março 24, 2005

Crepúsculo?

Existe-se – ou vai-se existindo? – num mundo que não se quer. Não era esta a imagem do real que se tinha presente quando, em tempos idos, este era, em moldes de projecção, imaginado. Anda-se perdido, a viver uma vida que não a própria, que de todo é desconhecida, estranha, insípida. Alguém cometeu um erro, um erro dos grandes – efectivamente, mais provável é que o tenha cometido quem agora se lamenta.

Este mundo tresanda a bafio, a cansaço e desilusão. Algum condutor se enganou, dobrando para uma transversal quando deveria ter mantido a direcção em sentido recto. Nem a estória nem a história irão ser contadas como se ansiava, como exigia o desejo e a vontade. Neste mundo ocorreu a cisão por umas quantas – tantas – vezes temida, com estonteante pavor. Não mais haverá um universo de partilha; espaços e momentos que se viam comungar desintegraram-se num alvitre que não propõe posteridades.

A noite, de que tanto se gostava, animando as ilusões, tornou-se num limbo que revive memórias mortas, murchas, infecundas; as recordações tornam-se tipologicamente um peso morto que não mata mas moi. O passado assoma, evocando-se, ao presente. Olhar pela janela, observando o escuro de uma urbe, a Lua, as estrelas, cessou enquanto prazer. Resta um rosto demasiado cansado para a idade, reflectido pelo vidro; um rosto irreconhecível, não o mesmo que se mostra durante o dia. O fumo dos cigarros fumados desenha pelo ar fantasmas voláteis, de uma efemeridade extraordinária, enformando com essa sua névoa – fantasmagórica – as promessas que outrora foram, bem como aquelas que nunca irão ser: tempos que se extinguem já que, por decisão alheia, foram extintos. A música que faz acompanhar estes momentos, até os dos cigarros à janela, confessa-se lúgubre em sintonia com a disposição – há coisas que não se ouvem, evitam-se por poderem deturpar um estado de espírito que não se pretende mas que, vontade masoquista, se toma como necessário (bem vindo?). O ruído dos carros, um pouco ao longe, complementa e completa a atmosfera de fundo; a ir e vir, destinos desconhecidos. Deita-se uma outra espreitadela em busca da Lua; demasiado avançada que vai a noite, o cansaço derrota o físico.

Porque o ritmo biológico assim o obriga, recolhe-se para repouso (quem o levantaria amanhã?). Na mesa de cabeceira, entre um despertador e um candeeiro ainda ligado – se bem que quase sempre entre mil tralhas –, o copo com água do costume; hábitos, ritos de que não se abdica. Um golo, dois golos e o horrível paladar deixado pelo tabaco é desanuviado, gasta-se gradualmente até inexistir – a luz, entretanto, apagada.
Os olhos cerrados, a cabeça no lençol que não se usa almofada, e dá-se corda à fantasia. Outras realidades, outros mundos são criados sem limites que os balizem. Não aquele por que se clama, a esse nem se ousa recorrer sequer à guisa do imaginário. Esse é cadáver, o seu sepulcro merece o respeito das coisas que foram: ficar onde pertence, com a alma entregue ao Criador. Nos outros – imaginados – deixa-se perder a mente, perder-se até que o sono, bichinho bonito e sorrateiro, tudo encubra com a sua meiga e delicada manta de – quase – inconsciência.

Cumprimentos, caríssimos.
;)


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©

"O nosso amor não vai parar de rolar
De fugir e seguir como um rio
Como uma pedra que divide um rio
Me diga coisas bonitas

O nosso amor não vai olhar para trás
Desencantar, nem ser tema de livro
A vida inteira eu quis um verso simples
P'ra transformar o que eu digo

Rimas fáceis, calafrios
Furo o dedo, faz um pacto comigo
Num segundo teu no meu furo
Por um segundo mais feliz
"

'Mais Feliz', Adriana Calcanhotto

Publicado por PmA em março 24, 2005 02:41 PM
Comentários

É pena que aquilo que é tão bom deixe tantas penas e feridas para sarar.Os sonhos e as ilusões aliviam o fardo, as desilusões tornam-no mais pesado e relembram-nos o quão frágeis somos...compartilho a resignação e a mágoa, mas de um prisma diferente, acho.

Afixado por: em março 24, 2005 06:05 PM

Não há desilusões ou mágoas, só saudade... e o futuro - espreitando radiante.

cumps.
;)

Afixado por: PmA em março 24, 2005 10:34 PM