Uma das curiosidades que tenho quando se inicia um novo ano passa por ler o horóscopo onde os mais importantes acontecimentos do ano já vêm parcialmente desvendados. Quase podia dizer-se venha outro, que este já conheço: tenho um enorme respeito por esta rapaziada, com a sua capacidade super-humana de colocar em quinze linhas – dado ser anual obriga a ser mais extenso que o hábito – 365 dias, 8.760 horas, 525.600 minutos, 31.536.000 segundos, escolham um qualquer que dá o mesmo, com tamanha simplicidade e pragmatismo; é bom saber-se à partida aquilo com que contamos ou não. Fiquei portanto a compreender, entre uma panóplia de informações seguras (possivelmente em primeira mão), que os assuntos domésticos e relações pessoais serão os grandes temas da minha lista de prioridades para 2005. Também que as muletas externas uma vez desaparecidas do cenário ir-me-ão provocar o sentimento de pela primeira vez, sem o auxílio das duas rodas de segurança, estar a andar de bicicleta, devido, claro, a Urano e Neptuno estarem vagarosos nesta casa: ai, os preguiçosos... já me estão a entalar a vida nova (que começou há dois dias) por que esperava! Bom, nada que uma (conte-se, é melhor, com mais) consulta de € 90 não exorcize, se – olha a novidade – em casa (consultório?) própria: uma escolha razoável seria, e.g., a do espírito esclarecido que sentenciou, a mim e a todos do mesmo signo (ainda conseguem ser tão generalistas), o total da parcela de linhas que para aqui transpus. Fica uma ideia (nova, para mim) a executar por um destes dias, recorrer a um consultor (que no âmago acabam por o ser) do amanhã. (ou não, gaita!)
Com algum esforço e boa imaginação, consigo escutar os augúrios cantarolar:
“Listen to me now
I need to let you know
You don’t have to go it alone” (ao som de ‘Sometimes You can’t make it on Your Own’, dos U2.)
É pá, obrigadinho!
Porém, gosto mais de ser um gajo à antiga: deixem-se os horóscopos em paz – ou para quem gosta (desconfio se incluirá os que os redigem, hmmm...). Insultem, apupem-me de conservador, etc, mas retira-se a piada toda quando se conhece o presente mesmo antes de o abrir. Talvez por isso, prefiro escoicinhar pela aventura da descoberta (tchi, o gajo é aventureiro!...).
Por ora, ainda se vão curando as azias deixadas pelo ano pretérito: algumas, bem sei, são de árdua digestão. Um ano de encontros e desencontros, da novidade e seguida consumação, de emprego e desemprego; enfim, animadito mas, apesar de detestar e evitar fazê-los, com um balanço deveras aquém – é provável que com este agora em arranque seja(m) colmatado(s) o(s) omisso(s); ou, again, não...
Subordinado, como prefiro e gosto, à lógica do quotidiano vivido, do dia a dia, vou desvelando pouco a pouco o que me reservo e reservam. Há um dito estúpido, ao encontro do que refiro, que sustenta «devagarinho e sem dor»; bom, percebe-se a intenção daquilo que pretendi informar.
“As you enter this life
I pray you depart
With a wrinkled face
And a brand new heart”,
digo eu (recorrendo outra vez aos mesmos, ‘Love and Peace or Else’).
Um novo ano significa basicamente mais do mesmo, com nuances do inédito. Fenómenos acontecidos que se prolongam, outros destinados a cessar; projectos a redundar no fracasso, alguns ainda em aberto, uns poucos concluídos com relativo sucesso, mais por parir – com toda a certeza, confiando o traçado nas asas da imaginação (que é do melhor que temos – por si só movimenta-se em campo neutro, a sua aplicação é que nem por isso). Mudança, alternância, constância: definem, por mim o bastante, tudo o que é possivelmente expectável – a fórmula não complica, nós sim: e bastante (demais e em demasia, hábito insanável). Ninguém redefine parâmetros alegando mais três, seis, cinco dias: alicerçam-se, constroem-se, marcam-se, definem-se no acontecimento do banal (tendo piada acontecer no banal aquilo que se transforma no extraordinário – desde há muito que assevero não existir espaço para um extraordinário que não advenha do quotidiano, da vida de todos os dias: embora soe a pleonasmo, redundância de termos, tenho-a como verdade óbvia a mais das vezes inerreparada e deixada ao desleixo).
A hipérbole, como figura de estilo, tem uma perspectiva interessante: permite-nos o uso de terminologias que noutro caso seriam tomadas como foleiras, bimbas, clichés de maus fígados, idem, idem... ‘A Man and a Woman’:
“Little sister
I’ve been sleeping in the street again
Like a stray dog
Little sister
I’ve been trying to feel complete again
But you’re gone and so is God”
(U2)
Se os projectos que ainda se vão desenrolando alimentam, por outro lado não saciam. Há mais e tanto por (onde) explorar. O incansável preenchimento – do – impreenchível, a satisfação é coisa de momentos e a alma diz-se de eternidade; nem por isso a arma retorna ao coldre: se se perde, seja-o com honra; arma em punho até «não dar mais», ao cantar do cisne, nunca depondo.
Desde a era de Roma que terras (e Homens) de «França» tombam: ergue-se, porém, num continuado contar da sua história. Verifica-se, perscrutando em círculo, haver aliados num horizonte firmado por hostis. Quantas vezes há que fechar os olhos e correr no – pelo – vazio do desconhecido?
Como diz um estimado amigo, “A eles, car...!!!”.
Finaliza-se, passando por (quase todo) o ‘How to Dismantle an Atomic Bomb’, com o último verso da última música:
“Take this city
A city should be shinning on a hill
Take this city
If it be your will
Take this heart
Take this heart
Take this heart
And make it break”

©
* (‘A Man and a Woman’, U2)
"You can run from love
And if it's really love it will find you..."
U2 a man and a woman
Afixado por: i em janeiro 6, 2005 12:33 PMAcredito que sim.
;)
Afixado por: PmA em janeiro 6, 2005 03:38 PMA sério?You naughty boy!!!...;)
Afixado por: i em janeiro 7, 2005 12:41 PMCantam os outros: cool and stressing...
;)
Afixado por: PmA em janeiro 8, 2005 04:48 AM