abril 02, 2005

Da glote

(porque, muitas vezes, só se tem garganta)

Queria prometer-me esquecer de vez. Tenho mesmo tentado. Tenho mesmo compartilhado essa minha fixação – legítima, sem dúvida – com alguns, daqueles que chamamos especiais. De falta de palavra – palavras –, das que sim, que não é sem tempo, não posso apresentar lamúria. Não basta. É bom; claro que é bom. E reconfortante, deveras reconfortante. Porém não basta. O princípio, entenda-se o postulado constitutivo, obrigatoriamente só poderá advir de um único indivíduo. Todavia, eu, esse indivíduo, teimo na prevalência de não desejar esquecer. Sei que preciso, mas evito essa atitude como o ser demoníaco evita a cruz. Digo que sim, desta feita o devido há-de ser não só prometido como cumprido; depois, por demérito do carácter ou da personalidade, a recaída; o voltar atrás, vergar de joelhos, repensar em tornar à posição eréctil, praticar as imagens já cristalizadas que imitam o mote de andar. Em amena cavaqueira disse-to, isto de ir indo aos trambolhões – nem em pé, nem ao arrasto – é de uma tremenda canseira; de desalento para a índole.
Queria mesmo prometer-me esquecer. Esquecer-me de ti. De vez. Finito, fim, sem indulgência.

Creio que a circunstância, para te esquecer a ti, viu horizontes mais longínquos que os do presente; do agora; se calhar, do agora mesmo. Mas não quero cair no engodo de medir, medir o que aparenta ser imensurável é erro que roça a insanidade. Louco por ti fui, nunca, convenha-se, insano; são fenómenos distintos, de ténue barreira, mas que vincam marcos por dois campos onde se movimentam jogos de realidades antónimas.
Eu deixo-te; e tu, deixas-me?; parece-me que ainda não deixaste; preciso que me deixes, e aí descansaremos, os dois, imunes – porque imunizados – para o percurso destituído, então, de percalços: esvaem-se as contrariedades, o transtorno – porque, simples, deixam de ter sentido. Preciso de deixar-te; de seguida sim, prometo com outra convicção esquecer.

As locuções fáceis sucedem-se; faço-as suceder. As decisões, o pior, encalha pelo caminho. Outra vez, na amena cavaqueira – ou noutra ainda, se não na mesma – sentenciaste-me que passaria metade, contado em tempo, do total que vivêramos até que a pudesse esquecer. Não acreditei; como tu não acreditas, meu caro. Só a (ante)visão é terrífica. Nem por sombras, assim não vale a pena – sabemos. Rimo-nos. Rir exorciza pensamentos néscios. Quanto às decisões. Vamos adiando. Eu sei que vou protelando – o mais que posso? Com pouco convicção e menos firmeza asseverei que não é amanhã que tudo muda. Amanhã, depois de amanhã, depois de depois até ser impronunciável. Não se pode manter assim, não há lógica, não há senso – algum, absolutamente algum. Datas marcadas, círculos num calendário, são impossibilidades. Caramba, percebo que tenho mesmo que te esquecer.

Não me prometo coisa alguma; nunca o fiz; nem a ti, que tanto quis e agora quero esquecer. Quando te esquecerei? Quem sabe – a começar – amanhã...

Cumprimentos, caríssima(o)s.


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"It's my direction, it's my proposal, it's so hard, it's leading
me
astray
My obsession, it's my creation, you'll understand, it's not
important
now

All I need is coordination, I can't imagine my destination
My intention, ask my opinion, with no excuse, my feelings still
remain

My feelings still remain"

'Souvenir', Omd

Publicado por PmA em abril 2, 2005 08:51 PM
Comentários

Mais uma canção de que tenho saudades.
Sei que a paciência não é uma das tuas melhores qualidades ;) mas há coisas que só mesmo o tempo conseguem curar.
Arrancar afectos passados bem enraízados é uma delas...
Beijinhos

Afixado por: jacky em abril 4, 2005 04:21 PM

Sou deveras paciente em muitas frentes; lidar com o tempo não é uma delas.
E dizem, como tu dizes, que o tempo cura... talvez, mas com um preço que passa pela extravagância. E, plagiando um certo amigo, os problemas a resolver não são os do passado, mas sim os do futuro que não se - me - entrevê.

Agradeço o comentário.

Beijos,

Afixado por: PmA em abril 5, 2005 12:56 AM

que doidera aquele negosuio brilhante

Afixado por: em maio 14, 2005 01:25 AM