março 22, 2005

Impaciências

A paciência é tida por muitos como um conceito que emana virtude. Posso até, embora com determinadas reservas, concordar ou, mais honestamente, ser complacente com essa proposição. Não sou, todavia, grande apologista dos seus termos. Lacuna minha, por ímpeto ou pragmatismo, não sei. Concretamente nas situações ou fenómenos que exigem uma peculiar capacidade na manipulação com o tempo. Invariavelmente, nunca me relacionei bem com o tempo: se em termos genéricos de gestão sou medíocre, em gestão do tempo sou pior que ruim.

De facto, não vejo qualquer vantagem em protelar quando, devido a contornos que se assumem, é possível começar a usufruir (quase) desde logo. Acontece que se deve julgar que há cerimoniais a serem cumpridos, de entre estes (praticamente inúteis) prolongamentos no tempo. É questão que me ultrapassa. Se coisas há que me aborrecem, uma será indubitavelmente o ter que esperar – pior, quando para tal não existam motivos, diga-se, explicáveis pela razão. Provavelmente, talvez considere que esperei vezes demais, bastantes sem resultados que fossem de todo benéficos; claro, outras circunstâncias, não raras, são indiscutivelmente gratificantes – e quanto! Aplica-se, aqui e só aqui, a velha máxima do «vês que valeu a pena esperar?», mesmo que tivesse ocorrido a hipótese de encurtar, até drasticamente, o período de espera.

Por motivos de entretantos e implícitos, joga-se com o tempo quando na realidade é este quem parodia connosco; bom, trata-se obviamente de um ponto de vista bem particular, de uma idiossincrasia própria à minha pessoa: já referi que não me relaciono lá muito positivamente com o tempo? Pode ser uma virtude saber esperar, contudo é displicente desperdiçar aquilo que não volta atrás – enfim, que não recua, sendo inclusivamente irrepetível. Não sustento o paradigma que se afirma na praxis de viver como se tratasse do último dia. Como não sustento que se ofereça tempo ao tempo que, repito-o à imagem de outros posts, o tem todo. O dar tempo ao tempo que ele tudo resolve é asserção que comigo não condiz; não negando que, por maioria de razão, é o que acontece face a um considerável número de circunstâncias. Dar tempo ao tempo é um método homeopático, muitas das vezes doloroso e desgastante. Subscrevo um método holista de sanar uma sintomatologia, aplicando-se ao todo de uma situação verificada uma prescrição, ainda que igualmente penosa, ágil e célere no efeito de mediar as disfunções. O mais aborrecido é quando nenhuma das duas tem aplicabilidade concreta, especialmente aquela que corroboro e que será muito menos vezes passível de ser colocada em prática.
Saber esperar, lidar com esta dimensão da paciência, mais do que virtude é uma imposição a assemelhar-se a um quebra-cabeças que não se consegue solucionar – e se eu odeio este tipo de brincadeiras em estilo de cifra.

A paciência como virtude... A paciência é algo que mormente se me esgota com facilidade sempre que, a ela, seja o tempo chamado a tomar parte. Outras dimensões da paciência existem que integram em si as maiores das pertinências, que sem custo abraço. As que colocam gestão temporal em cena são-me absolutamente ingratas, confessam as minhas estatísticas que apontam os factos correlacionando números. A obrigação em ter que lidar com a espera é agravada por quanto quase sempre é imposta pelo exterior – não havendo necessidade de mencionar que existem igualmente abundantes excepções –, subtraindo-se à vontade interior do próprio sujeito em acção... infelizmente.
Termina-se por aqui: tanta conversa de convénio para uma síntese que se revela breve – parece-me que sou um tanto ou quanto impaciente. Temos vulnerabilidades, umas das minhas são, incontornavelmente, as impaciências – coisa que vou verificando pelo quotidiano.

Publicado por PmA em março 22, 2005 02:10 PM
Comentários

Bem-vinda ao clube...

Afixado por: jacky em março 25, 2005 07:31 AM

Um clube que a crescer assim ainda um dia será uma enormidade de instituição. ;)

cumps.

Afixado por: PmA em março 28, 2005 02:17 AM