Estou rodeado de espectros. Para onde quer que me vire, dirijo inapelavelmente palavras às pessoas que o foram e não àquelas que são no momento presente. São diálogos cansativos, gastos e absurdos. Não têm sentido.
Rodopia-se por entre acontecimentos de dislexia: claro, insistindo em não querer viver o facto presente. Não acontece sempre, talvez mesmo só em sonhos. Permitir desconexões perante o real é uma coisa; criar um hiato para com ele, outra distinta – pouco saudável, pouco consequente: daí a estratégia ser outra, gerir o fenómeno pelos parâmetros considerados mais próximos do vulgo normal.
Em verdade, é mais simples ficar-se pelo normal – se estiver disposto a abdicar de parcelas que foram e me são, ainda, gratas. A lógica maniqueísta do presente impõe-se tautologicamente, quase nada sendo preciso fazer para se ir fazendo. Complexo é encadear coisas, querer-lhes dar ordem e sentido, lugar e continuidade (continuidade... sim, mesmo que na inversão, na descontinuidade). Montar a nossa história sem lhe retirar coerência, obrigando-a a ser mais que um perpassar de sucessivos acontecimentos passíveis de serem contados à margem do respectivo enquadramento cénico – como se conta, vez após vez, a História com h grande.
A teimosia desta meta-realidade espectral tem como fórmula coexistir com a outra, com a dos factos palpáveis porquanto comprováveis: a comummente aceite (não como real, como o real: a realidade). A prova inefável de que coexistem passa pela aceitação disso mesmo, que coexistem verdadeiramente, ie, vão coexistindo. E que fácil é essa percepção, encaro-a – a essa coexistência – indiscriminadamente por aí: o truque é só, tão só, não lhe afectar relevância – se queres estar, está; não te ligo, sei-vos distinguir, sei-vos tratar separadamente.
São quase de um irreal demente – sem demência(?) –, interacções com réplica, ou seja, o simultâneo viver-se com o que é e com a representação do que mentalmente se constrói como o deveria ser; espécie de esquizofrenia, talvez, em que um é o próprio e o seu alter – por comando da nossa vontade. Interacções em que conversamos de alto com uns e de baixo com os mesmíssimos uns – alters – que mais não são que espectros na realidade, bamboleantes e bamboleando ao ritmo do som que se toca no íntimo.
Fim de divagação.
“Ellas danzan con los desaparecidos
Ellas danzan con los muertos
Ellas danzan con amores invisibles
Ellas danzan con silenciosa angustia
Danzan con sus padres
Danzan con sus hijos
Danzan con sus esposos
Ellas danzan solas
Danzan solas”
‘They Dance Alone’, Sting