abril 27, 2005

Falar por ela... (e #500!)

Em tentativa de resposta ao repto da Jacky.

Um bar – ou qualquer coisa – calmo, como sempre. Ou como sempre desde que me senti crescer verdadeiramente. Junto à Estrela. A visão daquela basílica preenche-me. Melhor... nem sei bem, não sei ao certo. Grande, enorme, confere-me aquele aconchego materno que em criança me escasseou. Grande, enorme, demasiado bela e significante; assim me sinto pequenina, um minúsculo pontículo numa espécie de ordem que me transcende. Adoro-a por esses significados ambíguos que me acalentam o ser, fazendo-me sentir (n)uma plenitude de vida – que outro qualquer objecto é incapaz de transmitir; menos ainda eles. Homem – homens! –, animal errante que me faz questionar se realmente pensam: se alguma vez ponderam a sério; o que fazem, o que são.

Sou retirada da abstracção, as minhas companhias exigem presença: a minha. Sorrio, como que numa desculpa pueril justificando por que não estava ali com elas. A Raquel olhou-me de lado, enquanto a Sofia matraqueava com a língua uma sucessão de palavras: a verdade é que não tolerava o silêncio; bastavam-lhe alguns a que se via coagida e nós, naqueles momentos, éramos uma verdadeira terapia para ela. Com um dedo, a Raquel recoloca a armação no sítio. Olhava-me agora como se visse melhor. Realmente, desde que usava óculos que sugeria aos outros uma seriedade que lhe faltava; não ficando por isso menos bonita – é um ponto que lhe invejo, julgo eu, ditando esta sentença da mediania do mediano em que me considero: nem boa nem má, nem bonita nem (muito) feia.

Instalei-me mais confortavelmente na cadeira, por muito que isso depois se manifestasse nas minhas constantes dores de costas. Esperei que ambas serenassem; depois, depois voltaríamos às conversas banais. Suspirei por dentro, não pretendia atrair mais atenções da Raquel. Aproveitei uma falsa tentativa em compor o relógio, com bracelete a dar duas voltas ao pulso, para me confrontar com as horas. Nem tarde, nem cedo; mas sentia-me exausta por mais um dia de trabalho, da voz da directora a berrar pelo habitual incumprimento e desrespeito dos timings de edição; afinal, tudo acabava sempre por ficar pronto nem que fosse just in time, mesmo à justa.

Ao balcão sentavam-se quatro bichos homens. Todos diferentes, pelo fato e gravata escuros que um envergava; pelo fato mais ordinário – bem como a gravata (meu Deus, que gosto!) – de outro; o blazer bombazina e calças de ganga carcomida com uns vela Timberland do terceiro; das calças verde-oliva à la marine – como lhes chamo (aquelas com uns trezentos e tal bolsos laterais) – acompanhadas por uma camisola de algodão de decote em ‘V’ e de uns Airwalk última geração e bem mal-tratados, do último.

Pediam sempre o mesmo. Conhecia-lhes as rotinas: café e ‘pedras’ fresca para o senhor gravata-seda Façonnable, na pior das chances uma David & Monteiro linha branca; um café, a que seguiria uma imperial mista, para o senhor gravata Business, que na melhor das hipóteses fazia vez com uma ou outra Wesley – pareço fútil a ordenar assim por ‘marcas’, mas a verdade reside mesmo no mau gosto deste último em escolher qualquer, mas qualquer peça de roupa da sua ‘espécie’; também o senhor Airwalk pedia café – não saberão variar, estes bichos? –, ao qual, por vezes, fazia acompanhar um brandy aquecido. Conhecia estes três; também a Raquel; a Sofia nem tanto, limitando-se a devorar, alternando, um ou outro – ou dois ou três ao mesmo tempo – com os olhos.
Ao número três nunca o vira. Na verdade, o nosso mútuo conhecimento não extravasava aquele espaço.

Ao ouvir se tinham chá flor-de-lótus não resisti a olhar pelo ombro, mantendo o devido cuidado que as aparências exigem. Pois, pode ser então de canela e menta: em resposta ao não e a um só temos de (rol), vindo por detrás do balcão. A curiosidade voltou-se a despertar-se-me, olhei novamente; e ele viu-me a olhar; e sorriu; normal, não matreiro, não apelando ao tão fácil sorriso de pseudo-engate que deve estar embrenhado algures na genética masculina; voltei a cabeça, depois de retribuir como se fosse normal, uma qualquer trivialidade. Senti o rubor a subir do peito à face; que tolice, disse-me sem manifestar qualquer som. O rubor, esse, continuava – teimoso; e o estômago desenhava agora um nó. Foi a primeira vez que o vi. Não me voltou à mente pelos dias que se seguiram. E a Sofia... bom, a Sofia lá comia com os olhos – nem as desaprovações ditadas pela postura da Raquel – que idolatrava com um amargo sabor de ‘inveja’ – a demoviam de o fazer; descaradissimamente!

Vi-o outra vez num outro dia. No mesmo dia da semana, pensei. Às quintas, vem às quintas, concluindo como se houvesse executado brilhantemente a mais complexa das equações. Decidira que, de futuro, passaria a usufruir da vista da basílica todas as quintas; pelo menos enquanto mo aprouvesse na moleirinha. Não voltei a estar desprevenida, escapando-me com arte às cadeiras que colocavam as costas voltadas para o balcão. Serenamente – embora, sem paradoxo, com estupenda avidez –, iniciei o roteiro das descobertas. O físico. Nem alto, nem baixo; nem forte (gordo), nem magro. Igual a tantos outros... porquê então esta necessidade em descobri-lo, pouco a pouco? O seu estilo sempre inalterável, roupas diferentes mas que se diriam saídas do mesmo molde: variavam cores, traços ou estampa por quadrados, bombazina por aquela camurça pele de pêssego em que apetece, sensação inolvidável, encostar a cabeça e roçar as unhas – o estilo, a trave mestra, por assim dizer, mantinham-se conformes; ficava agora curiosa por conhecer aquela pessoa, provar a sua personalidade. Provar... há quanto tempo não pensava esta palavra... provar... Tão pueril, e tão maturada agora na minha pessoa.

Atraiam-me os seus gestos, calmos mas decididos. É difícil explicá-lo; seriam mais ou menos de grande ternura, que todavia escondiam uma robustez de pessoa. É estranho por em palavras o que se sente, ainda que mais estranha seja a busca por fazê-lo. Contemplando-o percebi que teria de o conhecer. Afinal, se ele me sorrira ir-se-ia a recusar-me conhecê-lo? Dúvidas, dúvidas... Não sendo a oitava maravilha do mundo – talvez até o contrário! – sou determinada, sabia que nada me faria inverter o sentido. E quanto mais o olhava, mais precisava de o conhecer para além do que transmitia a sua linguagem corporal. Recordo-me, por exemplo, da forma como era trapalhão ao andar; o que lhe conferia, aos meus olhos, uma graça adicional. É possível gostar-se sem conhecer, isto é, gostar-se e pronto?

Sexta-feira, uns dias adiante. Uns bons dias adiante! Conhecêramo-nos. Na tosca, e martelada à pressão, primeira conversa que partilháramos, havíamos descoberto ter em comum o gosto por um alguém que iria actuar no Estoril, no Casino, naquelas salas onde são os concertos íntimos. Não exagerei na produção – só numa coisita aqui e noutra coisita ali, mas pouco –, dado que quero que me queiram pelo que sou; ou por quem sou, sei lá. Claro que o meu coração pulava mais rápido do que aquilo que me consigo lembrar por entre entes passados. Criança para mulher; ou mulher para criança? Não nos dão um livro que explique isto: nem nos inúmeros anos de escola, nem no trabalho onde passamos mais do que devíamos em tempo. Deixei-me relaxar – numa calma aparente; mas que convencia, ou não fosse eu conhecer-me. Tentava inalar cada palavra que lhe saía, quase sem ruído e em tom mais grave que o corriqueiro, daqueles lábios em direcção a mim. Finalmente compreendi que a voz lhe tremia também, acusando o toque da sua insegurança.

Estava com sono quando o deixei à porta de casa – mulher de armas sabe conduzir (nem que seja só o suficiente!) –, causa de muitas birras que me nascem sem outra razão. Ainda assim, senti-me tremer, de alto a baixo, de fio a pavio, quando me afaga os cabelos dizendo qualquer coisa que nem me dei ao trabalho de perceber. Convida-me a sair do carro, a acompanhá-lo a casa, já que era, nas suas palavras, coisa que as mulheres raramente faziam. Guiada pela graçola, acedi com um aceno de cabeça e uma porta a abrir. A custo saí do carro – nunca hei-de saber ao certo se cheguei a tirar a chave da direcção –, mas logo fui amparada por uma braço que me envolveu. Sussurrámos algumas palavras, uns risos abafados; e o silêncio junto à porta do prédio. Olhávamo-nos toscamente, parecendo a primeira vez que víamos aquele olhar, os olhos dele – ele os meus. Custava-me mais a respirar, ouvia o oxigénio a ser inalado e expelido; forte, sem a cadência tão bem ritmada do costume. Senti o seu sopro, o calor do ar que a ele saía por entre lábios. Não fechei os olhos: queria vê-lo; sim, vê-lo, a ele. Suave, encostou os lábios aos meus lábios: que o aguardavam; e quanto – que o diga aquele espasmo que percorreu toda a minha coluna. Tinha-o beijado, beijado aqueles lábios tão doces quanto fofinhos. Pouco mais faltava, naquele momento, para me ver às portas do sétimo céu. Abracei-o; correspondeu – firme, mas com uma ternura que não consigo descrever. Conduziu-me no torpor de todo este êxtase à porta do meu carro, que abriu sem que desse conta e enquanto as nossas línguas se iam explorando mais profundamente. Não me hei-de esquecer do derradeiro beijo que antecedeu a entrada no rodinhas; segurou-me a cabeça com ambas as mãos, beijou-me a testa demoradamente, terminando a dizer ‘boa noite, doce’. Fechou-me a porta, sorriu com ar de puto traquina, cruzou com os braços, e em aperto, o seu peito e apontou para mim. Foi a primeira vez que disse ‘gosto de ti’, sem ter que usar a boca para isso.

Dei-me conta a sair do trabalho apressada, correr e tê-lo comigo, para mim. Aos poucos, tornava-se habitual vivermos todos os dias no seu confortável T2. Uma sala pequena e aberta, por obras que quisera executadas, para a cozinha – fundindo-se numa espécie de um só espaço. Um quarto inteiramente dedicado à sua extensa biblioteca, uma secretária disposta em ‘L’ onde, no meio de tanta confusão que só ele percebia, morava um portátil que parecia destinado a estar sempre ligado e ainda um desses monitores fininhos cuja função, porquanto ele explicasse, me passava ao lado – chamava-lhe o seu santuário.
Mas o espaço que mais gostava era sem dúvida do quarto onde dormia, no qual tinha a única televisão da casa. Era naquele quarto que me aninhava ao seu corpo, que aprendi a arranhar-lhe as pernas quando ligava mais à televisão ou ao dvd do que a mim. E adorava ouvi-lo resmungar, que já tinha as pernas num estado lamurioso e isto e aquilo e mais que também; no fim, acabava por rir, trepar por mim e beijava-me intensamente. Se ainda tínhamos roupas vestidas, era ele quem tratava de as tirar: a mim e a ele. Achava-lhe uma profunda graça, era extremamente mais capaz em destituir-me de toda a roupa do que a ele próprio: mais uma faceta do seu jeito trapalhão. Trepava-me para cima, olhava-me com olhos sérios que fechava para me dar um beijo melado nos lábios; e demorado. Dir-se-ia que me começava a provar; e eu a ele. Mordia-lhe o lábio de cima e só o soltava quando o ouvia suspirar, como se sentisse o prazer que viria. Tinha arte e eu rendia-me a ela com todo o prazer: despia-me da roupa para cima enquanto me beijava, lambia e mordiscava o pescoço – e eu mordia o dele, excitando-me senti-lo excitado; depois de contornar vezes e vezes o meu peito com as mãos, passava-as para baixo da cintura para me ter completamente despida de tudo o que não fosse eu. Arranhava-lhe as costas, largas e bem constituídas e absorvia-lhe cada cheiro: cabelo, pescoço, ombros, peito... aquele peito... e aquela barriguinha! A ele despia-se à bruta, quando não me deixava despi-lo, desajeitado, deitando para longe as peças de roupa que tirava de cada parte do corpo. Percorria-me, então, as formas, que eu dizia demasiado redondas – rechonchudas – e que ele teimava em contrapor que não, com o calor húmido da sua boca. E eu adorava depois inverter posição, trilhar-lhe ao de leve os pelos do peito, roçar-me na barba sempre mal feita devido à preguiça em aprumar-se nesse assunto; encostar a testa naquela barriga sempre quentinha e sentir que o desejo por mim aumentava nele a cada toque dos meus lábios, a cada roçar da minha língua.
Reconhecia-lhe todos os cheiros; reconhecê-lo-ia para sempre enquanto pudesse cheirar.

As pessoas são tontas. Eu sei, melhor que ninguém. Esquecemo-nos, no ponto em que estamos tão felizes que nos recusamos a pensar, que nem tudo são rosas: que estes mares também têm espinhos. Não quis acreditar à primeira discussão. Nem à segunda. Só quando ele quase me fechou a porta, que eu só via os meus desejos, que também ele existia e era dotado de vontade. Foi a reviravolta: aquele ser que tanto amava tinha também duas faces, como Eva. E não poderia tê-las? Deixamos de nos ver por um tempo, por acordo mútuo. Sabíamos não ser solução, ou melhor, sê-lo-ia se nada fizéssemos que alterasse aquilo em que nos tornáramos. Não, recusava-me a tê-lo só como uma parte: ou completo ou não valeria... Completo, percebem? Completo não quer significar exclusivo meu em tudo: mas sim que o desejava de corpo e alma.
Sei que me ama, mas que eu não o deixo viver... é tão forte, não deixá-lo viver. Não acredito nisso. Não pode ser verdade.
Decidimos que iríamos tentar, cedendo aqui e ali: não existimos para nos castrarmos, mas para nos completarmos, percebes?, disse-lhe um dia. Acenou que sim, acedeu; e eu também. Porque o amo; e ele a mim.

Cometi um erro: crasso. Deixei-me apaixonar não por ele, mas sim pelo meu ideal.
Aprendi que devo voltar a tentar: devo-me e devo-lhe isso. Olhando para ele, sem nunca deixar de olhar para mim; não permitindo porém projectar-me no outro, deixando-o livre como eu sou; uma liberdade de que nunca abdicaria. Porquê apartá-lo de tamanho direito?
Penso que havemos de conseguir. Penso que havemos de ser felizes. Que havemos de fazer por isso, em conjunto. Ficam para trás as obsessões dos monstros que criei, a obsessiva e compulsiva fixação no futuro que me tem impedido de viver o presente, presente onde o que virá a ser encontra alicerce.
Havemos de tentar, amor.

Publicado por PmA em abril 27, 2005 03:52 AM
Comentários

Deixaste-me sem palavras :) és um grande conhecedor da alma feminina, sim senhor!
Tenho que te desafiar mais vezes, porque encantas-me com as tuas palavras!
Beijinhos

Afixado por: jacky em abril 27, 2005 02:19 PM

Elogios desmerecidos...

:$ (segundo o msn, um smiley corado)
beijinhos,

Afixado por: PmA em abril 27, 2005 08:18 PM