Fingiu olhar para o lado, pela janela; na verdade, tentava ler-lhe a expressão. O que passaria naquela mioleira desmiolada, nos neurónios da jovem que o intimidava ao ponto de o fazer evitar contactos olhos nos olhos? Nem mesmo ela saberia, era o julgamento que ele, para si, ditava. Conservava-se mormente calado, desejando um rápido chegar ao destino. As palavras que lhe saíam eram desconexas, mas ainda assim suficientes para disfarçar uma calma que não lhe assentava: acontecia ela rir, responder-lhe com o à vontade que lhe faltava, a ele, e o desconcertante ruído do silêncio quebrava-se por momentos; por momentos, logo tomava lugar, novamente, a estridente mudez que definia a inexistência de conversa ou palavras. Tentava ler-lhe a expressão, porém a ambivalência das suas interpretações conduziam-no de volta à mesmíssima ignorância: todas as tentativas eram fúteis, como se, na realidade, estivesse incapaz de decifrar qualquer mensagem. No seu íntimo, mudou de assunto; outras coisas o deixavam além da realidade – debatia-se em conflito interno, seguro porém de que a sua postura corporal não o trairia, por tão bem treinada que havia sido: em aparência, respirava normalidade e calma dignas de uma representação angélica enformada pelas mãos de um Miguel Ângelo.
À voz dela, respondia mecanicamente; contudo, firme e resolvido, com cabimento e tino, obtendo sensorialmente uma perfeita cisão entre aquele real ali e o conflito interno ao qual não tinha deposto armas. Mais, pelo pouco que diziam era fácil acompanhá-la como, em simultâneo, oferecer-se às divagações mais endógenas de si. A sua arrogância precedia-o, contava com ela e com o seu resultante: estar-se assim, dialecticamente, é fácil; demasiado fácil para mim; quanto e quantas vezes operei a níveis de dificuldade largamente superiores? – bem poderia ser dele esta asserção, uma imagem fidedigna, um instantâneo reificante da estrutura mental em que se considera.
Gostava que fosse dia, que pudesse colocar os óculos escuros e esconder dos outros o que os olhos dizem sem a sua permissão. Porém, também a noite tolda a visão – e o discernimento, em parte. E assim julgava não se apresentar desnudado perante um inimigo imaginário capaz de troçar das emoções transferidas por um olhar que atraiçoa, aconchegado pela manta escura que encobre o brilho dos olhos que, por isso, passam a comunicar difusamente. Permite-se sublinhar a sua prepotência, brincando à apanhada consigo próprio: seriam os outros pouco mais que marionetas, trabalhadas por um resto do mundo que lhe é exterior? Não, o excesso de confiança funciona-lhe como arte de defesa – ainda que sim, que seja arrogante (talvez por disso ter necessidade, mais do que por uma valência de destrinça de potencial superioridade).
Decide-se por um armistício para consigo. Por ora, por conveniência. Gira o corpo e vota-lhe, a ela, novo olhar. Com a intenção do costume, perscruta-lhe o rosto. A expectativa era a de, rebuscando, encontrar sinais que saciassem a sua vontade de saber: de saber o que pensa, o que pretende de facto aquela jovem. Nem eu sei o que pretendo – teria pensado, de si para si, silenciando como hábito o que de seu poderia manifestar-se significativo. Domesticado como os restantes, precavia-se como bicho selvagem e disso fazendo bandeira. Continua sem conclusões, ou sem as querer executar; outro olhar que resulta num vazio doutros conhecimentos. Olhando-a, nada percebe, nada vai percebendo, nada quer perceber – não almeja perceber-se.
Atreve permitir-se sentir. A astenia, no entanto, usurpa a vontade do seu corpo, envolve as sinapses na apatia de um existencial vão. Dir-se-ia comatoso, coisa que o pestanejar involuntário infirmava. Estático, via agora paisagens pela outra janela – pela sua. Pouco interesse manifestava se o mundo iria desabar ou prolongar-se pela sua comum existência, mas sabia que inevitavelmente regressaria dessa letargia: conhecia-a, sabia-a passageira, momentos que de tempos a tempos se impunham fossem ou não contrários ao seu querer. Funciona como anestésico, dormência mais ou menos prolongada que todavia permanece com acção durável limitada, acontecimento passageiro.
Repara que desenha objectos imaginários no ar, com o indicador, voláteis e fugazes, sem forma nem ritmo. Sorri. Percebe que ela conduz, insistindo às voltas num alcatrão negro. Balbucia qualquer coisa, ela grunhe por cima. A história é sempre a mesma, entendendo-se que ninguém se entende – finge-se eternamente que sim, que se compreende o outro quando o certo é sermos os indeléveis outsiders fora de nós próprios; contudo, a cena é o que merece importância, o teatro operado no faz de conta. Revelando impaciência, é ela quem acende o primeiro cigarro: falsa companhia que nos ocupa pelos curtos minutos que dura. Não deixa de ser um interessante subterfúgio, e, mais ainda, de eficácia comprovada – por aqueles minutos, poucos, que dura garante-se companhia, afirma-se ter companheiro que nos percebe pois mais não acaba por ser que uma extensão do ego daquele que o usa. O fumo que expelia pela boca substituía, de bom grado, as palavras que faltavam; de uma maneira especial, também as palavras assumem contornos e formas. É a vez dele puxar por um cigarro, atrasando apesar disso a mão do isqueiro. Especado, imóvel, instalado entre lábios, comportava-se o cigarro como aquele a quem poderia chamar dono, também ele aguardando sentir – a chama, essa, demorava-se; um deleite, uma consagração ao vazio que ora aqui, ora ali nos habita a título de invasão.
Compondo-se taciturno, emboca pelos trilhos das praxis tidas como comummente aceites. Substitui o diafragma da vista pelo seu outro, por aquele que lhe mostra a existência como possivelmente semelhante àquela de todos os demais. O real... belo palavrão. Contenta-se, agora, com a coexistência entre bichos da mesma espécie. Há pouco abandonavam o carro, juntos ainda que sozinhos, e já se permeiam por dezenas de corpos, ávidos sabe-se lá de quê. Que buscariam eles, esses tantos? Ultrapassados pelas possibilidades, resta imaginar; atenho-me a isso, não tem lugar na narrativa. Só aqueles dois, só as suas duas realidades consubstanciadas pelas suas verdades próprias. E é já muito. Esgueiram-se pela multidão. Por sorte, a infernália do som incapacita a comunicação verbal, ou a sua constância. Por sorte, sentencia ele; por sorte, considera, convicta, ela. Rum cola, escolha habitual que deixa ser quase infalível acertar quanto à pergunta que questiona o que ele vai beber; só um, não pretende que o álcool distorça o seu julgamento – deve ser o tão consagrado, pelos ditos populares ou mais académicos, beber socialmente: existirá de facto? Um licor de whiskey e três pedras dão o toque feminino consolidados pelo seu género; é o que ela grita, porque assim tem de ser, a um alguém que por ali trabalha. Irão ser dois (ou três?), a condução que a espera obriga à prudência; pois, pela condução ou pela polícia?
Juntos, ainda que sós, deixam que o ritmo lhes perpasse os corpos predispostos a uma embriaguez ditada por notas musicais e vocais a durar enquanto durarem as suas disposições; depois não fica ressaca, o organismo não se queixa nem se culpa – talvez o aparelho auditivo – e a embriaguez cessa numa estocada célere.
O que trocaram em sussurros estridentes foi escasso e abafado, quer pelas suas próprias gargalhadas, tão honestas quanto espontâneas, quer pelo volume da música sistematicamente análoga em constituição e estrutura que nem por isso lhes desperta – norma – particular simpatia. Trocaram espécies de conversas simples, coisas tontas mas simpáticas, gracejos em conformidade com o espaço, brincadeiras de criança ensaiadas por gente adulta. Esqueceram-se. Esqueceram-se de si, partilhando uma felicidade dopada na qual alcançaram sintonia; dopada, nem assim menos verdadeira; nem assim de importância menor.
Poucas vezes se dedicou ele a análises que sistematicamente, como se interiorizadas em si e emparelhando com o seu ser, o acompanham no quotidiano. Terá, inevitável, perpassado com os olhos todo o espaço circundante, bem como os que o ocupavam; todavia, quem não o fará nem que seja por ordenança da curiosidade? Deteve-se, igualmente, de forma cuidada a evitar impertinências, na apreciação da sua companheira da ocasião. Puramente analítica, sublinhe-se, não revogando, porém, alguma carga erótica que naturalmente ombreia com o restante por muito substancial que este seja. Muito antes de ter lido e relido a História da Sexualidade de Foucault que já prestava atenção ao cuidado do corpo, àquilo que extrapolaria para o cuidado de si, e às maneiras como este se evidencia na prática. Para quê negar o erotismo, sendo ele uma das presenças mais sólidas na e durante a existência humana? Contudo, não era só o erotismo, a imagem do corpo e suas expressões, que determinavam as suas atenções, dirigidas com concomitante atenção para ela, ao menos pelo tempo que durou.
Os olhos. O sorriso. O desenho dos lábios. Preponderante a tudo o resto, foi nestes eixos que dedicou a sua atenção enquanto, cuidadosa e paulatinamente, a olhava. Voltamos à questão do erotismo: com erotismo? Talvez, mas distante e emanente. Desenhava os seus lábios em ideias, na mente. Apreciava o seu olhar vivo, ainda que deixando escapulir um quê de naíf e singelo, afastando-se porém, em qualquer medida, ideias de inocência tal qual é mormente entendida. Desengonçava-se com o seu sorriso, mais quando explodia num rir aparentemente descabido. Sem que fosse a oitava maravilha do mundo, tornava-se por aqueles instantes, a seus olhos, em algo semelhante; sendo bonita, não arrasava corações ao primeiro esgar dos olhos; sendo bonita, era-o mais ainda. Sabia ser graciosa e simultaneamente dinâmica quando se vergava aos convites endossados pelo som imposto. Compunha um todo composto, um todo a que adicionando o restante que mais valor tem do seu ser merecia a felicidade; ou ser feliz, ir sendo, que os estados não são permanentes. Conquistou-o e apoderou-se dele toda a ternura do mundo. De maneira diferente, em medidas que não podem nem devem ser aferidas, também ele, no vácuo da sua indiferença, era alguém feliz.
Em despedida, prendou-a, sem que a percepção a tivesse permitido compreender, com dois beijos, um em cada face, prometendo-lhe que havia de ser feliz, que havia a pulso e por si só ganho o direito a reclamar o melhor. Posto isto, insurgiram-se-lhe, regressando, as divagações pelo tormento. Impôs-se-lhes: por hoje esqueceu-se disso, embrulhando-as num canto submerso pelo insignificante.
Belo texto Parabéns :)
Bom fim de semana
;)
Igualmente.
cumps.
Afixado por: PmA em março 4, 2005 09:19 PM