janeiro 01, 2005

Look, a new year has begun

Diz-se que se volta o disco e toca o mesmo; será, ou terá que ser assim? Pouco muda para além dos dígitos: que diferença faz ser outra hora, outro dia, outro mês, outro ano? Não há ruptura alguma, não há qualquer hiato – tudo foi conduzido em conformidade com as regras do tempo, escusa-se a ilusão de estarmos em tempo diferente, de uma inovação tipificada que afinal é mera continuidade com as pretéritas e derradeiras horas de um ano ultrapassado com o intuito único de se prosseguir com o instituído.

Bem falando, não se voltou o disco: ao invés, colocou-se outro da mesma espécie, feito da mesma matéria, formatado das – e pelas – mesmíssimas coisas; segue-se a lógica previamente consumada, alimenta-se a constituída estrutura funcional perfeitamente compatível com a alternância dos dígitos – ao dia segue-se outro; com os meses o mesmo; ao ano, o seguinte.
Ou mudamos por nós ou não creiamos que o correr dos tempos, só e per si, o faça por nosso turno: esse tem-no todo, pode deixar-se tentar pelo luxo da preguiça, quando lhe apetecer, se e quando!, talvez «mexa uma palha» e não muito mais. Incorrigíveis, deixa-se o mote a quem de facto possua a determinação de fazer – ou, talvez mais correcto, de agir. Confesso o pecado, o de padecer da mesma maleita: sou preguiçoso; muito mesmo.

Não se evaporará a instabilidade política em Portugal (num piscar de olhos, como é inevitável o ser político asseverar solenemente), a catástrofe asiática tende a um agravamento pós-traumático com o número de mortos a atiçar estatísticas (não mencionando a pobreza hiper-inflamada), o estado-polícia do planeta prosseguirá nas mãos de Bush e dos americanos, a Europa unida promete, sem o vir a ser, alcançar o estatuto de super-potência, a pedofilia a ser julgada em contornos aberrantes graças a um sistema judicial e penal praticamente falido em Portugal (e por todo o mundo ocidental?), enfim, todos demais eteceteras possíveis e passíveis de serem aqui colocados e acrescentado num rol (tipológico) de lista de compras.
Lições de moral não são, todavia, para aqui trazidas: basta a constatação do real no dia a dia, enformado num bolo conjunto pouco agradável à vista (aos restantes sentidos igualmente, julgo).

Raramente a mudança é coisa brusca. Há o que a precipite, sem dúvida: radicalmente, a situação pelos lados do Índico padecerá de alterações aceleradas (padecerá, disse, pois que a causa para os efeitos de mudança foi inegavelmente negativa, nada normal, obra de uma «patologia» da Natureza – que bem mostra estar-se a borrifar para nós, isto para quem pensa que estamos a pauperizar o planeta, único vencedor possível num confronto entre si e a espécie humana). Sabe-se, porém, que esta não é a regra que faz pautar uma normalidade. Mudança é coisa que se cristaliza devagar, sem pressas, dado nada nunca ser sempre o mesmo – acontece todos os dias, abstraindo-se de uma necessidade (demasiado humana) consubstanciada na visibilidade do facto; acontecer devagar, mas entroncando-se no seio de todo o sistema social (bem como no natural, claro).
As novas gerações têm um discurso sustentado numa predisposição para mudar; é mais fumo que fogo. Na realidade, as suas etapas e os seus objectivos iniciaram o seu traçado em gerações ascendentes. A resistência à mudança é maior do que a comummente aceite (não me apetece entrar aqui em discussões fundamentadas no conceito de identidade como justificação tácita dessa resistência) ideia erigida sobre estes conceitos; não quero com isto sustentar que assim é mau – ao invés, por ora defendo que nem é mau nem é bom, fazendo uso de uma complacência a que se resigna um observador independente, i.e., independentemente de juízos de valor. Poderão, as novas gerações, ter de facto uma propensão mais elevada face à novidade; mas esperemos que esta geração se institua: a ela seguir-se-ão outras mais jovens que ocuparão o seu lugar, e por aí fora no tempo... até, quem sabe, a uma (outra) alteração de elevada influência e rápida imposição.

Contudo, (mutatis mutandis, diria um professor que tenho) vive-se um (e só um) dia de cada vez – não há simultâneos e não me venham com histórias de hiper-realidade. Por assim dizer, concentremo-nos no presente deixando coisas distantes no seu local de pertença.
Certamente vários – e variados – serão os fenómenos a surgir como nova aparição (ainda que alguns camuflados num determinado déjà-vu que não reconhecemos, embora possa ser paradoxal à vista desarmada). Conto – e não conto, porque os desconheço – que aconteçam alguns, capazes em força e importância de alterar circunstâncias específicas: como se repete – e não só à porta de um novo ano – tanta vez, «agora é que é!» Será? A resposta virá por si, naturalmente, não é necessário forçá-la. Fica, contudo, a inesgotável réstia de esperança a pairar, crendo que talvez seja.

Forçando o argumento do musical «Cats» (look, a new day has begun), encerro com o título da publicação, ambiciosamente positivo em substância, «look, a new year has begun» e com um excerto de um novo álbum do antigo ano:


“Don’t look before you laugh
Look ugly in a photograph
Flash bulbs purple irises
The camera can’t see

I’ve seen you walk unafraid
I’ve seen you in the clothes you made
Can you see the beauty inside of me?
What happened to the beauty I had inside of me?
And I miss you when you’re not around
I’m getting ready to leave the ground

(…)

Blessings are not just for the ones who kneel… luckily”

City of Blinding Lights”, U2 (How to dismantle an Atomic Bomb)

Publicado por PmA em janeiro 1, 2005 03:32 AM
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