abril 01, 2005

Desvarios

Noutro dia. Lá fora chove. Abuso dos aconchegos na cama, quer-se fofa e apetente; queria que estivesse mais frio, incitando a atolar-me pelas cobertas – mas não está. Hoje prescindi de ouvir música para adormecer, permitindo à chuva que varre estores e janelas impregnar-me com os seus cantos. Todavia, resisto ainda mais um pouco. Com o portátil ao colo escrevo mais umas tolices para publicar no neurose; aliás, faço-o agora, agora mesmo.

Interrogo-me por que esquinas se andará a passear a minha imaginação. Tenho vontade de escrever e não tenho vontade de escrever; em simultâneo, claro; coisa que pode parecer de estranhar, contudo há muito que me habituei a que assim seja. Continuo a dar atenção aos tons da água, ininterrupta vão algumas horas. O que é feito da imaginação? Recordo um post que li noutro blog. Não recordo onde, é pena. Sei que o autor se referia a posts de outros blogs. No seu desenrolar, dizia ele, e isto aproximadamente, que tinha lido noutro que certo autor só conseguia escrever, a seu entender bem, quando dominado por um estado de espírito triste, mais ou menos em melancolia. Sublinhava, aquele que li, não perceber tamanha patacoada. Enfim, que não lhe entrava pela cabeça aquilo que francamente soava a fanfarronice. Desta feita, quem não percebeu fui mesmo eu. Tudo me indicia que, melhor ou pior, a melancolia – semelhantes e afins – propicia, favorece a criação de textos; de um determinado tipo de texto. Há-os aos magotes, variando em consonância com o tal estado de espírito; outra vez, melhores ou piores – nem sempre por determinação do motivo de alma. Não me custa perceber – e até compreender – o sentimento de proximidade entre melancolia e escrita que o segundo – autor – refere. Menciono, mais, que também sinto maior inclinação para o fazer quando imbuído nesse universo melancólico. As gentes são diferentes e há ainda quem não entenda, aceitando, exactamente essa diferença – é pena.
Por seu turno, a chuva insiste. Vai varrendo com melodia tudo o que encontra. Também a chuva consegue ser melancólica, nem por isso me fazendo gostar menos dela, nem por isso me deixando em desalento; inversamente, preenche-me, na sua faceta melancólica, com valências de específicos modos de sentir; e de pensar. Como belo citadino gosto da chuva, porquanto não me caia em cima – gosto de ver e ouvi-la, e só assim se torna mágica; feiticeira que, tocada, dança danças de sonho.

A pensar no sonho acomete-se-me o sono. Está-se no instante de partir para outras terras, essas do sonho, deixando o embalo às águas que em queda se precipitam para outro dia se levantarem. Boa noite.


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"Andava eu sozinho a tremer de frio
Fui procurar calor e ternura nos braços de uma mulher
Mas esqueci-me de lhe dar também um pouco de atenção
E a minha solidão não me largou da mão nem um minuto sequer

Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar

Se queres ver o Mundo inteiro à tua altura
Tens de olhar para fora, sem esqueceres que dentro é que é o teu lugar
E se às duas por três vires que perdeste o balanço
Não penses em descanso, está ao teu alcance, tens de o reencontrar
"

Na Terra dos Sonhos’, Jorge Palma

Publicado por PmA em abril 1, 2005 02:10 AM
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