Faz hoje um mês. Era domingo, lembras-te? Optaste, disse que faz hoje um mês, por escolher a porta. Querias mais, mas para mim só existiam duas escolhas possíveis – que se anulavam. Foi a porta, foi sair. Não me despedi. Nem devia. Só me despeço daqueles que ensejo voltar a ver. Ao fechar-se a porta do elevador, e com ela tu, deixei imediatamente de te conhecer.
Recordo o Veloso quando determina que não se ama alguém que não ouve a mesma canção. Tu gostavas de Stones. Eu de Guns, Manic, Alice in Chains, Red Hot, para não ir buscar o Synthpop. Em comum só Morcheeba, Sting e um pouco de U2 e Enya; talvez também James, Entre Aspas e Leonard Cohen. Toleravas Sétima Legião, Heróis do Mar, Zeca Afonso e Stone Roses, Housemartins, Pet Shop Boys. Eras implacável com Pixies, Sisters e, mais ainda, os Faith no More dos meus tempos teen. E eu que não suportava UB-40, Simple Minds, Simply Red e os – ódio de estimação – Cure.
Fosse a música, como canta o Rui Veloso, um critério de aferição e já estaríamos, desde muito cedo, a par do que nos aguardava. Lá está, não chega mas ajuda – deixa antever que a qualquer instante, num qualquer entroncamento, seguiríamos por caminhos distintos, a divergir para o infinito.
Querias mais, querias que ponderasse a hipótese de existência de uma terceira possibilidade que não tardaste em apresentar. Porém, o cansaço continuado de um desempenho no papel de tolo era suficiente para que, de forma preste, rotulasse a tua terceira opção como uma derivada da minha segunda: mantinha, convicta e inabalavelmente, as duas iniciais – e finais – hipóteses de escolha. Ao fim e ao cabo, dois radicais: ou tudo ou nada, o tolo é que não – não cabia no leque de opções esgotado em dois por uma paciência esgotada. Infelizmente para nós, já passou a época de brincarmos e sermos criancinhas. A plausibilidade adulta constrange-nos, em nome da causa da maturidade (?), a irmos escolhendo aqui e ali, deixando ao indelével esquecimento os caminhos que nunca foram escolhidos e que jamais serão trilhados; há que lidar com a escolha que, a modos de uma linguagem binária 0/ 1, verdadeiro/ falso, se traduz em sim ou não: o talvez é mera especulação quando é impossível parar – ou esquerda ou direita, ou cima ou baixo, isto ou não isto, isto e não aquilo.
Continuo a ignorar, assim prefiro fazer o meu julgamento, as tuas pretensões. Desejarias mesmo, sem tretas nem mentiras, viver uma considerável parte do teu quotidiano em ângulo recto? Vejo-te, ponto A, ao centro: absorvendo virtudes e vicissitudes dos extremos, pontos B e C. B no topo, C para o lado; sem que um contacte com o outro – o ponto de intersecção é um único, tu: os outros para além dessa intersecção viviam realidades – felizmente – díspares e distintas. Contudo, a determinada altura, exige-se que uma das rectas suma, para que apenas uma impere: só assim se obtém dignidade, se obtém o sentimento de se ser e estar preenchido – uma exclusão era virtualmente impossível de não acontecer. A resposta, no entanto, cabia ao vértice – que eras – acabando por se mostrar, dando-se ao conhecimento.
Compreendes que se é incapaz de agradar a gregos e troianos? Precisaria, para tal, ter Helena o dom da ubiquidade e, mesmo assim, toda uma ginástica que o ocultasse: que nunca poderia ser descoberta, essa particularidade que asseri ser dom.
O embate violento que implicava a extinção do outro, ainda que num entender simbólico, podia ser protelado; todavia, tal como facto histórico ou evidência, assumia o contorno mais profundo da inevitabilidade. Só precipitei o que aguardava julgamento: inocente ou culpado, 0/ 1, verdadeiro/ falso. Tamanha simplicidade que de facto impressiona – as consequências, pois é, essas é que evitavas a tudo o custo colocar à tua frente, nos teus ombros, a quem de direito – tu – assomava o ónus da decisão.
De entre os males venha o menor. Quase sempre assumimos esta filosofia quando confrontados com evidências bem familiares e deveras particulares. Já que bem não provia em aparecer, ficou o mal menor: mais um destino traçado, numa vida que entronca indefinidamente, que me deixava com a(s) certeza(s) de como agir em prol do que ainda vem – afinal, saíste pela porta.
Saindo pela porta pretendias impor-me uma ilusão que logo exterminei – o dar lugar a dúvidas tinha experimentado o seu suficiente. Na tua ideia querias fazer valer um vou ancorado a um posso voltar. Era já tarde para essa solução, coisa incipiente em demasia. Aglutinei na mesma bagagem as tuas propostas dois e três: sais, se queres; sais mas não entras; ou entras, se sais, para o meu departamento neuronal do esquecimento: era – e foi – esse o meu veredicto. Não obstante – as tuas razões tê-las-ás tu – deixaste a porta do elevador encerrar, encaminhando-o para o r/c, para a saída da tua opção – tornada aqui também na minha. Não ficaste porque – agora abro alas à minha presunção – nunca quiseste ficar. Nunca quiseste ficar – terei que fazer-te ver a destrinça entre paixão e ombro amigo, valores que querias que se perpetuassem em pessoas distintas? – e muito menos eu pretendia fazer-me passar por fardo ou obrigação. Não há finais felizes. Há somente finais. Este foi um final – mais um, tão somente mais um.
Mentiria se assumisse aqui a postura do já te esqueci. Não careço da necessidade da mentira – ou da ilusão. Claro que não esqueci. Aconteceu rápido, fulminante. E o passado é uma carga demasiado pesada para dela me conseguir apartar duma só vez. Vivo-te com intensidade dentro de mim, ainda que a tua presença se encontre a séculos de luz. Não me envergonho de o assumir. Aliás, porque seria motivo de vergonha, mesmo contando com estes – tantos – últimos vexames por que me fizeste passar? Assumo e assumo com orgulho, assumo como quem não nega a sua existência, logo o seu passado, e que experimenta nova fase de reconstrução. Sim, que ainda vou pegando em pedaços no sentido de me fazer só um, colocando peças (idas, expectativas, frames passadas, realidades que vou aflorando) que monto cerebralmente no puzzle 3D passado/ presente/ futuro. Excomunguei-te do meu futuro? Mentiria, novamente, se limitasse a resposta a um redundante sim. Claro que a tua extirpação do meu futuro pressupõe mais dias vividos, mais experiências, mais esquecimento de ti ou o armazenar de expectativas, projectadas ao teu eu, no devido baú que é o das memórias – do passado, irredutível e irreversível.
Tal como um jogo de lego acabado de desmontar, a reconstrução principia-se pelo que é devido: alicerces, estruturas e todos os acabamentos que se possam seguir. É construir do zero-ground. Penso que é a próxima etapa, a senhora que se segue. Quando o zero-ground for coisa minha, então posso pacificamente reencontrar os outros através da única forma possível: de mim. Até lá os afectos de paixão vão ocorrendo em moldes de soslaio, já que não existe – mas só por ora – um sistema de suporte adequado: se sempre em reconstrução permanente, o meu padece de uma fragilidade infelizmente em demasiada carência quanto ao padrão.
Vou-me agarrando ao que tenho – o que por si não é pouco, constituindo insulto se sequer o insinuasse – vivendo, como sugere uma pessoa bem mais que querida, um dia de cada vez. Aos poucos a definição aguça-se, permitindo antever uma réplica mais firme da firmeza que tenho e sou.
Tudo continua estranho, tudo continua difícil. Mas como o futuro se desvenda pelo presente...
Abandonei a área de criminalidade do mestrado que seguia. Concorri a outra, à área do conhecimento que me parece mais fácil, do mestrado em Sociologia da FCSH. Já sabia a priori vir a ser aceite – se no ano (lectivo) que passou o fui... – e pretendo mostrar(-me) quanto valho.
Outras opções a nível profissional vão ganhando sustentáculo, ganhos em premência objectiva. É tempo de mudar, é tempo de aceitar, é tempo de (alguns) pontos finais. E voltar a ser o que fui, com as destrinças devidas quer à idade quer à maturação implícita: mas o irrevogável de sempre, ie, eu.
“Things fall apart; the center cannot hold
(…) and everywhere
The ceremony of innocence is drowned
The best lack all convictions, while the worst
Are full of passionate intensity.”
‘The Second Coming’, William Butler Yeats

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“Já o fez andar na lua,
no meio da rua e a chover a sério.
Ela quando lá o viu,
encharcado e frio, quase o abraçou
Com a cara assim molhada
ninguém deu por nada, ele até chorou...”
‘Cinderela’, Carlos Paião
Quando julgamos não saber mais sorrir; e tudo o que falta é apanhar-lhe o jeito.
"Para ser grande sê inteiro:nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.Põe quanto és no mimimo que fazes..."
Ricardo Reis
:)*