novembro 14, 2004

Fim-de-Semana

O manto escuro do céu azul desdobra-se de novo. O Sol ido promete regressar amanhã: por hoje cumpriu o seu destino. Estrelas visíveis há poucas, inúmeros farripos de água em estado gasoso cobrem-lhes a face. Frio a dar com pau – é sempre assim no Outono à beira mar –, nem por isso fazendo-me abdicar da ideia de uma caminhada, ainda que curta, por ali onde as derradeiras ondas se espraiam. Havia dias que alimentava a vontade (re)encontrar os seus murmúrios – doces, ternos mas impregnados de melancolia; o vento, sopro impiedoso, tornava-me relutante em erguer a cabeça, aninhada na gola de um blusão demasiado fino, e contemplar com a devida atenção aqueles dois azuis que se confundem no horizonte: por cima um mar de estrelas tímidas, por baixo um mar de águas, lágrimas e segredos.

A pior parte, invariavelmente, assoma logo de início, caminhar num endunado areal seco – já me questionei se se pode tirar um curso de modo a que evite contusões derivadas das constantes vezes que me torço em vinte zonas diferentes. Às primeiras passadas no espaço que aos poucos se torna mais molhado, a disposição parece continuar a acalentar-se. Gosto de olhar para trás e observar o carreiro das marcas deixadas impressas naquele chão – uma ténue ilusão de grandeza defronte aos actos pretéritos; num abrir e fechar de olhos desaparecerão, negando assim a tudo e todos que eu alguma vez por ali estivera. O assobio e o frio do vento convencem-me a escutar, usar a audição em detrimento da visão. Rendido, entrego-me a escutar.

Porém, acontece que quando pretendemos escutar o exterior sejamos, de igual maneira, forçados a incursões por nós adentro. Foi o que sucedeu – e não consegui equilibrar os pratos: do mar vinham sons que me embalavam apenas para histórias interiores, histórias a que sempre que posso me escuso. Assim, sem pretensões de ir a um lugar de predilecção e pôr-me a falar comigo, acabei por acumular conclusões – para as quais devia estar preparado – que por muito que verdadeiras me estavam a ser desmedidamente desagradáveis.

A responsabilidade é nossa, a das ilusões. Responsabilidade que apenas partilho comigo e em segredo. Irra, mais as ilusões... foi ela, ilusão, a iludir-me ou eu, ao iludir-me, que a criei? Não importa: basta saber que existe. E se existe desvirtua a realidade, empena a engrenagem do sistema. Mais quando são os próprios que se fazem passar por parvos. Sussurro que o único Mar para mim seria o da Tranquilidade, lá mais acima.


©

You can fool yourself
you came in this world alone
(alone)

‘Estranged’, Guns n’ Roses

Publicado por PmA em novembro 14, 2004 11:43 PM
Comentários