abril 06, 2005

Sete colinas, um amor

O tempo quente assoma-se com pezinhos de lã. Aos poucos vai-nos habituando a si. As temperaturas que estão são quase perfeitas, nem frio em excesso nem calor nem demasia. Convidam a sair para a rua e ir por aí, meios desbragados, apreciar as nossas vidas. Da minha conta, a resposta desilude. A vontade é pouca e só graças a duas pessoas, ao «arrancarem-me» de casa, é que vou dando uns «pontapés» por aqui e ali. As aulas de mestrado, com forte motivação inicial, perderam algum – considerável – do seu encanto. As meiguices da noite tornaram-se monotonias. Pasmaceira e astenia...

As sete colinas olissiponenses são, no entanto, um convite irrecusável. Mais ainda quando agora do campo nem vê-lo pintado a ouro. A selva urbana é o meu habitat por excelência, não devia ter insinuado trocá-la – ou partilhá-la, ninguém gosta de ficar em segundo lugar no ranking dos amores; um tudo ou nada, sem termos de permeio. Cinzenta, poluída, violenta, impessoal, desregrada... acresça-se o que se quiser; é do que gosto, é onde pertenço, onde também me sinto pretendido – por essa esfera imbricada em cimentos e organismos, num simultâneo simbiótico.

Deixo-me envelhecer a teu lado. De todas, foste a única que sempre recusou abandonar-me. Talvez Coimbra, que a tudo e todos está habituada. Também Coimbra estendeu o seu manto para que lá ficasse; é uma cidade carregada por sentimentos e pela História. Mas foi junto ao Tejo que me acolheram em primeira instância. Promovemos uma relação quase incestuosa, agarraste-me como mãe e cortejas-me como amante. Ensinaste-me e educaste, cuidaste e sancionaste. Mais tarde, abriste-me a cortina para outros prazeres, amores de espírito e de carne.

Por tudo o que de significante tens, passear-me na tua pele mantem a sensação de deleite. Correr-te de noite, ver-te brilhar à luz dos artefactos, numa falsa timidez que aflora a sensualidade, preenche e gratifica. De noite ficas ainda mais bela, envolta nas sombras que não mostram escancaradamente, mas que antes insinuam com terna lascívia. Ao fim de cada dia, sei que posso fechar os olhos e saber-te aí, no mesmo cantinho, quando ao acordar voltar a abri-los.


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Publicado por PmA em abril 6, 2005 08:17 PM
Comentários

Ao ler esta tua declaração de amor a Lisboa, fiquei com tantas saudades de Paris...
:'-(

Afixado por: jacky em abril 7, 2005 12:31 AM

Eheheh

;)

Afixado por: PmA em abril 7, 2005 03:34 AM

Que prosa poética erótica tão rósea e húmida, apesar do "tempo cálido que se assoma".
Já agora, satisfaz-me a curiosidade:
onde fica o "ponto G" da ilustre urbe?

Saudações Incompetentes

Afixado por: Incompetente em abril 7, 2005 10:41 PM

Tem tantas zonas erógenas que ainda não sei, pá.
Mas julgo poder excluir o Marquês de Pombal (na foto) como G-point. Quanto muito o Parque Eduardo VII, mesmo ali ao lado; contudo, excluamo-lo também.
Talvez por entre o trajecto Belém - Restelo - Monsanto.

Cumprimentos neuróticos,

Afixado por: PmA em abril 8, 2005 02:12 AM