Recordo com saudade os dias em que saía do trabalho e ia deambular para a praia. Normalmente, devido à proximidade, algures pela Linha; excepto se chovia, isso nunca.
Quantas vezes, feito tolo, o único de fato – calças arregaçadas, sapatos na mão –, a parecer perdido no areal, bem junto à linha ondulada desenhada pela água naqueles milhões e milhões de minúsculos grãos.
Homens olhavam-me de lado, alguns riam quando por mim passavam. Cheguei a ser abordado por uma senhora que, muito dócil, questionou se me sentia bem – claramente julgava-me a priori taralhoco, assim meio enviesado das ideias se se quiser ser simpático; veio, porém, perguntar – foi querida. Não era taralhoquice nem enviesamento de ideias. Simplesmente adoro perder-me e ao meu pensamento naquela paz natural onde as ondas encontram terra firme, a beleza do mar, sem rival que iguale, transmite-me qualquer coisa que nunca hei-de conseguir definir, qualquer coisa de grandiosa e de reconfortante, boa num sentido místico que se aproxima do divino.
Cimentei essa adoração no decorrer das últimas fases da adolescência, quando acompanhava um vasto grupo, entre amigos e conhecidos, até ao Braham’s ou o Dunas. Tínhamos como ritual, coisas tontas circunscritas a essa época, apalermar e eteceteras para junto da linha do comboio, de onde saíamos quase atolados de areia – e não só; e deixávamos o resto da rapaziada aos arames, fula, que ao nosso regresso respondia invariavelmente para a próxima não esperar por nós.
Por aqueles cantos, enquanto disparatávamos pela areia, os ponteiros de todos os relógios congelavam, o tempo parecia não existir.
Com o evoluir dos anos cada qual terá seguido as suas passadas, restaram aqueles que habitualmente designamos como poucos e bons – na verdade, aqueles com quem estreitara laços desde bem mais cedo; outros há também que são posteriores a estes momentos.
Mantive o bichinho, o tal que me faz sentir em elevada brandura por ali entre a areia e o mar. E com ele o hábito, os rituais que fazem com que me desloque até no pico do Inverno – sempre que sinto precisar; e desde que não chova, reitere-se.
Adoro estar junto do mar, especialmente quanto trato com coisas inqualificáveis – indignas. Acontece.
[Ipsis verbis, execrável]

"Há luz sem lume aceso
Mas sem amar o calor
À flor de um fogo preso
À luz do meu claro amor
Há madressilvas aos pés
E águas lavam o rosto
A morte é uma maré
Olho o teu amado corpo
Não foram poemas nem rosas
Que colheste do meu colo
Foram cardos foram prosas
Arrancados do meu solo
Oi que ainda me queres
O amor que ainda fazemos
Dá-me um sinal se puderes
Sejamos amantes supremos
Será sempre a subir
Ao cimo de ti
Só para te sentir
Será do alto de mim
Que um corpo só
Exalta o seu fim"
'Foram Cardos, Foram Prosas', Manuela Moura Guedes (let. Miguel Esteves Cardoso)
Publicado por PmA em abril 4, 2005 10:48 PMAinda hoje estive à beira-mar :)
E ainda o mês passado, os meus alunos descobriram que a manelita cantava, nas minhas aulas de rock português dos anos 80! :)
Entre neuróticos a gente entende-se! ;)
Não duvido.
O restante do comentário vai para o teu blog, no post que dedicas ao 'grande azul'.
Beijinhos,
Afixado por: PmA em abril 6, 2005 12:48 AMObrigado por recordares aqui esta obra ímpar da música portuguesa. Esta música, para além de lindíssima e de ter uma letra magnífica, foi pioneira no sentido em que foi o primeiro tema de pop electrónico (Human League, Gary Numan) lançado por autores nacionais para o grande público em Portugal e cantado na nossa língua. A música é de Ricardo Camacho. Mais tarde (2 anos depois), a dupla Camacho-Miguel Esteves Cardoso seria responsável também pelo primeiro grande sucesso dos Sétima Legião, também eles pioneiros em Portugal daquilo que então algumas pessoas nas Ilhas Britânicas chamavam Rock Céltico, embora no caso dos Sétima o seu rico repertório não se esgotasse nessa vertente musical. Apenas um reparo: a versão que tens no teu postal é a dos Ritual Tejo. A da Manuela Moura Guedes (que entretanto se transformou naquela coisa que, hoje, se pode tristemente ver) varia ligeiramente em dois versos da 2ª estrofe. O teu blogue é excelente! Cheio de força nas imagens e nas palavras. Que a força não te falte!
Afixado por: PauloFR em maio 29, 2005 10:52 PM