abril 26, 2005

Cumplicidade

Nada disto é claro. Foi o que tentei expor-lhe. Aliás, racionalmente as respostas são de uma aparência assustadoramente simples. O problema é que razão e emoção se confundem, são uma só unidade que labora em ambivalência.

Foi por isso que nos rimos, juntos. Consciente de quase tudo, todavia incapacitado de pensar e sentir em consonância. Rimo-nos dessas tolas contradições da mente. Rimo-nos, levando-as a sério. Na realidade, estas tretas baralham mesmo um tipo.

Jogámos com conceitos. Estou satisfatoriamente à vontade com os meus. Ela domina perfeitamente o que lhes dizem respeito. Nesse espaço de acção em concreto tem toda a vantagem, é o seu. A experiência que transborda numa calma avassaladora eclipsa a minha: mesmo que estivéssemos num plano de acção igual... contudo, é o de sua pertença – e, factualmente, o que busquei.

Nem por isso se arrogou nessa desvantagem absolutamente óbvia. Talvez tacitamente; talvez, e só, naquela calma ‘industrial’ de quem reina, soberano, do alto do seu domínio – mas de igual para igual, não é uma oposição de onde interesse advir vencedor ou derrotado. E assim rimo-nos. Depois de uma entrada trágica, onde cometi prontamente o primeiro erro crasso, o gelo foi-se desconjuntando até à derradeira – derradeiríssima – parcela sólida ceder a um calor dum formalismo superficial.

Fuma?, interroga quando acende um cigarro e satisfeita por saber que o fumo não me iria incomodar. Sim, prontamente asseri; prontamente, não de modo precipitado como se se tivesse rompido um desespero. Está aí um cinzeiro; tome, pode colocá-lo aí; fica mais confortável, certamente. Sorri, acenando um agradecimento com a cabeça. Podemos continuar a rir? Bom, isto não dissemos: mas sentimos.

Temos várias coisas em comum. Percebemo-lo bastante cedo. Paradigmas diferentes, é certo; destinos paralelos em termos de ambição, que jamais se haverão de tocar – mas sem dúvida a caminhar relativamente próximos. Conceitos comuns, palavras iguais de conceptualização distinta, uma harmonia entre singular e divergente. Torna-se mais confortável. Percebemo-nos e, mais importante, respeitámos territórios simultaneamente alheios a um, ainda que de referência para o outro. A aceitação e o respeito são basilares para qualquer interacção; ela di-lo-ia de outra forma, com significados que roçam o parentesco.

Sentados, frente a frente. A rir um com o outro, nunca um do outro. E compreendemo-nos. E ficámos de nos voltar a ver; de voltar a rir? De voltar a rir com as tretas tão simples que tão eficazmente baralham tantos alguéns.


Publicado por PmA em abril 26, 2005 08:51 PM
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