dezembro 20, 2004

Dissolvências

Não te via há muito tempo; a ti, como a muitos outros. Fizeste-me recordar pessoas idas, amizades adolescentes que se ficaram no tempo: é bom assim, tudo tem um prazo de validade, sem continuidade indelével prometida, mais vale ficarem as memórias, memórias das – coisas – boas que proporcionam uma estética elegante daquele belo elegante congelado e condicionado pelo que foi.

Foi agradável rever-te. Simultaneamente estranho, tenho que admitir. Torna-se tudo diferente, o modo como agora nos olhamos, as palavras que ora se trocam. Muito permanece igual, ainda que nos saibamos estranhos numa realidade vincadamente própria: não é a nossa, é a tua e é a minha – perspectivas divergentes, descabidas de oportunidade de reunião.
Mesmo assim, reitero, foi agradável rever-te. E a alguns outros igualmente presentes, comungando do mesmo espaço, indo, porém, a caminhar por percursos definidos pela vontade própria de cada um como ser individual. A dinâmica é confusa, dava conta do facto quando me calava e observava o que ia acontecendo. Surgiam-me, esses acontecimentos, como imagens de fotografias que se sucediam com um encadeamento lógico e temporal, da mais antiga para a mais recente – e tudo isto advindo de umas poucas horas, o tempo que estivemos (todos) juntos.

Falámos disparates, dissemos absurdos derivados de circunstâncias que mais remetem para o que foi do que para o que estava a ser. A novidade esgota-se, ou pelo menos esgota-se em coisas nenhumas do quotidiano de hoje – rapidamente são discursadas até que nelas se coloca pedra em cima.
É engraçado constatar que não fossem os traços físicos diríamos estar por onde estávamos, estagnados numa época, enfim, inseridos numa qualquer estória: quando dali saíssemos far-se-ia um natural regresso à actualidade, deixaríamos todos de ser aquele nós que ali estava (artificialmente construído).
Aqueles que ali estavam, que eu revia, onde também tu te incluías, dispensavam os trâmites das apresentações: dir-se-iam figuras fantasmagóricas, conhecidas entre si desde o começo das eras. Montamos um esquema sem perguntas, sem carências de primeira experiência – só o término dessa ‘reunião’ era facto assegurado, até lá viveríamos o limbo como mito do eterno retorno.

Ao dia seguinte a normalidade surgiria novamente engrenada na sua estranha perfeição; o anterior, o dia anterior, era coisa pertencente ao universo do sonho, um molho de fotografias lógica e temporalmente encadeadas nas quais, porém, não – mais – nos revemos.
A cada um o que é seu. Aceitamos interlúdios porque nos divertem e libertam da pressão do real vivido de todos os dias, por mais nenhuma razão. Depois, claro, reclamamos as nossas pertenças, a nossa rotina. Afinal não somos espectros, somos carne e osso – é por aí que devemos continuar.

A rotina é substância do belo, aí temos e construímos, dia a dia, a nossa identidade. Talvez num outro dia nos permitamos reabrir a porta ao limbo para de seguida, saciados, a voltarmos a encerrar. Tudo faz parte, até – especialmente – o álbum de fotos.


©

Publicado por PmA em dezembro 20, 2004 09:23 PM
Comentários

bem reaparecido sejas! (bem reaparecido...isto diz-se? ;) )
aquele abraço!

Afixado por: ze biscas em dezembro 20, 2004 10:08 PM

Boas, pazinho.
Diz-se, pois. Retribuo esse abraço.
;)

Afixado por: PmA em dezembro 20, 2004 11:04 PM