dezembro 30, 2004

Negro claro

Insisto na vã tentativa de descodificar acontecimentos que ainda não foram nem estão a ser. O resultado, esse, sempre imutável: claro que isto corresponde a uma impossibilidade, nem outra coisa poderia ocorrer; mantém-se a nulidade quanto ao conhecimento das cifras do porvir: é esta parte de uma magia que motiva e impele para a continuidade, excluindo o acomodar bem como o desistir.

Frestas há, no entanto, que avançam com (escassas) possibilidades a vir a ser. Espreita-se por entra elas, maquinando estratégias de gestão de maneira a obtermos a maior satisfação; obviamente, é uma perspectiva radicada num economicismo simples, ainda que me sinta tentado a dizê-lo simplista. A paciência torna-se, então, numa arte neste jogar, jogar que nos entretém pelo correr dos anos. Encontrando-se aprimorada, permite-nos a paciência conhecer ou desconfiar do mais propício momento para jogarmos a nossa carta, ou mesmo aquela cartada que se aguardava com elevada (mas graciosa, se pacientes) espectativa. De cartas sei que nem tudo passa pelo saber jogar: é, de igual forma, um jogo estipulado pela sorte; e a sorte, como é sabido, funciona em contornos aleatórios, vindo, ainda que diminutas vezes, inexoravelmente bater-nos à porta – que mais de tão fácil do que tão somente esperar, tendo o facto como garantido? Bem, claro que existem dificuldades intrínsecas, mas deixemo-las por ora.

Com a impossibilidade de estarmos conscientes do que permanece na incógnita do porvir, conduzimos boa parte do nosso quotidiano num vivência definida por um negro claro; claro porque há o plausível, o possível, o que, por intermédio de uma enorme quantidade de indicadores, é espectável através das nossas acções e a do outro (leia-se no plural). Negro, todavia, dados os níveis de incerteza, variáveis numa escala de grandeza, naquilo que de facto irá ser (vivido, experenciado).

De que serve esta lenga-lenga. O mais provável é que para nada. Excepto, talvez, para negar condicionalismos e determinismos radicais; que a realidade se vai montando, peça a peça, pelo derivado da acção: nossa (individual) e do conjunto (colectiva).
Conta-se assim que devemos agir em função de objectivos (nunca descurando os meios, que nem por isso são sempre justificáveis – asseveraria Maquiavel, para quem só os fins importavam), a fim de obtermos o objecto da nossa vontade (pode-se, igualmente, ler no plural). Quem não os tem manifestamente – objectivos –, irá consumando, ainda que no etéreo, imediatismos – coisa que, com largas possibilidades, constituirá per si objectivos no seio de um projecto de vida.

Estabeleci, claro está, um esboço de um projecto de vida. Contudo, parco ainda em objectivos, pois que um há, pelo menos, que terei de voltar a ponderar.
Tudo, porém, a seu tempo – vive-se no momento o negro claro do indefinido.


©

Cumprimentos,

Publicado por PmA em dezembro 30, 2004 10:04 PM
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