Se me questionassem sobre quais os locais privilegiados para meditarmos connosco próprios em sossego não hesitaria na resposta: as igrejas.
Não por uma questão mística, não por associação espiritual ou sequer por indução de carácter divino ou divinizado. A importância que lhes atribuo como esse lugar privilegiado é completamente dissociada duma transcendência (idealizada). São privilegiados pela atmosfera que emanam, do silêncio lúgubre com que dotam o interior das suas quatro paredes. Automóveis, buzinas, multidões, dicutires fervorosos e outras sonoridades que perturbam uma acepção eremítica e meditabunda que certas introspecções exigem não habitam estes espaços; somos que como transladados para outro universo, coexistindo com e simultaneamente à margem daquele de todos os dias, dos nossos quotidianos.
O silêncio é-o de tal forma que chega a ser aterrador; com o hábito, esvai-se esse sentimento de insegurança que a meu ver será absolutamente endógeno; talvez por culpa de um preconceito, o da definição inculcada do significado simbólico do lugar em causa.
Numa primeira análise tudo é pesado numa igreja. A fórmula arquitectónica, a porta de entrada, a escassa luminosidade, a aferição do ser com a transcendência. Arrebatados e esmagados pelas evidências do ambiente envolvente, o à-vontade por maioria de razão é muitas vezes castrado.
Seria igualmente o leque de sensações que primeiramente, e ainda agora durante os primeiros minutos após a entrada, inundavam o meu raciocínio fazendo inclusivamente que se toldasse num estranho e místico corte com o real. Parece que a mecânica da religião permanece numa tentativa de nos vergar ao invés de exaltar os espíritos – ou as mentes; não se deve esquecer que a religião, conceptualmente, é invenção e empresa humana...
Superados, por assim dizer, os incómodos relativos aos factos que enunciei, a entrega aos raciocínios indutivo e/ ou dedutivo é fortemente impulsionada pelo rol de condições tácita e manifestamente favoráveis a tal empreitada.
Os ponteiros do relógio congelam, as condições atmosféricas estagnam, espaço estranho este que parece intemporal tanto como atemporal. Desvanecem-se urgências, o rodopiar entrópico do dia-a-dia, as preocupações corriqueiras e de parca relevância (moral). De facto, este ambiente espartano (no sentido de exiguidade de possibilidades de acção) seduziu-me enquanto campus de reflexão; se bem que há muito que não entre numa.
Afinal, nem tudo é mau – nem bom – na casa do Senhor. Herético? Talvez o considerem, porém não comungo dessa opinião. Pontos de vista, somente – tão pertinentes quanto outros.

Deo Gratias
Publicado por PmA em abril 15, 2005 02:58 PM