Baixinho, convém, desconfia-se que as paredes têm ouvidos; e eu acredito. Os grunhidos das multidões são desconfortáveis, julgo mesmo serem prejudiciais à pele, como aqueles cigarros que assim começaram a ser rotulados. A par de centenas, ou milhares, de bocas esvaídas em sons vagos e indistintos, parecendo a uma só voz, coabitam em dobro ouvidos – que nada e tudo escutam. Ensurdeço e brutifico com este uníssono e baixinho, apenas assim tenho coragem de o dizer, «maldito coro!», permanecendo num andar mecânico de cabeça erguida a olhar para lugar nenhum. «Raios partam este maldito coro!», e todavia ali também estou, imiscuído naquela coisa amorfa e conjuntural, desprovida de lógica e coerência internas. De baixinho, se a multidão tudo ou nada escuta, desconfio que as paredes dos edifícios que nos ladeiam possuem ouvidos muito específicos a si; quem sabe o que poderão falar, essas paredes, portadoras de infindáveis segredos que com o tempo apenas partilham.
Seria incapaz de (sobre)viver isolado, mas a multidão empeça. Verdade seja dita, Lisboa, uma verdadeira cidade – outra qualquer –, é um espaço que não abandonaria à troca pela calma – demasiada – de um espaço rural ou não urbano. Tenho em mim o culto de vida urbano; não posso assegurar com franqueza que se trata do bichinho metropolitano, parece-me exagerado e que não o sou – metropolitano. Ser-se metropolitano exige uma maior entrega à urbe em comparação àquela que admito.
Gosto de pessoas, gosto do toque humano na paisagem natural; só não gosto, definitivamente, da multidão, talvez por ser um tanto que na realidade nada é – apenas encontro esporádico e circunstancial, incapacitado da propriedade do laço social. Contudo, percorrem-me no sangue as avenidas circundadas por construções de habitação ou de serviços, a panóplia de semáforos e cruzamentos, as circulares de alcatrão, os eixos que recortam a cidade de lés a lés, as suas diferentes coroas destinadas a serviços e comércio, as mistas, as de primeira residência, o frenesim que por elas perpassa, a mais ou a menos, nos locais de lazer desde o centro ao periférico. Não preteriria de toda esta matéria dinâmica por lugar algum de pleno sossego – não, faz, tudo isto, parte da seiva que alimenta a minha vontade; definharia ao perder este sereno sossego à sombra do contínuo ruído que a torna peculiar e tão especial.
Localidades sem iluminação artificial, sem o constante burburinho típico dos quatro (ou mais; ou ainda, menos) rodas, encantam por momentos pautados pela escassez: é simpático por dias, não para concretizar toda uma vida – embora em nada tenha descrédito por eles. As estrelas que à noite são tremendamente presentes e próximas, o silêncio típico quebrado pelo discurso de espécies animais que inclusivamente, em certa medida, desconheço sufocam-me em absoluto. Fico tonto, gazeado por um real que me é estranho e que parece querer-me a ele aglutinar; é, sem dúvida, um cenário lindo, porém castrador para aquilo que (e quem) sou.
Só a cidade me liberta, preenche vácuos quando me embebo na sua (poluída?) atmosfera. Claro, atmosfera não só na crua acepção do termo, mas extrapolada a toda uma realidade simbólica (também poluída, esta atmosfera?). É um vício, experimentei e não me desprendo, intoxicou-me com a sua opulente vivência fazendo-me não desejar outra (coisa) que não ela.
Da vivência urbana guardo, contudo, memória – impossível não fazê-lo – de outras componentes, estas bem menos desejáveis – o inverso, sustenha-se. Uma delas, a única que referirei, é a da estupidez do amorfismo da multidão constituída; coisa feia e invariavelmente despropositada, partilhando objectivos que se esgotam em imediatos concluídos, anónima por definição. Abomino-a, anuindo contudo ser mal necessário a quem temos de aplicar a nossa complacência.
A postura a que me reservo torna incontornável a compartilha de existência com esta especiúncula de actor social. Compreenda-se, porém, que multidão é coisa mais abrangente que aquela – a mais comummente apreendida – a que fiz menção. Há, creio, multidões bem mais particulares e de (bem) menor dimensão. Quantas vezes, a fim de se conviver com gente que nos é querida, somos confinados a fazer parte integrante da multidão? Tantas que as vejo como demais. Esta multidão reduzida em número assoma-se, na minha humilde opinião, como um algo portador de maiores perigos (ou efeitos indesejáveis e indesejados). Menos ouvidos, logo menos bocas palradoras; efeito: maior atenção a que é prestada àquilo que nos sai em forma de palavras e, porque os olhos se servem é para ver, à linguagem corporal. Fisicamente menos incomodativa, a pior característica desta tipologia de multidão é o facto de ser substancialmente mais perniciosa ao nível da identificação do outro (ie, conhecer-se quem e o que diz e subsequentes consequências), do – quase inexistente – anonimato.
Rodeado pela multidão tipologia dois – a última definida – remeto-me ao falar de baixinho: ninguém escuta, ninguém ouve – parece. E muito, em demasia, se torna coisa pública, de conhecimento generalizado, sem que o notássemos e, menos ainda, o pretendêssemos. Assim sustenho, até as paredes têm ouvidos: não as quero a escutar o que a outros, que quero, digo; muito menos de ti, de nós: mesmo que ainda não te tenha conhecido; e se te conheço, pois que vou conhecendo, quero-te: quero-te em privado.
Quero contigo, quero que sejamos os protagonistas; e não parte de um coro que só serve o efémero e o volátil. Opões-te, opomo-nos à multidão; tu e os – poucos e bons – que vivem – por um gostar e respeito recíprocos – lados a lados (que lado a lado, em permanência ninguém deseja) comigo.
Contigo, protagonistas e não coro repetindo em uníssono um diferente sempre igual. Contigo, preconizando o protagonismo da diferença que desta maneira se alcança. Contigo, actores e não agentes – agindo em manifesta contradição perante o mero ser-se função.
Protagonista de uma história verdadeiramente nossa, desconectada do pensar e sentir comum que em excesso enjoa.
Concluo recorrendo a uma citação que me parece dificilmente superável quanto à pertinência de encaixe nos ditos deste post:
“A multidão, de repente, tornou-se visível, instalou-se nos primeiros lugares da plateia da sociedade. Dantes, se existia, passava despercebida, ocupava o fundo do cenário social; agora passou para a boca de cena, é ela a personagem principal. Já não há protagonistas: só há coro.”
José Ortega y Gasset, “A Rebelião das Massas”

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