Submissas a quaisquer obrigações que não compreendo, coisas muitas pelas quais nutria especial simpatia vão-se extinguindo. Uma a uma, em momentos particulares escolhidos a dedo por um «alguém» que parece conhecer todos os meus passos, cirúrgico a extirpar-me desses agrados – que, enfim, não os contava como parcimónios: desarraigado e preciso bisturi, palerma incólume ao dano de outrem.
Desagrada constatar tanta veleidade. Fico em crer – querer – não participar dela, mas a certeza escorrega-me pelas mãos; é tão mais confortável acercar-se da desresponsabilização, quando se trata de içar o desagradável deixa-se o móbil ao outro. Simples, eficaz. Rápido e de consequência cognitiva nula. Não exige trabalho e bem célere que é em questão de tempo. Só vantagens. Menos para quem sabe poder denunciar a inverdade assim constituída, o próprio no seu íntimo. O extirpado mantém-se; ou melhor, por sê-lo, não se mantém. O vácuo outrora preenchido com algum aprumo relembra – em persistência contínua – que nem sempre o foi, que lá está a mais (consumado no a menos, sombra pintada num mural de ex-existência); como quando se abre uma porta, ressalta à vista a não presença, o que falta, enquanto que o confronto com o excesso não ultrapassa a medida do acessório.
A montante o que temos, a jusante o que somos. Mesmo sentado na sétima colina, como alvitrar o dono de facto, se o ser ou o que este vai carregando? Nem vale a resposta, não a há consistente: só a mescla promulgada pelo trilho menos cansativo, a que assere com arrojada prepotência ‘um pouco das duas coisas’. Não serve. Menos ainda justifica. Não convence porquanto não é convincente. Dita-se, então, que não releva conhecer – para quê conhecer, continua-se na mesma: não me importa se na ignorância, importa sobretudo, ou mesmo tudo, o já não se ter – na realidade, o único incómodo (não é o compreender o objecto de anseio, quer-se ter o que forçadamente foi apartado; quer-se ter o que não – mais – se tem).
Os olhos embaraçam-se na turva da ilusão pela luz; truques de óptica. Os vícios intrincados também não ajudam. Se a rotina quotidiana é por maioria de razão corrosiva, nem por isso surge manifesta vontade de dela se demarcar. A impossibilidade de inventar sucessivos momentos diferentes – de e na diferença – é coisa tacitamente reconhecida do real; mais, seria apenas outra forma de moldar a rotina – constância marcadamente vincada na vida de todos os dias: outra nomenclatura, outros conceitos, que afinal redundariam no mesmo – coisa igual.
A imagem reflecte ausência. Galardões e homenagens a tempo póstumo. Culpa da comunicação, excessivamente assíncrona – responsabilidades filiadas tanto em emissores como receptores. Ao porvir compete a tarefa – que não invejo – de ser subsidiário de quem, por parâmetros de limite, não pode – por um poder esgotado.
Desbravam-se trilhos à e para a interacção – as sociabilidades do quotidiano são a profecia que se cumpre por si mesmo; e assim será.
“te puedes vender,
cualquier oferta es buena
si quieres poder.
qué fácil es,
abrir tanto la boca para opinar
y si te piensas echar atrás
tienes muchas huellas que borrar
déjame, que yo no tengo la culpa de verte caer
si yo no tengo la culpa de verte caer.
pierdes la fe,
cualquier esperanza es vana
y no sé qué creer;
pepepepepero olvídame que nadie te ha llamado
y ya estás otra vez
déjame, que yo no tengo la culpa de verte caer
si yo no tengo la culpa de ver que...”
‘Entre dos Tierras’, Héroes del Silencio

©
(Ao professor Policarpo Lopes, pela mestria; a outrem, pelo que é devido.)