Nos tempos da Preparatória (ainda assim se chamava) era habitual verem-se miúdos a trocarem a expressão do «tens cromos para a troca?», ávidos por obterem aquele(s) especial(is) que não possuíam.
Quer a idade quer o tempo passam; os interesses também, manifestados agora noutras formas e necessidades. Porém, a expressão dos «cromos para a troca» mantém-se actual quanto à sua tónica (se elaborarmos um pequeno exercício de metáforas). Não recaindo actualmente o interesse nos cromos (mal seria, com esta idade), a troca verifica-se manifestamente nos nossos quotidianos. É uma espécie de ritual particularmente intrínseca aos que da minha faixa etária se encontram solteiros (ou até mesmo divorciados), que decidiram (ou por eles decidiram, que também acontece) romper com relacionamentos de longa dura, enfim, aqueles que algum iluminado decidiu apadrinhar como os encalhados. Talvez seja coisa natural agora que vivemos num auge do homem metropolitano e do nascituro metrossexual (conceito difícil de entender; parece que entenderam ser um neologismo bonito, que ficava bem – a sua explicação, quanto a mim, permanece monstruosamente dúbia). Possivelmente muitos dos encalhados cairão na amplitude desta coisa de ser-se metrossexual: deixam de existir seres sós e solitários, só aqueles que optam por um estilo de vida metropolitano e... metrossexual(?). Porventura seja um augúrio para um futuro não tão longínquo. Afasto-me, contudo, do que me motivou à redacção deste post (ou o que raio é isto – estas formas linguísticas pós-modernas confundem-me...).
Pois, mesmo assim a história do metrossexual acabou por vir ao encontro, ainda que parcialmente, das minhas intenções. Na sua lógica subjaz algo que me importa para aqui.
Os dias que correm. Nos dias que correm os cromos coleccionados são representados por aquilo que constitui relacionamentos passados – estritamente afectivos ou não. São cromos colocados em caixinhas de memória, dos quais bastantes vezes não desejamos guardar recordação mas que uma vez por outra assomam ao consciente: ‘é pá, já tive este cromo!...’, ou ‘tenho [no passado] este cromo!... e eu que o julgava perdido...’ O presente não tem cromos, exceptuando aqueles com madeixas aloiradas (porque estão cada vez mais burros), mas pessoas reais que adquirem o seu estatuto de objecto de caderneta num curto espaço de tempo; por vezes até um trimestre é demasiado para que o consideremos «presente». Logo, as colecções vão crescendo conforme a habilidade do coleccionador... ou então casou-se, juntou-se, estabeleceu nova relação duradoura: o que igualmente tem o seu elevado grau de improbabilidade, já que na verdade os coleccionadores são ainda pouco astutos ou demasiado agarrados aos troféus pretéritos – onde normalmente há um de eleição, a quem (irracionalmente?) dedicam uma especial dedicação (aqui aconselho a leitura antropológica das teorias de endeusamento ou as tradicionais obras da psicanálise freudiana).
Realmente o termo troca ganha alguma pertinência se estabelecermos a ligação com os célebres paradigmas das substituições: enfim, acorda-se na troca aceitar um potencial substituto para um lugar ou espaço que vagou. É uma forma pouco romântica de abordar os afectos humanos, porém não é de desdenhar em termos pragmáticos. Quando se trata de beneficiários somos invariavelmente os primeiros em que pensamos; revertendo a lógica, quando se trata dos que saem deficitários... mais vale serem outros e não nós! Como é belo este utilitarismo individualista! E poupa tantas (e tantas) dores de cabeça. Acabamos por nos deparamos com um paradigma sistémico circular: o beneficiário da troca fica então (momentaneamente) gratificado; aqueles que saem pela porta dos fundos sabem à partida que não tardará muito para que tornem a sentir o bafejo da sorte. É um jogo sem derrotados absolutos, vence-se sempre – já se sabe, mesmo que o momento seja de derrota nesta continuada batalha, que há mais moscas em busca de mel. Pois, quase que passava em branco: e os sentimentos, no meio disto tudo, onde ficam? Reduzidos ficamos, então, a um automatismo de seres quase máquina? Não, não é assim tão simples como ficara em aparência.
Por muito que se padronize, ou se tente padronizar os indivíduos, é empreitada impossível retirar a cada um as suas particularidades específicas: a sua individualidade. Podem-se até trocar pessoas como acontecia com os ditos cromos, mas não se podem baralhar as cartas de neurónios onde se refugiam os sentimentos de modo a que tudo fosse um linear excluído de repercussões: ressentimentos, raivas, penas e dós, ansiedades, vazios impreenchíveis ou de preenchidos de lacunas...
Com a troca de cromos vêm os calmantes para ansiedades inexplicáveis, ansiolíticos, anti-depressivos e mais trezentas drogas passadas por um psiquiatra ou médico de família que se mostram muito preocupados com o estado da situação. Vêm as doenças de alma porque ‘gaita! era mesmo aquele o cromo que eu queria!’
Que seja. Agora esse repousa noutra caderneta – quem sabe não haverá cromo futuro mais em conta que aquele que era o que queríamos? Até lá siga o jogo, vamos para a troca?

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Cumprimentos com os melhores votos – afinal, não estamos quase no Natal?