maio 10, 2005

Beauty (Falar Por Ele... #2)

Palavras acusatórias. Que o melhor guardava para outros, para os outros. Bem sei que é verdade, nalgumas coisas que dizes. Que queres? Pensei que o melhor era para ti, tamanha era a minha certeza; tamanho igual que o pior também, não sobram dúvidas. Oferecendo o melhor garantimos que havemos, não com o querer, de embrulhar o pior com a dádiva. É a rotina, é do quotidiano. Devias saber. Todos sabemos. Pode-se esgueirar à vontade de saber, mas ela apanha-nos e sabemos; todos, sem excepção. Sabemos, deixa-me que te diga, porque reflectimos os outros, o espelho para que tenham imagem – e quem, não enfermo pela demência, não se conhece; um pouco, ao menos? Não te mintas, que eu, a mim, também não. Fá-lo-emos sem mentiras; uma vez.

Desleixava-me, dizias num tom cortante; como se o resto não valesse, importasse. É culpa do mau hábito de bem nos tratarem, desde petizes. Melhor, é culpa nossa que criamos, alimentando o seu voraz apetite sem balanço, o hábito. Esse mau hábito. Deglutimos encerrando os sentidos, encerrando o valor aos sentidos. E depois – é tão óbvio, digo-te eu – como dar valor ao que de valor foi desprovido? Não comeces acusando – eu fiz o mesmo, não desdigo; e tu, petiz vocífera? Esqueçamos acusações tolas, impróprias, descabidas de sentido de tempo, de espaço, de sentimento. O meu propósito é falar-te, não a argumentação que nos faria diminuir em humanidade – da, se calhar tão pouca, que nos resta.

Fazias-me sentir melhor do que era e do sou em que me tornei. Tinhas esse dom. Em ti, de ti, cresceu apenas um medo porquanto mais te queria – antes de te deixar de querer, por aqueles segundos. E foi esse único aquele que exactamente se consumou. Perdi-te. Não foste tu quem me perdeu, nem por um instante, porque eras maior que isso; fui eu que persegui, exaustivamente, o meu medo e que te perdi – como me podias perder se és o ganho, a valia, que não conheço quem mereça; sim, portanto também eu não.
Fomos homilia condenada à danação. Por mil vezes cumpriria pena por ti, escusando-te a um inferno que agora se vive na vida profana. Contudo, à ressalva do teu valor não acontecerá tal cenário – vales-te por ti, e agora a pena que (me) resta cumprir é apenas a minha. Por não te ter sabido ter. Por ter de te perder.

O fumo do cigarro sobe em frente à face; torto, sinuoso, desajeito mas imparável. A apatia esmiúça o que restava dos sentidos. Não sei se olho as nuvens claras ou um dia de noite. Só um braço firme, objecto estranho e exterior, a poisar num ombro volta a convocar o real. Expele-se o fumo, inspira-se ar num ímpeto demorado, os olhos acordam; depois volto a falar-te, talvez.

Publicado por PmA em maio 10, 2005 01:36 PM
Comentários

As perdas nunca são unilaterias, Pedro. Pensa nisso :)

Afixado por: jacky em maio 10, 2005 05:34 PM

Depende. Mas quase sempre quando se perde, não se perde de maneira isolada - ainda que possa parecê-lo.
Falta 'ela'. Vamos ver o que diz no seu #2.
;)

Afixado por: PmA em maio 10, 2005 05:57 PM