dezembro 12, 2004

Tarde demais

Das coisas mais fáceis que existem é o apercebermo-nos de que é tarde demais: aparece-nos pura e simplesmente defronte do nariz como facto consumado sem retorno, fenómeno ao qual não reportáramos a devida atenção, ou do qual não desconfiáramos, e que num repente surge descobrindo o véu. Não se evita um tarde demais exactamente por ser tardia qualquer redefinição do e no processo: inexistem receitas para o que não é remediável. Tarde demais é um final – um final de processo – pelo que continuação é facto não verificável; tarde demais é dogma, irresoluto e imoldável: aparece porque tem de aparecer não permitindo discussões nem argumentos. Tarde demais porque simplesmente não ousámos(?) ser capazes de o evitar.

Uma particularidade curiosa do tarde demais concentra-se num paradoxo: o acontecer cedo demais – pelo menos na ideia que temos ou formamos quanto ao processo experimentado que antecede o ponto derradeiro assumido na máscara do tardio em demasia. Não deixa de ter, assim, uma certa postura irónica, valência que dá corpo a situações deveras comuns: nomeadamente, as de ficarmos eternidades de tempo em questões e interlocuções introspectivas fundadas num porque é que terá sido tarde demais. Obviamente, estas introspecções raramente conduzem a algum lado; ao invés, têm o condão de confundir e baralhar mais o sujeito executante. Na realidade seria mais razoável apartarmo-nos desta infrutífera e ineficiente tarefa mas, porém, aqui entra sempre em contradição a particularidade da dita natureza humana (insondável nos seus desígnios, para bem ou para mal).

Embora devido às propriedades a si inerentes, apenas constatamos o que é tarde demais tarde demais. Mas se não o fosse – tarde demais – nunca nos aperceberíamos de tal mesmo que cedo o suficiente. Brincamos àquilo que metaforicamente é tão bem representado pela figura da pescadinha de rabo na boca: circunferência que se desenha circularmente a si e per si.
Outro paradoxo a acrescentar é o de o tarde demais fluir no momento certo; enfim, antes que se tornasse efectivamente tarde demais (dou um exemplo um pouco descabido, mas que julgo esclarecedor: o da violência doméstica, à qual se antecederam indicadores suficientemente relevantes para a predizer e prognosticar). Um tarde demais desta categoria – presumivelmente demasiado prematuro – é pois um elemento de equilíbrio que esquiva atempadamente um tarde demais em dimensão e prejuízo bastante mais danoso.

Ao tarde demais apenas se pode retorquir com uma atitude: a de que – em regra – nunca é tarde demais para recomeçar.
Com um final resta o desafio de novo começo, tal como por inúmeras vezes somos compelidos a recorrer a um restart nos nossos computadores pessoais (com os ‘alegres’ agradecimentos ao sr. Bill por parte dos utilizadores de sistemas operativos Microsoft). E quem se entusiasma com desafios um tarde demais torna-se – outra – premissa conducente a um possível enriquecimento pessoal, com novas telas a desenhar, novas incógnitas a decifrar e novo caminho labiríntico a mapear.
Enfim, um tarde demais pare – assumindo a norma – uma renovada aurora, com cercas de espinhos e vias douradas – como tudo o que é humano. Acorda-se, levanta-se e, aos poucos deixando os sonhos e o sono para trás, caminha-se no decurso de novo dia (leia-se nova vida...) proeminente e prometedor de ganhos num vivido não repetido e – felizmente – (parcialmente!) desconhecido.

Pois então se é tarde, nada é impeditivo que se prospecte o restante real que fora, até então, velado por uma neblina em facto dos – nossos – interesses concomitantemente direccionados.
Torna-se tarde demais para o tarde demais, que é redimensionado para o passado: géneses são coisa não característica de termos irrevogáveis, propiciam antes a repetição do vivido e do não vivido, a repetição do substituível pelo substituto que urge em se consagrar.


Caríssima(o)s, cumprimentos.



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Publicado por PmA em dezembro 12, 2004 10:11 PM
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