Combináramos encontrarmo-nos; outra vez. Não me apeteceu, baldei-me – não tive coragem ou sequer me apeteceu, tanto faz. Talvez pela atitude, minha, cresceu-me por ti algum rancor; provavelmente por mim na mesma medida. Não raro desapontamo-nos connosco, logo, funcionando em moldes de arrasto, com os outros. Hoje, nota-se, o dia acordou-se-me cinzento.
Acontece viverem-se dias em escalas de cinzento. A cor é subtraída da realidade, não envolve nem acaricia por simplesmente inexistir. E sente-se o sabor de ser-se pária num espaço-tempo que não nos quer, órfãos de ascendência e descendência – como ser órfão de descendência? Aguarda-se, irrespondido como o habitual, pelo homem novo que um dia foi prometido. Ilusões, uma ideia abstracta ainda não parida para o real concreto.
Sei que deixaste mensagem de voz na caixa de correio do telefone; contudo, lá permanece sem que a escute: é deixá-la estar, pouca importância tem. Esquizóide?, alguém te pergunta movendo-te para a estupefacção. Sorri-se. Conhece a resposta, vê o não que lhe abeira os olhos. TMN, tem uma mensagem nova, para logo interromper a chamada; mais tarde, bem mais tarde. O portátil é tão somente uma extensão de partículas do teu pensamento, e assim a ideia de fazê-lo tratar a parede por tu esvai-se. Para quê transferir, em linguagem filosófica dos psicanalistas, em outrem – ainda que objecto – as frustrações que provocam o senso? Liberta as tensões, designam os pródigos doutos do alto das suas doutrinas.
Apetece inquirir, em veemência, se alguém encomendara sermão. Eu não, certamente. Cansa-me, a moral; certas morais. Porque fala quem não sabe? Pois que sentem a legitimidade, um impropério alvado no que de tanto supõe existência redutora – enforcing the law, social control, disparatariam os alvitreiros americanos: mas a expressão esclarece, dissipa a dúvida evadindo-se ao disseminar de diligências a promover desvios. A integridade da norma, Deus na Terra, entalha-se inviolável.
Escrúpulos duvidosos, ainda que nobres as intenções. O pós-moderno é individualismo e individualidade: vivamo-lo ou não, por ideia algo absurda que é, haverá quem não tenha percebido? A esfera privada pretende-se inviolável...
A solução, uma delas, digo eu, é bem sabida: aquela que preserva a inviolabilidade do profundo do ser. Executá-la, não aprazaria fazê-lo; fi-lo uma vez e não lhe guardo ressentimento, inclusivamente de cada vez que a pondero mais certezas se cristalizam em certeza – absolutamente confiante. E vêm sugerir quão radical se pode ser... Com aparência soturna e decidida, mesmo complacente, informa-se o exterior que também ele pode decidir. Já não se é criança, ninguém obriga a ingerir sopas nem outros pratos; pode-se asserir firme eu não quero. Já se é grande, aptos a determinar escolha tão bem quanto decisão. É o que faremos, queiramos ou não, a continuar uma ética abjecta ou praxis de desencontro manifesto. Quanta futilidade...
O que há a perder, quando se perdeu o que havia a perder – até dignidade?
“Anda, vem comigo
Esquece tudo isso
Podemos ir até ao mar
Sem pressa nenhuma de chegar
Deambular pela areia
Contemplar a lua cheia
Se não quiseres falar
Não te vou perguntar nada
Iremos a caminhar
Até ser de madrugada
Pela noite em silêncio
E quando já for
Tão tarde e tão cedo
E o mar não tiver mais nenhum segredo
Então regressaremos”
‘O Canto da Sereia’, Entre Aspas