março 28, 2005

Do Éter(eo?)

Não sei se és um sonho ou realidade, imagem a tal ponto cristalizada que na verdade deves ser um ideal-tipo; feita das coisas das estórias, do doce mais doce, da ternura mais meiga, da beleza que inveja às rainhas; da palavra tonta e atinada, dum saber que só tu sabes, de um mel que nem os deuses tomam. Pessoas assim não existem. Tu não existes. Onde mora a tua faceta má, de má, a tua intolerância descomedida, onde as palavras que não partilhaste, as birras que te apeteciam, a má vontade a rojo, as mentiras que me escondeste? Certo, podes retorquir que eu também; não desminto: tens razão; também eu não existiria, se assim – não – fosse. Se era cansaço, porque não o disseste? Porque não pudeste ser – mais uma vez – honesta? Nada te cobro ou estou a cobrar; é só a insatisfação de um alguém que não percebeu o filme, aborrecido consigo pela incapacidade em decifrar a trama; de burro que é. De ti fica a mentira, o ideal-tipo construído e aprimorado na sequência de um modelo em bruto, como o diamante que aguarda a talha: mas não és tu; não sendo tu. De ti, o estereótipo que é revolto e distorcido da tua imagem de espelho.

O sedentário colhe o fruto, da planta que cuidou, do bicho que tratou; o outro, à deriva por territórios sem dono, preda a sua caça. Ao pretenso conforto de um, o errante percurso de outro, que de tecto conhece apenas o manto de estrelas e a cortina das nuvens. Ficámos sem tecto, que eu deitei a casa abaixo e tu não a quiseste reconstruir. O trabalho que isso implicava, para mais sem presença da vontade. O sentir evapora-se. Sentiste-os evaporar pelo ar?

A imagem que ofereceste, revolta e distorcida, é de personagem desprovido de essência – etérea, volátil, sumida por nunca ter tido corpo, o corpo de alguém. É alma, as almas não coabitam este mundo, ou não as vemos senão dentro de nós. És uma ideia, uma mentira; não és verdade. Canso-me de ti por não existires; por não teres corpo, aquele que clamo. És a mentira que te mantém ainda presente, longe que vai o – nosso – passado. És a mentira com que me vou mentindo, ainda crendo e querendo que um dia se materialize em coisa consumada; real.

As estórias são cruéis; ensinam um para sempre que rara vez o será – se alguma vez o for. Embriagam petizes que em adultos padecerão da ressaca. São, as estórias, monstros dantescos dissimulados numa inocência sem malícia. Não preparam, antes estendem passadeira à armadilha; simulam o fictício como facto, assegurando credulidade a quem não é hábil para discernir. Desenvolve-se, o ser maturado, com o inconsciente impresso de fantasia; daí à alegórica cabeçada na parede é um passo apenas.
O belo puro narra-se tão somente pela fábula. Fabulosas, as fábulas.

Uma estória; como das outras, ninguém existe. Um sopro no pensamento, talvez. O mundo cá fora é assertivo nas suas regras; obriga-se a existir, renega-se (a)o imaginário. Agora é a doer.


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De cima, em pé, a encarar-me, minúsculo, no banco, disseste-me que tudo estava acabado, já não gostavas de mim, tudo estava acabado.

Para Averiguar do seu Grau de Pureza’, Jacinto Lucas Pires

Publicado por PmA em março 28, 2005 02:31 PM
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