatos em busca de algo rápido para vestir. Continua a estar demasiado sol, o que quer dizer que lhe resta bastante tempo. É uma terça-feira, porém goza de dia de folga. Só mais para a noite se encontrará com Samuel. Ao longe, surgem recordações subtis de Miguel, realçando-lhe um sorriso lânguido, por mole, que a espontaneidade não permitiu conter-se-lhe. Águas passadas não movem moinhos: uma blusa leve, calças de sarja, uns snikers... o salva-slips, quase esquecido; praticamente completa, a indumentária. Onde pára a merda do secador?, em pensamento, passando os dedos, em pente, pelo cabelo queixoso.
Miguel foi um sonho bonito; ou mais que isso, ainda que agora condenado a não mais ser que tal coisa. O coiro cabeludo reclama-se num sentir de queimado; urge a pressa em secá-lo, ao cabelo, que bem mais há a fazer. Num espelho de corpo inteiro, vislumbra-se; em tempos não fui assim, estou mais cuidada, todavia o desaprumo com o estilo de vestir acentuou-se – de si para si assegura, com as retinas a percorrerem o seu reflexo. Acrescenta – que me pesa mais a idade, o rosto está-me mais marcado, como se o acordar viesse todos os dias cansado. Ainda posa o sol, ainda tem tempo a sossobrar (de sobeja). Miguel, que estranho sonho. Miguel, lembrá-lo agora que à esteira de Samuel... complexos – à la Freud – desígnios, os da mente. Por dentro sacode os ombros, a vida é antes de tudo continuação. Há quanto tempo não lhe falo, não nos falamos? Afinal, foi por decisão dele que, ainda por cima, me limito a respeitar – sossegando-se. Esquecer sem permitir que as memórias se esgotem em vazio. Como é isso possível. Era o que desejava. Agora, ao menos. Miguel fora-se, acabara, e a sua vida seguia inexorável continuação.
O sol tarda em pôr-se, em dizer adeus, com até amanhã, pelo horizonte. E Miguel, que não querendo apartar prossegue nos circuitos psico-neuronais; chato, Miguel; porque vens quando não deves?, porque não vieste, não estavas, quando devias?; agora é tarde, Miguel, compilo-me a deixar-te, abandona-me; abandona-me tu que, a lembrar-te, sempre me respeitaste: respeita-me agora, distando-te para outras paragens; está bem, Miguel? Sei que não me ouves, não importa, que sei que ainda me sentes; como queria que me esquecesses, Miguel; como já te esqueci em tanto, com a boçalidade de coisa fácil. Não te iludes, não foi – e não é – nada fácil; mas tudo prossegue, percebes?
Esguia e ágil como sempre, querendo enganar os anos e pesos de emoção-razão que contam, espevita-se de fora para dentro; fora de casa, fora do prédio, fora de pensares que perturbam; dentro do carro, de um novo percurso: Samuel. Merda – em exclamação e alto para um ninguém que a ouvisse, nem as vozes da rádio. Merda, porque quiseste, depois do irrevogável, porque quiseste e esperaste mais do que seria capaz de te dar? Não seria justo, para ti – convencendo-se, sentença tão precária como havia exposto na necessidade de um merda em tom alto, sozinha, buscando aflitiva e inconscientemente que a tivesse escutado; não escutou, não irá escutar. Merda, sempre foste melhor que eu, quantas vezes to disse?, porque me aguardas então? O rádio diz everybody’s got to learn sometime, anuindo ela sem se dar conta.
Samuel, por fim. O pesadelo que atormentara a tarde privar-se-á de sentido. Duas bocas unem-se. Olá, querida – diz uma boca e uns olhos dissociados da outra realidade. Sorri. Ama-a. Todavia não deixa a casa, que o filho fala mais alto – como arremata incondicionalmente, a qualquer aprochego doutras finalidades. Estende os lábios, intuito de desenhar um sorriso. Mas não consegue verdadeira manifestação, esquiva-se-lhe pelo peso de uma tarde – há muito não tão – mal ocorrida. Há-de passar, a confiança ressurgirá triunfante e a memória ofuscada pelo estar quem agora, com a força que a presença física confere, a acompanha. Esquece-se Miguel por ser daquele cantinho do que já foi; presente, contudo tão só no álbum das recordações que a sete chaves se gravam e guardam numa gavetinha da cabeça.
Mãos tocam-se, finalmente entrelaçando-se. Uma última alusão a Miguel, que ainda bem que cá não está – sugere-se; afinal, a vida é uma tremenda continuidade. Bocas que se reúnem noutro encontro, línguas que conhecendo se vão reconhecendo. Rápido, que os dois juntos numa cama só por umas horas. Samuel regressará a casa, que o filho fala mais alto; como as mentiras em que gostamos de acreditar.
Outro banho, outro dia passado; cheio de ti, cheio de Samuel. Porque te disse, Miguel, que nada valia? A toalha circunda um corpo esbelto que se esquivou a máculas – somente num joelho, diz-se em brincadeira – e o leito, o dela, aguarda um repouso que não se queria terminado.
Desta feita, no happy endind; ou não acontece, por ora – só a alguns, entenda-se.
;)
Desencontros...
Afixado por: jacky em maio 12, 2005 11:29 PMQue querias, moça? One miracle - or more?
:P