maio 06, 2005

Entrelinhas

É o segundo verão sem ti, esse que se aproxima. Apesar dos céus terem sido límpidos, não raiava o sol, escondido pela minha cortina de penumbra; brilhavam as estrelas, pela noite, pelos céus límpidos a augurar que o próximo, o que agora se chega, viria quente abrasador – solarengo e igual a outros que vivi e vivemos. Aconteceu assim pelo último que se passou: ou terá sido o outono a chegar mais cedo, a ser mais longo?
Este ano é diferente. Consigo já perceber o cheiro do sol que há-de inundar os dias, aclarar a sua quota das vinte e quatro horas, a preencher quotidianos. Sabes, nos asilos de há cinquenta anos, nos asilos para os dementes de espírito como fui, haviam horas destinadas a banhos de sol; e onde e quando este não vivia com intensidade, então diziam-se banhos de luz. É aquela questão da luz ter sobeja intervenção a nível psicossomático, compreendes? Durante muito tempo foi paradigma dominante; ainda hoje, com prozac e companheiros de luta afins, não se descura essa assunção.
Este verão, esse tal que o vou cheirando para além da distância, retomará conciliabilidade com o disco que veste amarelo. Será, mais que somente estar, será sol.

As fugas para a Arrábida, para a Costa, para a Linha estão já a tecer-se em construção mental. Para mais longe, que igualmente o pode ser, havendo sol e mar. É claro que as águas geladas da Arrábida, do Portinho, sabes?, são especialmente queridas; talharam-se aí memórias que em tempo que viva se irão nunca furtar – uma que recorre impertinente, faz-se aflorar para além da vontade. Mas o queixo, esse, não cai: hirto, que o quotidiano, sem que interviesse eu em maneiras manifestas, o ensinou.
Se é verdade que os óculos de sol não voltaram a abandonar-me a face, escondendo quem possa ler dos olhos a alma, surpreender-te-ias – surpreendo-me – com a determinação eclodida das entranhas. A necessidade de procurar, indo ao seu encontro, o aconchego da Arrábida é soberba; soberba necessidade, mas pelo que gosto e que não pode ser encerrada na redutora ideia do saudosismo. Lembras-te, perguntavas-me se estava triste. Sentado, pernas entrecruzadas, mãos na areia meio molhada, a contemplar num aparente vazio os confins do horizonte. Não, não estava triste. Preenche-me esse contemplar, assim posto sobre areias, embrenhado na linha de horizonte e nos mistérios que lhe imagino, existam ou não – faz-me sentir grande e pequeno; importante quanto fútil; parte que integra uma beleza que é tão maior que aquilo que ousamos imaginar.

Agora sinto as pulsações, ritmadas por aquela máquina de quatro quartos, e sem medo delas: imponentes, fazem-me sentir vivo, dão-me prazer, prazer que contraria receios pretéritos. Uma lascívia egoísta, de quem – sim – acordou. Uma lascívia egoísta de quem nota a seiva vital que corre, num labirinto de canais, por dentro. Seiva vital que desperta, que obriga ao grito mudo de quem quer cá estar; em experiência, experiências, que estar não chega por tão estático que só estar o é. Beber do quotidiano, beber dele que é pai e mãe do extraordinário, do diferente, do extático; da novidade, do movimento de mudança.

Com óculos de sol sem arredar, sim. Com pulcro dar conta de sentir-se vida – vivo – pelo próprio, também – essencialmente.
Seda branca.


Nights in white satin,
Never reaching the end,
Letters I’ve written,
Never meaning to send.

Beauty I’d always missed
With these eyes before,
Just what the truth is
I can’t say anymore.

Nights in White Satin’, Moody Blues

Publicado por PmA em maio 6, 2005 07:41 PM
Comentários

Há-de haver um dia em que os óculos de sol já não vão ser precisos...

Afixado por: jacky em maio 6, 2005 09:40 PM

Talvez para aquilo que foram inventados; e não exacerbam a sua função.

Beijinhos,

Afixado por: PmA em maio 7, 2005 05:03 AM