abril 19, 2005

Sinfonias de viés

Para que a manhã possa irradiar as suas primeiras luzes têm de existir as trevas da noite. Bela verdade la paliciana. O óbvio do óbvio faz, contudo, esquecer as premissas mais básicas que constituem os fenómenos: entra-se na fase em que tudo surge como facto adquirido; esquece-se quantas vezes se teve de batalhar por eles, que se deve sempre batalhar porque só a morte traz o final acabado da experiência terrena.

Hoje é mais um dia solarengo, ainda que por vezes peneirado por algumas nuvens – da época? As árvores tocam entre si um sem fim de acenos, eolicamente movidos. Cores vivas pintam o restante da paisagem. Uma boa quantidade de seres bípedes passeia-se por aí, muitos sem destino ou então rendidos à supremacia da rotina. Ninguém reparará que é um dia diferente? – como amanhã irá ser, orquestralmente manobrado pela mão – vontade, arbítrio? – da natureza. Cor – cores – para alguns, escala polissémica de cinzento para outros. No entanto, um mundo apenas...

Trocam-se passos e olhares sem importar. Cada qual tem a sua concha, o seu retiro privativo. A subtileza da esfera privada, o ninho que tudo é, onde os significados assomam promovendo esse espaço a centro do universo – do micro-universo, individualidade e individualismo ao expoente máximo. O resto do mundo desaparece ao encerrar-se a porta de serventia de uma casa. Oh, brave new world!, diz o selvagem.
Em todos os aspectos cada vez mais respeito aqueles que sustentam que o sentimento de insegurança é mais perigoso que a insegurança por si. Enquanto se sentir o recato protector do ninho, continuar-se-á a insistir na ruptura com o demais – um dia, tarde, acorda-se com a percepção que dito ninho está desmoronado, sem que nada fizéssemos – mas nada fazer não será fazer por omissão? – e, mais grave, completamente despreparados para voltar a encarar realidades – a idade pesa, e ilusões destruídas são complicadas de sanar.

Ser-se outsider de si próprio... Como conhecer o outro por quem não se reconhece? Amontoar experiências não é sinónimo de sapiência em saber lidar com as mesmas – senão, como seria possível tropeçar incessante e incansavelmente no mesmo?
Todavia, os primeiros raios de sol pela manhã estarão novamente aí; e as cores; e os sons; e o aceno das árvores.


"A experiência do abismo é típica do indivíduo isolado."

'O Mistério do Enamoramento', Francesco Alberoni

Publicado por PmA em abril 19, 2005 09:09 PM
Comentários

Caro neuras, que bela margarida ou é um mal-me-quer?;)

Afixado por: i em abril 20, 2005 06:53 PM

Daisy.
;)

Afixado por: PmA em abril 20, 2005 09:04 PM

Também gosto de ler o Alberoni. O meu favorito é o Erotismo. Beijinhos

Afixado por: jacky em abril 21, 2005 08:20 AM